sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Crítica

"Perguntei para mamãe o que era a morte e ela me respondeu que era a vida na sua mais bela forma..."
                                       Contos Suaves - Flavio Notaroberto.

   Esse conto me fez lembrar de uma outra historia, uma menina aos 11 anos de idade, sua mãe muito doente, veio a falecer. Sem muito conhecimento sobre a vida e o que havia acontecido diante todo aquele sofrimento, se fechou para o mundo.
   Sem sentir o que queria realmente sentir, talvez por falta de conhecimento, preferiu simplesmente acreditar que a dor não lhe seria bem vinda, deixando e tentando simplesmente não deixar doer naquele momento, pois sabia que deveria ser forte.
    O problema é que a vida passou muito rápido, e dos 11 aos 24 muitas coisas havia lhe acontecido, era forte e sorria tentando não evidenciar que suas lembranças havia parado na época em que sua mãe vieste a falecer.
Se tornou madura em muitos aspectos e em outros era ainda uma criança rebelde e mimada, esqueceu-se da vida, não se permitiu sonhar, entrou em guerra consigo mesma, desacreditou da família, e muitas vezes de Deus e aos 24 para os 25 anos acreditou em superação.
  Nessa época ela despertou o conhecimento do Luto, permitiu sentir a dor que até então tinha guardado para si, caiu, chegou ao fundo do poço, pediu a Deus ajuda e buscou então poder sobre si mesma.
  O poder sobre si mesma era a pior fase, naquela situação os sentimentos era dominar-se a si mesma e entendeu que DESISTIR era, de certa forma, morrer em vida.
  Por anos ela havia falecido dentro de si mesma, sonhos era somente para quem estava vivo.
   Um dia ao observar um Girassol, perguntou para sim mesma, e se eu vivesse? Tivesse sonhos, metas? Acredito que minha mãe iria ficar orgulhosa.
  E foi ao pensar nesse momento que admirava o girassol, e lendo um verdadeiro conto suave  lhe disse, pela manhã: A vida na sua mais bela forma é permitir que os fatos acontece e que ela não teria poder sobre tudo, nem de si mesma.
  Permitir (se permitir) é a palavra chave, foi então que houve dentro de si um sentimento e o inicio de uma superação.
                         "A morte em vida"

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Trecho Miguelito

"Ouvindo, surpreso, encantado, apaixonado, antes de o padre Miguel fazer qualquer comentário, Mariana concluiu:

─ Esta é minha visão do que as pessoas entendem por fé: eu não tenho filosofia: tenho sentidos. Semântica são meus sentidos que traduzo através do meu corpo, que capta o mundo e o transforma em pensamentos.

Padre Miguel então sorriu com a alma, com os lábios. Foi de contentamento, não menos eufórico. Mariana voltou para cama. Devolveu-lhe parte do lençol. Ficaram agora abraçados, em silêncio. Fazia calor. O toque do abraço tem a dimensão de aquecer todo relacionamento. Ficaram abraçados por minutos. Silêncio. Religiosamente respeitado. Padre Miguel sem voz para expressar. Gostou de despertar desta forma. Sexo rapidinho para lubrificar o corpo. Momento de expansão para ter a certeza de que a alma existe. Silenciou até quando pôde. Seriamente quis fazer do silêncio o agradecimento. No início da tarde, ele tinha que ir à escola do Miguelito para uma reunião com o professor Zazen. Antes, ele diz a ela:

─ O filósofo medieval católico Santo Agostinho, você o conhece?

─ Só ouvi falar, respondeu sonolenta, que na verdade era letargia de felicidade.

Padre Miguel buscou de memória sua definição de Deus, escrita por Santo Agostino nas Confissões. Foi a pedra angular que o fez abandonar a futura carreira de médico.  Arrebatador para ele e para a sua depressão.

Mais sisudo, ele não se ergueu da cama. Nem tirou o lençol. Mariana aos seus braços, protegida emocionalmente das guerras dos homens. Ele vasculhou, de memória, os trechos de Confissões, de Santo Agostinho até descobrir a parte que lhe interessava. Não exagerou na dicção nem na retórica, nem na oratória. Foi mesmo com a simplicidade de quem está agradecido por ter alguém tão especial quanto a Mariana ao lado.

─ Presta atenção.

─ Fala.

