sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A Mendiga no Terminal

A mendiga no Terminal

No Terminal Rodoviário do Tietê, a mendiga passou na minha frente com duas sacolas e trapos, andando apressadamente. Para ser mais preciso, foi do Desembarque pouco movimentado numa quinta-feira à noite. Ela tinha a altivez dos dominadores, que fazem do mundo um palco lúdico de avanços e recuos, até o cenário ideal para dominar. Eu me intimidei no olhar introspectivo da solidão triste de esperar a paz que não sentia. A mendiga não era introspectiva. Nem licença ela pediu. Tão somente foi para a sua reunião de negócio, que equivaleria a um contrato fechado com o peso da sua assinatura e as glórias do poder. Ela estava atrasada para ele, e eu pensei no recalque que a imaginação da arte representa em contraste com a realidade da doce esquizofrenia dela, e que fosse uma leve e espetacular esquizofrenia! Quem não é esquizofrênico diante das dúvidas e incertezas que plantam em nossas mentes na sociedade cheia de segundas intenções e recalques? Está ou não me traindo? Devo ou não aceitar? Vale a pena? Vale? O que tem de importante para falar comigo? Por que quer falar comigo mais tarde? E o “eu preciso de falar algo depois”? Por que foi um "sim" seco? Por que apenas "não"? Recortes e recortes profundos de tortuosas dúvidas, que nos consomem tempo de vida e higiene emocional, traduzidos no que queremos ser e no que somos na vida que segue. A mendiga seguia sem a par algum pelas ideias de um outro esquizofrênico nas palavras, que fantasiava a fantasia real dela, que ela tinha ao olhar de quem a via com outros olhos. Os meus eram o da dor. O dela, o da liberdade. Possivelmente o desejo seu de desembarcar de dentro de sua mente o imaginado real de pessoa séria, ocupada, cidadã de bem, com personagens e lugares reais na mente viva era a minha imaginação do que poderia ser, mas não deveria. Uma sacola pesada no braço direito, outra no esquerdo, passos curtos acelerados. Quem corre, teme. Quem acelera, faz porque pode. Ela podia e pôde tudo. Colocou nas minhas reginas internas uma cena de breves segundos em um enredo atemporal. A mendiga olhava soberba para cima. Não nariz tão empinado, porque o exagero é um amigo da insanidade. Nem desviava o olhar para os lados, pela mesma razão do pouco caso a quem não a notasse. Os holofotes da alma não se comparam ao que o sol diz ao que somos aqui e agora. O sol existe por existir. Os olhos da mendiga é uma luz miraculosa de um universo que olha para si mesmo com as poeiras de um início que não sabemos por quê, nem quando, nem nada. A mendiga, porém, é vida, e vida em abundância como havia sido de todas as rainhas e reis de outrora e vindouros, e farrapos artistas. O nariz e o olhar iam na medida da dona, que avançou ainda para a escada rolante, acima, e deixou quem tivesse sensibilidade para ver parado, silencioso, agradecido, a desilusão da existência sem sentido algum. Ela deixou inveja da certeza de quem vive seu próprio mundo com autonomia, sem recorrer às esquizofrenias artísticas, sendo que a arte é o último refúgio dos que sentem que podem ser algo, mas são pouco, porque meras ferramentas de quem vive daquela mesma poeira estrelar intensamente. Ela, a mendiga, vive a arte real de ser e não inventar. Sua criação do mito de si própria. A imaginação melancólica da arte apenas mimetiza o poder limitado da intuição, que tem vida inconsciente cheia de segundas intenções e associações. A mendiga no terminal...

- flavio notaroberto -

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