sexta-feira, 14 de maio de 2021
sonhar e amar
domingo, 2 de maio de 2021
poema leda
sábado, 6 de março de 2021
Beatriz e Fátima
- Minha mãe disse para eu vir para escola, porque era para eu comer. É verdade, professora?
Sentada na cadeira, cara invertida, de pouquíssimos amigos, a professora Fátima usava máscara preta. A aluna em seguida meteu os olhos por entre os braços cruzados na carteira para chorar bem silenciosamente. Fátima ouviu e quase respondeu que estavam na escola "para todo mundo morrer de Covid!", de tão indignada pela desfaçatez e desumanidade de ter de ir trabalhar no pior momento. Ainda mais ela que já foi infectada. A sala vazia. Dos quase vinte e poucos alunos, somente oito presentes, espalhados, e todos em profundo silêncio, de máscara, obedientes. Ao menos fossem sempre quietos assim, pensou Fátima, dar aulas não seria doentio. A aluna insistia com os olhos entre os seus dois braços, chorando bem suavemente. Ela estava triste por algo, que ainda não incomodava a professora; esconder o olhar vermelho de tristeza era uma forma de sinalizar que não queria estar triste. Uma criança de onze anos entende ainda pouco de emoções humanas, nem procura entender para acomodar o que não é possível deixar de sentir. Apenas sente.
- Sim, disse a professora Fátima, vocês estão todos aqui para comer!, e Beatriz escondeu mais ainda a cabeça, agora incluindo suas orelhas.
A professora não levantou da cadeira, em momento algum, desde que havia entrado, há uns quinze minutos. Mexia em papeis e olhava as mensagens no grupo de professores, com a palavra de ordem Greve Já! O dia , por sua vez, até que feliz, alegre, sorridente com sol, vento fresco, nuvens brancas; o barulho era pouco, bem pouco, para uma cidade como São Paulo, para o bairro como Cidade Tiradentes, no extremo leste da zona leste. Tudo praticamente fechado, mas escolas não! O dia lá fora livre, e a professora presa naquela sala, oito alunos, servindo de quase babá, com risco para ela, sua família, dos alunos e seus familiares.
- O que foi, Beatriz? Por que chora aí?
A menina levantou parte do olhar, abaixou um pouco a máscara e em poucas palavras repetiu:
- Minha mãe falou que eu tinha que vir para a escola para comer.
Enfiou de novo o olhar perdido de sua inocência entre os braços, um pouco mais conformada.
- Por que para comer? - quis saber Fátima.
- Minha mãe só disse que eu tinha que vir para escola para comer, respondeu a menina, sem tirar a cabeça dos braços, e o som saindo abafado.
Mensagens no grupo dos professores pipocavam em protestos Greve Já!. Fátima lia e se alimentava daquelas convicções. A presença da Beatriz, uma aluna tão boa, dedicada, simples, humilde, olhar e sorriso sempre meigos e acolhedores, não faltava, que fazia lição, prestava atenção, participava cheia de respeito, aquela presença de Beatriz foi diminuindo o incômodo de Fátima de estar lá. Talvez porque as lágrimas de Beatriz não eram mais escondidas. O nariz não se aguentava e falavam por si. A professora deixou de lado o celular. Deu um panorama na sala de aula, naquela diante dela. Oito alunos, em silêncio, esperando o que fosse para esperar.
- Quem a mãe mandou para escola para comer?
Todos levantaram a mão, como se fosse parte da aula e obrigação a verdade.
"Para comer", sussurrou Fátima.
Aos poucos, sentimentos se sobrepõem a sentimentos, e o sentido de focar na sua revolta obscurece sua indignação, aplacando sua raiva e protesto. A fome tem pressa. O mal da humanidade é não sentir a fome emocional do outro, porque as pessoas sentem emoções e fome. A Beatriz na frente dela, o Guilherme lá no canto esquerdo. Na frente do Guilherme, o Matheus, e na frente dele a Paula; do outro lado da sala, Antônio, Débora, de cabeça baixa. No meio o Fábio e a Cinthia. Ela conhecia todos por nome, e mais ainda, conhecia parte da vida familiar de seus alunos, e daqueles em especial. O padrão entre eles seria mesmo a fome, que existe presente e triste, muito, muito, muito triste.
