domingo, 17 de abril de 2016

Minha Musa na Praia

Na praia, ao sol, sozinho, sobre a cadeira, sob a sombra, com o livro Esaú e Jacó às mão, em leitura reflexiva. Começo a admirar uma mulher que curiosamente já havia visto meses atrás. Mesma praia. Mesmo local. Da outra vez - creio em janeiro -, eu a busquei muitas vezes com o olhar, porém, um tanto distante. Ela está em família: muitas crianças e adultos. Ela tem dois filhos pelo que senti, e provavelmente não casada, mas sim solteira. Vou acreditar nisto. Quanto aos segredos de seu coração, eu poderia conhecer trocando algumas palavras, que pode ou não acontecer. Seria incomum. Geralmente buscar alguém tão próximo e distante causa um medo justificável. Ela tem ares de quem vive na casa dos trinta anos. Caso tenha seus quarenta ou mesmo seus vinte, peço perdão e culpo a beleza feminina e seus adornos artificias que roubam anos do senhor tempo ou acrescentam. Idade é uma perspectiva. Digo que é uma menina que tem em si todas as possibilidades de seduzir os jovens, emanorar-se dos homens de trinta e encantar os quarentões como eu, que já incluo os cinquentões e sessentões. Já os setentões têm outra natureza sobre a qual deixo para o bom ou o mau da velhice de cada um.

Esta minha musa - eu a chamarei de musa só pelo estilo fino de escrever poeticamente - traz a saúde nos belos músculos cuidados com boa dose saudável de exercícios. Os músculos, seja nas costas, no abdômen, nas coxas e panturrilhas, me intimidam pela minha grande barriga. O brilho de um bronzeado belíssimo já imprime uma cor docemente estimulante ao visual de quem a vê, pelos músculos, pela cor, pela pele. O cabelo preso, uns óculos escuros, um chapéu de aba dizem ao sol e ao vento que nem tudo o que queremos podemos ter de uma mulher com vontade própria. Liricamente, nem a brisa do mar, nem a luz que nos queima terão acesso à sua face, aos seus olhos, aos seus cacheados. A combinação entre a água do mar, as ondas que vêm e quebram à sua cintura, o som de vozes abafadas pela natureza e seu corpo inspira quem vai além da luxúria. Eu a olho e a desejo como homem, mas quero sentir toda poeticidade, por isto escrevo. E neste ponto que eu entro e viro uma incognita.

Palavras buscam palavras para momentos singulares de emoções. As perguntas raramente antecedem os fatos emocionais. Geralmente os porquês vêm depois do convívio, e as dúvidas, incertezas, angústias roubam nossos sonos e pensamentos. Incrivelmente, hoje nos anos dos meus 40, eu antecipo as perguntas das possíveis dúvidas e faço da vondade do meu coração parte do que me basta sem a necessidade de realizar minha vontade de modo precipitado, estabanado e encantador. Sedução e encanto é fazer do outro um objeto apaixonado pelas memórias ouvidas, vistas, sentidas. Apenas memórias.

Gosto demais de inspirações poéticas e emocionais como despertadas por esta minha musa. Bem alguns meses não sentia tal liberdade ao escrever. A prisão de um escritor está na sua pouca produtividade, seja por cautela, seja por sentimentos reprimidos e opressores. Não escrevia desta forma e conteúdo pelas três coisas. Sinto-me livre agora para escrever. Há discórdias e dessabores aos tantos. Há dúvidas roubando presentes e passados. Há dores criando doenças e esfriando o amor. Fico imaginando eu poder pegar este texto e mandar para ela e dizer:

- Escrevi pensando em você aqui na praia.

O perigo também será duplo. O maior é ela chamar a polícia e os parentes para me espancar por assédio e temor pela sua liberdade de ser livre e bela e interessante sem ser inspiracão de vagabundo algum com ares de poeta. Ela está com os filhos e um mundarel de parentes, e, vê-se, família com certa unidade. Sem dizer da especulação mais saudável para mim de ser solteira. A outra hipótese - a menos provável, porém a mais temida e pior - é este texto ser acolhido com curiosidade e despertar encanto e sedução em sua alma. A curiosidade desconstruirá todo assédio, todo medo, todo receio, todo temor, toda covardia que roubam sonhos, presentes e futuros. Ela se interessará por mim e eu por ela e viveremos momentos intensos de felicidade compartilhada. Claro que não vou apresentar este texto a ela. Somente a quem possa ler com meio sorriso de imaginação nos lábios da alma. Existe uma outra possibilidade de minha vontade ser algo pessoal, e tudo aquilo que projetei em fantasias desmoronar à troca de algumas palavras com ela. Sou muito chato. Eu projeto ideias. Nem todos compreendem que ideias existem para algo interno. Ideias não são fatos. E o fato é que ela há muito saiu da água e, ainda sobre a cadeira e sob a sombra, me concentro exclusivamente no que escrevo. E vale dizer: mulher quando apaixonada anseia exclusividade, do contrário sua ideia de amor dissolve-se no ar por meio de discussões e opressões. Não. Um escritor deixa tanto as discussões quanto as opressões para seus personagens. Quando muito o que qualquer escritor quer é fazer isto: sentir na imaginação para escrever a outras imaginações...

Flavio Notaroberto

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