Ele falou como se fumasse um cigarro e dava pausas para longas tragadas. A verdade, no entanto, era que ele segurava as lágrimas. Deixou escapar algumas, entre uma linha e outra. Relembrar era um filme pessoal que marcou dores, dividiu almas, fez de sua vida o que podia para não sair dela pelas portas do fundo e da solidão e da escuridão. Fosse entregue à dor, aquele momento na cama, aos braços de Mariana, não existiria. Não quis imaginar esta possibilidade, e foi citando as Confissões:

"Que eu amo, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo o meu Deus. E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo o meu Deus. Luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contem, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo meu Deus."


─ Interessante, disse ela. Continuo não crendo em Deus.

Ele sorria e se antecipou.

─ E eu continuo amando você, Mariana.

E tocaram os lábios com carinho e ternura. Era manhã despretensiosa.
Literária e filosoficamente, silenciaram agarrando-se. Nenhum contraditório supera as obrigações do dia-a-dia e eram quase dez horas da manhã. Padre Miguel tinha que ir à escola. Estava bom. Muito bom ainda amar desta forma."

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Jovens

Aos jovens deveria ser dado todo o monopólio dos sentimentos encantadores de descoberta; aos adultos a confraria de todas as sensações permitidas e vividas em que os sentimentos renovados passassem bem superficialmente como coisa nostálgica, sem a importância que o sofrimento e o deleite dariam a eles. Nós, homens e mulheres adultos, não somos uma casa sem moradia, ou melhor, não somos uma casa abandonada e baldia. Nossa memória faz o papel dos quadros nas paredes, dos livros na estante, dos filmes abandonados na prateleira, dos ambientes dispostos e mobiliados. Olhar para dentro de si, quando adulto, são paisagens descobertas sem espanto, sem assomo, sem assombro. São nossas próprias paisagens fugitivas e furtivas. Reviver sentimentos depois de adulto, claro, que é válido. Um 'novo' amor? Não sei, porém, se adequada esta disputa com a juventude. A juventude sabe que a dor da separação é eterna, que o amor correspondido é sublime, que nada neste mundo é mais importante do que os prazeres da liberdade e da própria vontade realizada. A pouca experiência dos jovens faz a novidade certa e única. Meus irmãos que consagram seu tempo à vida com a experiência de décadas passadas, como eu, eu os convoco à reflexão noturna ou quase diurna do Horário de Verão, com uma hora temporariamente roubada de nós. Deixemos aos jovens as reais descobertas do que já somos. Sofremos porque 'viver é sofrer', nos sugere o filósofo. Para os jovens sofrer é viver sem a mínima noção do porvir. Não há melhor compreensão do que somos, senão viver é sofrer. As décadas nos envolvem da cabeça aos pés inùmeros sentimentos contraditórios, e isto é sofrer. Nada sobra em nossa confusão sem paz. A não ser nossas memórias. Eu gosto de pensar assim: aos jovens suas vidas entregues às experiências; a nós as experiências como sinal de vida. Somos lá um tanto jovial, mas para que mesmo? Querer aprisionar o quê e com quem? Ser livre é seguir. Os jovens, sem saber, estão se prendendo para descobrirem algo que os adultos amam ter: a real liberdade. Terminou depois dos 30? Sorria. Definitivamente não somos mais jovens.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Diálogo

- Deixa perguntar. Esta coleção de livros é para você?
- Sim, senhor.
- Tá bom. Quero que leia aquele livro de 1100 páginas. Aí eu deixo você pedir o que quiser (e eu vejo se posso).
- Estou na metade dele, mas eu estou lendo várias coisas ao mesmo tempo. Mas vou acabar mesmo! É bem dinâmico o enredo.
- Me fala o que gostaria de ter assim que terminar de lê-lo
- Não sei. Dinheiro.
- Filha.
- O quê?
- Dinheiro é importante. Mas ele deve ter alguma finalidade.
- Economizar e quando eu ver algo que gosto... eu o uso.
- Se você me disser que prefere ter a liberdade de escolher, eu entendo.
- Ok (:.
- 200,00 reais? Pode ser?
- Sim, pode. Mas se bem que ano que vem tem um festival. Vou pensar.
- Isso. Pensa e eu posso me planejar.
- Ok. Eu ia pedir de aniversário, na verdade.
- Quanto fica?
- Dois dias, 460,00.
- Quando você tem que comprar? Já está à venda?
- Já. E tem até o ano que vem.
- Em troca você termina aquele livro de 1100 páginas...
- Ok, mas aí não vai ser meu presente, né?
- Tá bom. O que eu quero é que você leia e simultaneamente curta a vida cheia de palavras para traduzir estas sensações todas. Bem, é isto.- Oks. Comecei Memórias Póstumas de Bras Cubas.
- UAU!
- O quê?
- Memórias Póstumas é para os fortes. Bem-vinda a um dos pilares da literatura universal. Um livro como este equivale a centenas de outros tantos. Se tiver qualquer dificuldade em qualquer ponto, me fale. Meu mestrado é sobre um livro de Machado de Assis. E li muitos livros a respeito. Inclusive grande parte da obra de Machado.
- Pode deixar.
- Ótimo. Eu iria dar umas dicas, mas acho que primeiro você tem de ter a sua leitura pessoal, sem interferência.
- Sem dicas.
- Eu sei.

