Para que o amor puro aconteça, me parece necessária boa dose de inocência e de pureza, ao mesmo tempo. Veja que falo de um amor primordial, que vem antes, bem antes de qualquer malícia e desconfiança. Basicamente, quando o amor surge em nós, ele esvazia nossa individualidade. Quanto mais a pessoa amada cresce em amor em nossa mente, menos somos para nós mesmos. É bonito e inevitável que seja desta maneira. Particularmente, eu creio neste amor puro. Hoje li que, do ponto de vista neurológico, o amor romântico é uma dependência, como qualquer outra "dependência". Somente quem já sofreu por amor romântico sabe o estado em que sua vida se encontra. Um estado completamente passivo, dependente das ações do outro, da vida do outro, do comando do outro. Este amor romântico existe e, diferentemente do amor puro e inocente, despersonaliza a pessoa amante. O amor romântico, sua ideia e concepção, virou moda ao longo dos anos 1800. O amor, mesmo assim, é uma força Universal antiga, assim como a morte, e seus mistérios. Os dois temas universais que fazem dos seres humanos algo peculiar. O amor junta as pessoas; a morte as separa. Quando há morte por amor, existe o maior dos paradoxos justificado somente pela mente doente. Matar ou matar-se por causa do amor não tem sentido do ponto de vista da lógica da pureza, da inocência, quando tudo começa. Já senti amor romântico na minha adolescência. Hoje creio no amor puro e inocente, de acolher, querer bem, cuidar da vida emocional do outro, mesmo porque somos sentimentos e vivemos nas emoções. Para mim, o amor é sacrificial, e ele tem grande representatividade em muitos corações. Os cristãos - e eu sou cristão - sabe do sacrifício de Cristo para purificar a humanidade. Esta reflexão é humana, não religiosa. Mas sacrificar-se é amar incondicionalmente. Ao amar e ser amado, não podemos tirar a liberdade de ninguém, e não ver podada nossa liberdade. Nossas experiências ao longo do tempo tiram de nós aquela pureza inocente da vida. Muitos de nós estamos corrompidos pela filosofia da dor e do sofrimento, pela reflexão do dia a dia, pela abstração em habita nossos pensamentos e as necessidades de sobrevivência. Por isso damos valor à liberdade, quando um dia a perdemos. Saber ser livre para não mais perder a liberdade. Tirar de nós a liberdade é um tipo de traição. Trair é quebrar expectativas de confiança em diversos graus. Algumas traições nem damos bola. Outras mexem demais. Quem não se sentiu traído ou traída por alguém certamente tinha zero de expectativa de confiança. Todos sabemos que há gradações de traição, digamos algo de 1 a 100. A mais alta é ligada a amizades e relacionamentos amorosos. O comprometimento com o outro subentende que as mentes ou os corpos se pertençam em confiança. Desejos de traição devem ser reprimidos, embora o ideal seria não haver outro desejo fora um do outro. A insegurança por sua vez ilude e machuca todos os envolvidos. Mas há traições sutis e fortes que não são consideradas "traições". Podar o sonho de alguém é trair; dificultar projeto de vida, uma meta, um caminho que a pessoa pretende seguir é traição que no futuro o outro alegará: "parou porque quis", "desistiu porque quis", "não foi porque não quis", "resolveu fazer isso ou aquilo porque escoheu". É uma traição quase que imperceptível colocar impedimentos para que o outro cresce seja no trabalho ou na vida amorosa. Ou seja, transfere para o outro a ausência de suas conquistas e não pela interfência do outro. Indico um livro fabuloso que analisa Amar e Trair, do psicanalista Aldo Coratenuto. O tema é exatamente este. Somente somos traídos por quem de fato amamos e só traímos quem nos ama, e então somos mergulados no dilema mais essencialmente humano que é perdoar e sacrificar-se. Em um mundo cujas ideias estão muito simples, vale algumas reflexões às vezes mais estimulantes, porque vivemos bombardeados por emoções todos os dias. Precisamos de um bom preparo para saber lidar com elas. Causa alívio. Indico um livro chamado Poesia Ingênua e Sentimental, de Schiller. E tudo aquilo que alivia nosso emocional, vale a pena ter ao lado. Exatamente tudo.
Bom dia! Bom domingo!
(flavio notaroberto)
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