quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Jovens

Aos jovens deveria ser dado todo o monopólio dos sentimentos encantadores de descoberta; aos adultos a confraria de todas as sensações permitidas e vividas em que os sentimentos renovados passassem bem superficialmente como coisa nostálgica, sem a importância que o sofrimento e o deleite dariam a eles. Nós, homens e mulheres adultos, não somos uma casa sem moradia, ou melhor, não somos uma casa abandonada e baldia. Nossa memória faz o papel dos quadros nas paredes, dos livros na estante, dos filmes abandonados na prateleira, dos ambientes dispostos e mobiliados. Olhar para dentro de si, quando adulto, são paisagens descobertas sem espanto, sem assomo, sem assombro. São nossas próprias paisagens fugitivas e furtivas. Reviver sentimentos depois de adulto, claro, que é válido. Um 'novo' amor? Não sei, porém, se adequada esta disputa com a juventude. A juventude sabe que a dor da separação é eterna, que o amor correspondido é sublime, que nada neste mundo é mais importante do que os prazeres da liberdade e da própria vontade realizada. A pouca experiência dos jovens faz a novidade certa e única. Meus irmãos que consagram seu tempo à vida com a experiência de décadas passadas, como eu, eu os convoco à reflexão noturna ou quase diurna do Horário de Verão, com uma hora temporariamente roubada de nós. Deixemos aos jovens as reais descobertas do que já somos. Sofremos porque 'viver é sofrer', nos sugere o filósofo. Para os jovens sofrer é viver sem a mínima noção do porvir. Não há melhor compreensão do que somos, senão viver é sofrer. As décadas nos envolvem da cabeça aos pés inùmeros sentimentos contraditórios, e isto é sofrer. Nada sobra em nossa confusão sem paz. A não ser nossas memórias. Eu gosto de pensar assim: aos jovens suas vidas entregues às experiências; a nós as experiências como sinal de vida. Somos lá um tanto jovial, mas para que mesmo? Querer aprisionar o quê e com quem? Ser livre é seguir. Os jovens, sem saber, estão se prendendo para descobrirem algo que os adultos amam ter: a real liberdade. Terminou depois dos 30? Sorria. Definitivamente não somos mais jovens.

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