domingo, 21 de agosto de 2016

Liberdade

"Quem criou sua própria realidade?" Muito raramente uma pessoa, que acompanha meus textos, me traz pontualmente uma questão. E ontem foi "quem criou sua realidade?", assim como está na foto.

Imagino esta pergunta, diante desta minha amiga, e o que a fez pensar sobre ela, e o que a pergunta em si a fez pensar sobre si mesma. "Quem criou sua realidade?"

Existe a história da Esfinge que parece algo semelhante ao desafio de quem somos, o que as coisas são e todo enigma em tudo em nossas vidas. Acalmar-se nos enigmas da vida demanda muita meditação, paz interior e sabedoria, porque a Esfinge - como qualquer Esfinge - era um monstro que devorava quem não sabia responder o enigma proposto por ela. Perguntas como "quem criou sua realidade?" são enigmas de fases de nossas vidas dos monstros dentro de nós mesmos querendo nos devorar, de dentro para fora, caso fiquemos sem respostas. Esta minha amiga deve ter sentido o poder assombroso da Esfinge dentro dela mesma, da mesma forma que eu mesmo o sinto, e creio que tantos outros sentem. E quem criou a minha realidade será a minha possível resposta para o meu próprio enigma, e preciso filosofar para a minha resposta. E, claro, de um modo um pouco poético.

Temos uma realidade inicial em nossas vidas. São os instintos. Forças biológicas que fazem as espécies sobreviverem e se perpetuarem. Dos filhores de pássaros aos de tartarugas marinhas, a sobrevivência inicial é o oculto obedecido cegamente pelo indivíduo. A pequena tartaruga vai para a água e o passarinho não sei para onde, mas vai para o ar.

Após os instintos, temos os sentidos, que são os cinco (olfato, tato, odor, audição, visão). Olhando para nós, humanos, no espelho de nossas memórias depois de envelhecidas, sabemos que os sentidos constroem o primeiro passo do frio, do azedo, do ruído, do opaco, da lavanda, para a grande maioria das espécies.

Após os sentidos, entramos no universo própria e essencialmente humano, "demasiadamente humano", e criamos os conceitos: do frio em oposição ao calor, do azedo em oposição ao salgado, da lavanda em oposição ao Bleu de Chanel.

Por fim, em nosso cérebro, os conceitos geram ideias e as ideias dentro de nossas cabeças geram a nossa realidade, ou as nossas realidades vividas e imaginadas. "Quem criou a sua realidade?" Parte da resposta está claramente dentro de nós mesmos. E esta resposta somente tem validade e existência diante de outra parte: qual a outra realidade fora de nós mesmos que nos cria sem que nos demos conta de que ela existia?

A pergunta agora é um pouco diferente. Alguém me perguntou: "Quem criou a sua realidade?", e dentro de mim meus instintos, meus sentidos, meus conceitos e ideias formaram parte da minha realidade. A outra questão que formulo é uma auto-reflexão: "Quem criou a minha realidade?" Eu pergunto a mim mesmo e espero as respostas agora fora de mim. Meus pai e minha mãe? A família onde nasci? A casa, rua, bairro e cidade onde morei? O idioma que aprendi a falar? As situações que eu vivi e as que eu deixei de viver? Os riscos a que me submeti e os riscos que evitei? As escolas onde estudei e os amigos e desafetos que tive? As oportunidades que não tive, mas criei, e as oportunidades que eu tive e as rejeitei? As palavras que mais ouvi do que falei, ou as falas que mais fiz do que escutei? As regras que obedeci e as punições injustas que levei? As injustiças que eu inconsciente ou conscientemente cometi e mesmo assim persisti acreditando que o errado não era eu? Os milhares de sims e nãos que recebi e dei? E dezenas de milhares de detalhes que não estavam em mim, justamente porque neste mundo raramente vivemos sozinho e que fazemos parte da totalidade do que somos e incrivelmente desconhecemos em nome do esquecimento. Por mais lágrimas que temos ou sorrisos que damos, os mais verdadeiros sempre são os presentes neste momento. Todo sofrimento e alegria é presente.

