- Quantas?
- Duas paradas. Sob cuidado agora. O doutor Carlos monitora constantemente. Não sai do leito em momento algum.
Eu ouvi o telefone tocar. Dormir aquela noite era um luxo dispensável. Por mais que me sentisse entre núvens no conforto no leito, do colchão, do que me cobria, do espaço do quarto do Cotonete, a mente inquieta e preocupada desfaz o prazer do corpo para a angústia da alma. Despertei muito facilmente com o primeiro telefonema. Dona Cláudia, por sua vez, não foi ao seu quarto em momento algum. Permaneceu na sala, encostada, sentada ou deitada no sofá.
- Como está o Cotonete, dona Cláudia?
- Carlinho, uma hora da manhã. Logo tem que ir para a escola. Volta a dormir.
Abaixei a cabeça em respeito. Retornava para a cama. Minha vontade era ficar lá ao lado dela e dormir no seu colo. O telefone tocou.
- Meu Deus. Mais uma parada cardíaca? Eu vou aí.
Do outro lado da linha disse que não seria necessário. O doutor Carlos não deixava ninguém, senão ele mesmo, cuidar e monitorar o filho. As massagens cardíacas, oxigenação contínuas e falava "na minhas mãos não, Luiz". E o coração voltava a bater regularmente com a ajuda de adrenalina direto no músculo cardíaco.
- Dona Cláudia. Posso ficar na sala com a senhora. Me sinto culpado por tudo.
Ela estendeu os braços e eu fui lentamente ao encontro dela. Na verdade, tínhamos o mesmo tamanho. Nossas diferenças eram na cor e no meu volume corporal. Sentia nossas almas tão próximas. Ao me abraçar colocou-se a chorar. E de repente desabafou:
- Carlinhos, somente estou aqui em casa, com uma enorme dor na alma, porque o pai do Luiz precisa amar seu filho, independentemente de como ele é. Existem amores que escolhemos. Existem amores que são incondicionais. O meu Carlos precisa amar seu filho incondicionalmente. E o verdadeiro amor vem com a dedicação, com o sacrifício, com a entrega.
Eu não sentia a mesma verdade daquele amor. Meus pais sempre muito cuidadosos. Dona Cláudia me pediu para deitar no sofá. Estendi meu corpo sobre ele. Certa timidez ainda. Flexionei um pouco as pernas. Joelhos para o alto. Barriga para cima. Aos poucos virei em leve posição fetal. Minha cabeça nas pernas de dona Cláudia que começou a passar os dedos no meu cabelo duro. Por alguns minutos e tempo suficiente para eu dormir feito pedra. Me disse ela que o telefone tocou mais duas vezes para dar boas notícias do Cotonete. Sem mais convulções, sem mais parada cardíaca. O doutor Carlos Sampaio em momento algum longe do leito do filho. Foi assim até as 6:00 quando ela me despertou.
- Bom dia, Carlinho. Hora de acordar para ir para a escola.
Era doce a voz da dona Cláudia me despertando. Em segundos obedeci. Pediu para que eu tomasse outro banho e na minha vida toda nunca havia tomado um banho à noite e outro logo pela manhã. Fui ao banheiro. Outra toalha tão macia tanto a da noite anterior. Limpa. E nova. Não me esquece o cheiro tão perfumado. Não entendia se certo ou errado. Não tinha julgamento. Tinha obediência. Talvez o que de errado mais fiz nesta noite na casa dela foi demorar mais de quinze minutos no chuveiro. Tanto à noite quanto de manhã. A água era forte. Eu não resistia. Ao sair e me secar e botar a roupa para a escola, o café da manhã pronto pela Fátima. Não se espantou minha vizinha da favela. Acho que dona Cláudia a tinha confidente em tudo. Havia muita cumplicidade entre elas.
- Carlinho, toma seu café. Deixo você na escola, conforme sua mãe pediu e vou ao hospital saber do Luiz Gabriel.
A mesa farta e bonita com sucos, frutas e bolo. Me encheu o apetite. Como bem. Comi feliz. Não sabia e nem sei explicar. Era novo para mim, a despeito das circunstâncias trágicas. Depois descemos para o Ford verde dela espaçoso. Fui no banco da frente. Senti-me rico. Me deixou na escola e rumou ao hospital. Voltei à minha vida e aos meus com a alma cheia de conflitos para o bem, para o meu próprio bem.
- Pai?
- Carlos, como está?
- Bem. Onde está a mamãe?
- Em casa. Me ligou dizendo que já está vindo para cá.
- E o Babão?
- Dormiu em casa com a sua mãe. Já está na escola.
- E quando vou sair daqui?
- Daqui a pouco uma ambulância vai transferir você para outro hospital.
- O São Luiz?
- Sim.
- Não quero, pai. Estou bem no SUS.
Sem reação. Sentiu o Cotonete os olhos do pai cansados, marejados, humilhados, perdidos.
