Chove. Uma garoa fina, leve, constante e resiliente. Aos meus olhos, um pouco distante, se estende um morro verde gigante. Ele porém está em silêncio como sempre. Nada diz senão o que eu penso dele. As núvens, mais ousadas, o tocam e o mancham de cinza. O morro lá, indiferente. Se meus olhos vêem, meus ouvindos dialogam com milhares de pequenos pingos sob as dispersas poças na terra. A chuva mais interativa. Pássaros, a dezenas, conversam entre si, agradecendo o dia. Talvez sobre o banho. Talvez sobre a felicidade de ser tão natureza quanto a chuva, o morro, as núvens. Não estão preocupados comigo. Pouco compreendo a língua dos pássaros também. Isto me leva a crer que por mais que eu compreenda a língua dos homens, eu nada seria sem pássaro, sem chuva, sem morro e núvens. Convenço-me de que a natureza é o meu descanso dos homens, cuja língua eu sei, através da qual uso para me aproximar com amor e acolhimento, uso para me distanciar, por meio de minha vaidades.
Estou na praia. De onde estou não ouço o mar. Mas não muito longe de mim. O mar me traz recordações nunca vividas como a dos piratas, das navegações, dos naufrágios, de Moby Dick, das sereias, de Netuno, do Tráfico Negreiro, dos imigrantes e refugiados. Minha imaginação, minha companheira. É a parte do homem que vive em nós, que constroi vidas no pensamento tão real quanto os estímulos das gotas da chuva, do frio suave que ela traz, da pouca coisa que sou sem falar a língua dos pássaros, sem subjulgar o morro verde com meus pés no topo dele. O homem na natureza é cruel.
Chove. A chuva persiste. Demais, é agradecer. À vida. Este nosso breve e singular tempo. As dores doem. As ausências ferem. A rejeição perturba a alma. O término do amor é o chão que se desfaz, o mundo que desmorona, e nada resta senão a solidão. São os humanos em nós. Mas calma. A natureza está aí para nosso descanso dos homens. Agradecer. Pela vida. Nosso fugaz momento. O tempo dirá que ser grato é a verdadeira razão. A chuva garoa...
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ResponderExcluirLindo, profundo e delicado... Adorei cada palavra...
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