"Quem criou sua realidade?" e "quem criou minha realidade?" são movimentos que se complementam para uma resposta mais clara: nossos instintos, sentidos, ideias somentos a todas experiências sociais fora da gente com outras pessoas e meios. Se temos uma realidade, temos duas verdades sobre ela que nos fazem mais conscientes das forças internas que nos governam e das forças externas a que somos submetidos... e se pensa que a resposta terminou, uma última palavra vem em seguida.

Não importa. Definitivamente não importa muito quem criou a minha realidade, o que criou a minha realidade, onde, por quê e como. Importa muito o que somos e principalmente a consciência do que efetivamente queremos ser. Sou escritor por insistência; hoje sou produtor cultural pelas circunstâncias; sou professor pelo acaso; sou pai por amor; sou filho de inúmeras facetas: da rebeldia ao orgulho. Não importa quem criou minha realidade. Importa a consciência "dialética" que tenho dela. Importa sim qual realidade queremos criar em nossas vidas a partir do momento em que temos consciência de que temos uma vida real, "desconhecidamente real". As perguntas surgirão como monstros em forma de dúvidas para nos destruir, certo? Inclusive perguntas na boca das pessoas: "por quê?", "para quê?", "qual necessidade?", "você acha que vai conseguir?", "acha que é fácil?". Estes monstros.

Hoje é fácil encontrar uma resposta consciente que valha o preço da mudança. Temos mais facilmente consciência de que a vida caminha e que praticamente tudo caminha junto. Caminhamos juntos no mesmo tempo, ainda que em espaços diferentes. Todas as vidas fazem parte de algo chamado eternidade, por menor que seja para o infinito a porção de cada um de nós nele. Existimos. Sou otimista em não desistir e procurar fazer. Fazer de nossas vidas a realidade que queremos para nós. Talvez uma realidade incompleta porque dependemos de outras pessoas que amamos, mas que devem ficar na realidade delas para que possamos criar parte da nossa. Podemos ter uma vida a mais completa possível ao depender de nós mesmos. E como término, indico a leitura dos versos do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa em que alguns versos dizem assim:

"Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro."

Creio na vida que cabe na arte. E que a arte tem mais realidade do que imaginamos...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Diálogo

- Você acha mesmo que o ser humano, depois que tem experiências como eu as tive em um relacionamento de prisão, ele sentirá falta de outro relacionamento de prisão?

- Pensei em responser um monte de coisas.

- Pois é. Mas você sabe a minha resposta.

- Sei. E porque você está me perguntando isso, se você sabe que eu já sei sua resposta?

- Porque eu queria que já soubesse que eu sei que você sabe a minha resposta.

- Vá se lascar...

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Diálogo

Ela: Me declarei para ele novamente. E farei quantas vezes preciso for.

Eu: Sim. Eu ate sinto seu amor, sabia?

Ela: Você é muito sensitivo

Eu: Sou sim.

Ela: E eu sou uma eterna apaixonada por ele.

Eu: Já passei por cada situação!

Ela: Tentei por diversas vezes esquecer... Mas não consegui.

Eu: Deixa rolar. Só não deixe de viver, sair, ganhar seu dinheiro, viajar, ter amigos e flertar...

Ela: Sim...

Eu: Faz parte este sofrimento, desde que introspectivo para valorizar aquilo que você pode realmente ter.

Ela: Não deixo não. Tem razão

Eu: Sim. E não deixe de chorar, lamentar com as amigas e às vezes beber por não ser correspondida como gostaria...

Ela: Pouquíssimas pessoas sabem desse sentimento.

Eu: Então ele é sagrado para você

Ela: Ele é. E eu tenho zelo dele. Ninguém sente por mim o que ele me mostrou sentir. E o que até hoje eu sinto que ele sente.

Eu: Ele te ama?

Ela: Sinto que sim. Por tudo o que já aconteceu.

Eu: E estão juntos?

Ela: Não. Mas o coração sim. O olhar sim. A preocupação. A paciência.

Eu: Paradoxal, né?