- Quero ficar no hospital público que é meu lugar. Nem pensem em me tirar daqui, desta porra.
Longe de qualquer outra reação, o pai obedeceu com um beijo na testa do menino. Deu as costas e puxou ar para não chorar. Foi ao banheiro e estendeu mais uma carreira. Cheirou. Uma longa carreira de cocaína. Sentiu-se melhor e mais potente. Mais corajoso e destemido. Voltou ao leito do filho que tagarelava palavrões com uma enfermeira negra e forte. Quase 1,80m.
- Você foi valente, menino. E mais valente ainda foi seu pai.
O doutor Carlos Sampaio entrou cheirado.
- Seu pai não deixou seu leito um minuto sequer e dizia sempre "não nas minhas mãos; não vai morrer nas minhas mãos". Foi de comover.
Assim que retormou, ouviu do Cotonete.
- Obrigado, pai.
Em seguida a dona Fátima entra no quarto. Dividido com mais quatro outros leitos. Geralmente pessoas idosas, nas últimas, esperando os óbitos.
- Filho, como está?
- Bem, dona Cláudia. E o Babão?
- Na escola.
- Pai, obrigado novamente por não sair de perto de mim.
A agitação era explícita. O rosto de um lado para o outro. As mãos apertando os vazios até as veias e os ossos saltarem. Reprimia a fala. Suava visivelmente pelas têmporas. Dona Cláudia passava a mão nos cabelos do Cotonete. Já reconhecia o estado do marido. Era agora esperar o excesso de berros e gritos e ofensas...
- O Babão dormiu em casa hoje.
- Eu sei. Papai me disse.
Ouvir papai era incomum. A afetividade entre ambos jamais existiu entre papai e filhinho.
- Vou para casa descansar. Preciso de um banho. Preciso me desligar.
- Eu fico com o Luiz. Pode ir, respondeu aliviada.
- Mãe, não quero ser transferido para hospital particular. Quero ficar aqui.
- Tudo bem, meu filho. Mas aqui você pode estar tomando o lugar de uma outra pessoa que está urgentemente precisando deste leito para os mesmos cuidados que você está tendo neste exato momento. Você tem direito a um hospital particular. Faça uso dele. E libera para uma outra pessoa que tem mais necessidade do que você.
O Cotonete me disse que se lembrará para sempre desta perspectiva que a mãe dele lhe abriu a mente. Nem sempre insistir em uma opinião é o bem comum. Muitas vezes mero egoísmo e falta de maturidade. Antes de o pai sair para casa, ele o chamou e disse:
- Pai, tudo bem me transferi para o hospital particular. Acho que posso ser mais útil assim.
Chapado, doutor Carlos Sampaio fez cara de indiferente. Internamente aliviado. Não perdeu a ousadia que a cocaína lhe dava. Fez uso dela. Disse que iria para o apartamento e deixou todos, e o filho aos cuidados da mulher. Uma hora depois Cotonete foi trasladado para o São Luiz de ambulância. Quarto privativo enorme e totalmente equipado. Equipe de médico completa. Ressonâncias, tomografia e todos os exames. Mais dois dias internado. Braços e pernas engessados. Saiu perneta e maneta. Não teve visita. De cadeira de rodas, na porta de saída, o Babão.
- Babão, seu filho da puta!
Ao lado, sem perceber, a mãe do Babão.
- Me perdoe, dona Maria.
No Ford verde entramos eu, minha mãe, Cotonete na frente. Me disse dona Cláudia que o doutor Carlos Sampaio estava há dois dias sem aparecer em casa. Ninguém sabia do paradeiro dele. Ligou ao hospital São Luiz, onde ele era diretor. Pediu licença de alguns dias. Porém, foram literalmente três longas semanas sem contato com a família. Dona Cláudia não estranhou os três primeiros dias. Porém, uma semana depois, já em desespero, foi a todos os cantos de São Paulo. Desde boites, a bocas de drogas, ao IML. Inclusive perambulou pelas ruas observando mendigo por mendigo quatro noites consecutivas. Querendo o marido. Entrou em contato com a Glória e nada. Temeu o pior. Suicídio. Desaparecimento. Overdose.
Ao mesmo tempo, convalecente, Cotonete sentiu falta do pai. Demonstrava saudades. Na escola passou a ser mais silencioso. Babão falou com a mãe que disse ser um problema deles. Obedeceu. Pedia autorização para dormir na casa do amigo. Ela concedia. Pelo Cotonete. Pela dona Cláudia.
Era início do mês de julho. Os meninos de férias. Fazia frio. A campaínha toca. Muito mais magra e pálida, se assustou pelo horário, porque não tocou o interfone e porque o filho e o amigo já dormiam. E o susto maior com o trapo humano que aparece na sua frente. Era o doutor Carlos Sampaio.
- Posso entrar na casa da minha família? Me aceita de volta?
Nenhum comentário:
Postar um comentário