domingo, 1 de abril de 2018

Renascer

Boa Páscoa. Se for para renascer, que seja! Deixar de ser é um processo contante na vida humana, e poucos percebem. Quem percebe aguenta os dias com mais sensação boa. Sobre sentir, no sentido de captar o mundo com os sentidos, parte de nossa felicidade está na harmonia do tato, do paladar, da audição, do olfato e da visão. Visão e audição são sentidos que nos distanciam das pessoas. Podemos ver e ouvir longe, muito longe delas. Já os demais três, é necessário a aproximação, o contato realmente físico. A maior ilusão vem do ver e do ouvir. A certeza vem do tocar, cheirar, degustar. Ter consciência nos fragmenta. Ao invés de nos deixar mais compactados e certo, a consciência nos divide em momentos para cada coisa, e eu acho esta coisa de sabedoria. Eu tenho consciência dos meus sentidos e dos sentidos dos outros, portanto, não posso alegar ingenuidade diante dos exageros. Assim, tornamo-nos humanos, cada vez mais humanos. Verdade que o vinho existe para confundir o que sentimos. E quanta confusão! Para o bem e para o mal. Voltando ao nosso renascimento constante, o verdadeiro ponto, que legitima nosso renascimento, é usar nossos sentidos de modo renovado. Um eterno olhar inocente diante da novidade do mundo. Para renascer, então, temos que viajar, seja real ou imaginário. Mas viajar sem confundir os sentidos, como o vinho nos faz. Viajar embarcando nos meios que conduzem nosso corpo para distantes lugares, e aí cito avião, navio, trem, ônibus. No meu caso, viajo muito na imaginação, e talvez seja a falha que amigos e parentes me cobram. Mas meus sentidos já estão acomodados e em harmonia. Renascer é usar os sentidos sempre de modo a criar uma nova e boa sensação para o cérebro. Um novo amor que se encaixa em nossas vidas é um renascimento. Um empreendimento novo é um renascimento. Um filho que vem, um país para onde se muda, um curso que se começa, um jardim que se planta, um ódio que se perdoa. Eu creio que superando a barreira dos limites dos sentidos de apenas sentir, renovando-os, dá para passar uma existência renascendo sempre. Não temos longevidade de existência. Temos momento de existência. Ao final, colocaremos no que sobrar de nós -nossa consciência - aquela história que fomos, e nossos renascimentos. Nos últimos quatro anos, tive de renovar-me anualmente, e tem sido duplamente divertido e melancólico. É uma boa dupla esta, porque posso chamá-la de extrovertido e introvertido

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