- Bem, levantou a professora, livro na mão, pedindo a todos para abrirem o caderno para atividades. Copiem com caneta azul, e iniciou um conteúdo aleatório de geografia.
Por um movimento mágico, Beatriz ergueu a cabeça, limpou o nariz escorrendo com ambos os braços. Ficou feliz internamente. O vermelhidão dos olhos se desfez em instantes. Uma luz de felicidade acendeu na sua mente. Ela abriu o caderno, separou a caneta e com tanto brilho no olhar começou a copiar da lousa cada palavra, com das maiores verdades existenciais. Beatriz era inocente, como todas as crianças ali, mas o que ela queria dizer em outras palavras seria a gratidão.
- Ah - disse a professora Fátima, conforme copiava, se a mãe de vocês falar para vocês virem para a escola para comer, falem para ela que ela está totalmente errada! Escola é para aprender, e isso que vamos fazer todos os dias. Vocês vêm para a escola para aprender!
Ninguém viu, mas Fátima, agora de costas, permaneceu assim por muitos e muitos minutos, copiando na louca - um hábito que ela não tinha -, simplesmente porque chorava a cada palavra na lousa, redescobrindo o que seria o amor nos pequenos gestos. Os alunos lá para comer, e ela sabia disso. A pandemia, por sua vez, exigia alguns sacrifícios. Fátima percebeu através da inocência de Beatriz e de todos aqueles oito alunos presentes, qual seria seu efetivo papel na pandemia. Por fim, Fátima saiu do grupo dos professores, que somente falavam em Greve Já! para mentalmente segurar firme a mão daqueles oito alunos e dizer "estamos juntos daqui para frente!". Fátima segue ainda aquilo que acha ser seu destino: acolher com conhecimento o coração de Beatriz e todos os demais.
flavio notaroberto
sábado, 2 de janeiro de 2021
poema
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
poema
domingo, 1 de novembro de 2020
Sua Versão
Os dias foram infinitos, mas tiveram um fim. Machucou seu olhar permanentemente e ela nada mais disse a ele. Ela teve de manter o silêncio dos lábios inchados, dentes quebrados, soluços por refazer. Ela andou três quilômetros sozinha, por quase duas horas. A noite estava fria e úmida, antes de conseguir ajuda.
- Preciso ir, preciso ir, preciso ir.
Escapou sem sentir da dor do braço esquerdo cujos ossos estavam partidos. Mesmo assim, pendurados, Sílvia arrastou o corpo pesado, mas esquálido de menos de cinquenta quilos, longe do sítio.
- Se você for, você morre, ele a ameaçou.
- Rogério, por que você está fazendo...
Sem terminar, ele enfiava o dedo na sua garganta para sufocá-la com o ar de seu desespero, sem pânico.
- Vai ser seu momento, Silvia. Vai ser seu momento.
