- flavio notaroberto
domingo, 3 de novembro de 2019
NOSTALGIA
Peguei o Daniel, meu caçula, para ver um filme. "Vamos ao Shopping União ou Eldorado?". Ele hesitou um pouco. "Tanto faz, pai." E fomos ao Shopping União, em Osasco. No caminho insisti se ele não preferiria ir ao Eldorado. Ele respondeu que não, mas acrescentou que gostava de ir ao Shopping Eldorado porque sentia "nostalgia". Quem não sabe o que é nostalgia? Uma das definições de nostalgia é "saudades de algo, de um estado, de uma forma de existência que se deixou de ter; desejo de voltar ao passado." A palavra também está ligada ao afastamento do lar, do país, da casa, da família. Se ele me disse que gostava do Eldorado, era porque sentia "aquele desejo de voltar ao passado", e se referia a um momento fortemente construído de imagens ricas da família de saudáveis emoções. De fato. Quando casado, íamos como família muito ao Eldorado, minha filha fazia teatro no Macunaíma, as salas de cinema são muitas, Outback, teatro, brinquedos, exposições, e um clima familiar muito agradável. Às vezes não sabemos como funciona nossas emoções e este o foco da vida. Ontem mesmo, uma conhecida me perguntou pelo whats: "Flávio, o q vc acha da alexitimia, da ausência de emoções? O q a neurociência diz sobre isso?" Eu não sabia o que era alexitimia. Fui ao dicionátio e achei "uma desordem psicológica caracterizada pela incapacidade de identificar e descrever emoções; significa literalmente 'sem palavras para a emoção'." Resumidamente, eu foquei no "ausência de emoções". Há duas formas básicas de não termos mais fortes emoções. A primeira é através da depressão, um distúbio neural que anestesia as emoções e faz nossas memórias e lembranças perderem significados e associações, como comer diferentes comidas sem sabor algum. A grosso modo, o depressivo olha para fotos suas de criança e vive uma dor estranha. Ele sabe racionalmente que é ele nas fotos, mas não significa emocionalmente nada. Além das fotos, podem ser lugares, pessoas, músicas, momentos etc. Esta é uma forma cruel de viver nossa pouca existência, motivo pelo qual o suicídio é uma triste alternativa e um desesperado alívio. A outra forma de "ausência de emoções" vem de algo bem diferente da depressão. As emoções não estão ausentes, nem anestesiadas. Elas apenas estão controladas, pelo fato de tanto vivê-las e analisá-las. Nossa mente racional pega nossas experiências em lutos, angústias, tristezas, melancolias, euforias, felicidade, timidez, introspecção, ódio, raiva e mágoa, desprezo, rejeição, humilhação e todas as diferentes formas de emoções, que já sentimos, e cria um controle inibitório quase que natural. Se tanto sentir, nem ligamos mais. Pessoas que passam por guerra ou abuso, e mesmo assim não se traumatizam, é porque conseguiram, por meio da mente racional, entender a existência e o poder da emoção vivida. A palavra resiliência traduz esta última definição de ausência de emoção. A emoção, então, não está ausente, mas faz parte da vida sem perturbar quem sente. De volta ao meu filho. Ouvi-lo dizer "nostalgia" de um lugar, e ele com doze anos, me rasgou liricamente a alma e me deixou com leve melancolia. Aquela minha família de antes: esposa, três filhos, passeios, jantares, filmes e viagens não existe mais no momento presente dele, mas os lugares ainda evocam fortes emoções daqueles momentos de família, em que ele tinha seis, sete anos. A partir de então, foram outras memórias de pais separados. Eu sempre tive cuidado com as memórias que poderia construir na mente de meus filhos depois de separado, e buscava amenizar qualquer possível potencial para trauma. Raramente temos 100% de sucesso naquilo que não depende apenas de nós. Por outro lado, conversando com meus filhos hoje, eu vejo que há uma autoconsciência implantada em cada um deles, e a autoconsciência é primeira condição de conhecer nossas emoção e nosso corpo, e nosso papel na sociedade, e como as pessoas nos veem e como as vezes. Sobre isso, existe a "teoria da mente", que aliás, já falei com cada um deles a respeito. Está aí algo que vale a pena dar uma pesquisa no Google. Porque "teoria da mente" é tentar olhar para a própria mente através das intenções das pessoas. Se virmos alguém abrindo a porta da geladeira, deduzimos que irá pegar algo. Esta dedução é a "teoria da mente", ou seja, concluir o que o outro pretende ou não fazer. Daniel abriu seu coração a um pai sensível sem ter pensado que eu faria de uma única palavra um profunda reflexão íntima e pessoal. Claro que doeu em mim aquele sentimento nostálgico em uma criança de doze anos. Dá vontade de chorar e pedir perdão a ele. Por outro lado, a vida é um caldeirão de emoções, e quanto mais vivemos, mais nos sentimos incorporados em nós mesmos, e saber que sentimos emoções nos ajuda a amar a arte, e na essência a arte é materialização do belo racional por meio das mais profundas emoções, motivo porque eu escrevo arte e amo, amo muito, e amar nos ajuda a sentir...
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