Pudesse contar, do primeiro olhar à faca no peito de Rogério, foram nove dias e sete horas. Os minutos entraram no desespero do hospital, na cama, da UTI, quando foi encontrada no chão de terra em Carapicuíba, na Estrada Terra Rocha. Sílvia recobrou a consciência, do som do leito, no Hospital Geral, e voltou a acordar de si mesma cinco dias após, restabelecida, braço imobilizado, hematomas salientes, lábios saturados, dentes desfeitos permanentemente. Mais dois dias teria alta e antes de sair deu depoimento ao Sérgio, da equipe de investigação:
- A gente se conheceu no Morola, um bar em Perdizes, em São Paulo. Início de balada, umas dez da noite. Ele era uma pessoa bonita, muito bonita. Não foi a primeira vez que saí com estranhos na balada. Mas vai ser a última. Umas cinco da manhã fomos juntos. Dei tchau a Raquel e a Paula. Entrei no seu carro. Não posso dizer que estava bêbada, mas quando entrei no carro, apaguei e deixe o Rogério me levar, e não reparei que fui para Carapicuíba. Era um sítio. Só mesmo aqueles sons de mato, de quando vamos para o sítio. Ele desligou o carro e apagou o farol; desceu. Eu abri a porta. Quando saí, senti um tapa forte no ouvido, sem entender nada. Juro que imaginei que sonhava, que uma árvore caiu em mim. Fui direto para o chão. Parecia um som que dilatava no ritmo do meu coração. Então, tomei mais chutes na cabeça e na barriga. Foi quando não me lembro mais nada, senão amarrada numa cadeira. Passei a língua na boca. Meus dentes quebrados. Ele estava sentado, olhando para suas mãos. Ele as abria e fechava, numa frequência lenta. Eu perguntei o que estava acontecendo. Ele me olhou. Um cabo de rodo ao lado dele, no chão, foi que quebrou meu braço direito. Ele se ergueu e do chão pegou o rodo. A um passo de mim, levantou e bateu de uma vez. Ouvi o estalar de ambos, do cabo e de meus ossos. Eu não entendi nada, doutor. Ele não sorria, nem falava nada.
- Se lembra quantos dias ficou lá?
- A partir do segundo, não tinha mais consciência de mim mesma. Era torturada ao longo da noite. Pela manhã, ele parava e saía. Me deixava uma garrafa de água de dois litros em cima de uma mesa com um canudo próximo da minha boca. Eu bebia a água o dia inteiro. Não sentia dor, doutor. Não sentia dor. Parecia que sonhava.
- Como escapou?
- Eu o matei.
- Como?
- Uma faca.
- Explica.
- Os dias iam deixando as cordas mais frouxas. Tentei escapar antes de ele chegar. Mas foi quando ouvi o carro que consegui soltar-me dos laços. Esse braço esquerdo inútil. Saí da cadeira, quase arrastando e fui na cozinha. Uma faca de cabo marrom de madeira, pequena, mas afiada e pontiaguda. Voltei correndo, o mais rápido que pude, para sentar na cadeira. Tentei jogar as cordas de qualquer jeito para fingir presa. Ele entrou, acendeu a luz e me viu, cabeça baixa. Chegou perto de mim. Me segurou pelos cabelos. Então a corda caiu. Ele sorriu feito o capeta e me deu dois tapas na cara. Minhas mãos para trás. Não sabia com usar a faca, nem quando usar. Ele me chutou no peito e fui cair cadeira abaixo, de costas, e a faca na minha mão direita, escondi no peito. Eu pedi água, água, água. Ele me trouxe água e jogou na minha cabeça. Água, eu insistia. Quando ele tentou levantar minha cabeça e me colocar água na boca, com a mão direita enfiei com todas as forças a faca no peito dele, e seu sague se misturou com o meu. No mesmo momento ele ficou branco e desabou em cima de mim. Consegui tirá-lo de cima. Tentei rastejar. Mas a realidade caiu de vez sobre mim. Apaguei. Instantes depois, eu desperto. Olho para a cena. Vem então o primeiro sorriso dele quando nos conhecemos até aquele momento. Uni qualquer possível força e caminhei, caminhei, caminhei até uma estrada. Me lembro de quando ainda tive uma pequena recordação no quarto do hospital até dois dias atrás.
- Sua história está envolvente. Há apenas um detalhe. O Rogério não morreu. Além de não ter morrido, a casa dele em Carapicuíba é monitorada por câmeras e sua história é imaginativa, mas não diz nada do que aconteceu mas imagens. Na verdade, você vai sair daqui direto para a Penitenciária Feminina, e ao longo da investigação você e seu advogado terão acesso a tudo.
- Bem, ao menos eu tentei.