quinta-feira, 14 de março de 2019

JOANA E ZION

Desafio Literário - Narrativas Curtas
(autor: flavio notaroberto)

Personagens: Joana e Zion
Sentimento: reflexão, caridade, alegria
Local: África

O jogo acontecia no mês de março, terra batida. Fazia sol já tarde. A queda no gol fraturou o braço esquerdo.
- Nem doi, nem doi, nem doi, disse em sotaque português, o menino José.
Doía do seu modo. Saiu da terra seca e do sol artido, xingando nomes na sua língua africana. Foi para baixo da árvore, braço recolhido, imóvel, e um tronco longo, embaixo dela. Ele se sentou. A pele escura, pouco suor, o pó tomando-o, como enfeite da sua particular sina. Percebeu inchar o braço. Ficou lá, gemendo internamente. O jogo quase na frente dele, gritaria, correria, alegria.
"Joana e Zion". Curioso, molhou o dedo com cuspe. Passou-o sob o tronco caído. Aos poucos, com mais cuspe e mais dedo, os nomes se abriam nitidamente impressos no troco, "Joana e Zion". Teimou mais, e um coração imperfeito cercava Joana e Zion. Embaixo, uma data, ou melhor, um mês e ano, "março/1919"
- Olha a bola!
Bateu no tronco. Ele chutou de volta. Doze garotos no sol. Um na sombra. Dois nomes no tronco. Um coração. Uma data. O ano de hoje era 2019. Março de 2019. José, nascido em Maputo, em 2007, lançou os olhos da imaginação para os 100 anos atrás de Joana e Zion. Ele jogava no gol, porque não gostava de futebol. Preferia os livros e a escola. Olhar perdido em si. O tronco foi levado para casa. Com dificuldade, claro. Lavou-o e achou verniz para o belo do olhar. Envernizou-o por inteiro. Joana e Zion, o coração, a data destacados. Na pobre casa, um enfeite simbólico em um canto do casebre.
- Um dia serei escritor, disse em preces duas semanas depois, com o braço ainda inchado, e o amor entre Joana e Zion será descoberto pelo mundo em um lindo romance negro, com as seguintes palavras iniciais, guardadas hoje no pensamento:

"Sob a sombra de um Baobá, à silenciosa dor de um olhar inocente, nos perdidos recantos da periferia de Maputo, em Moçambique, o pó dos amados ainda persistiam na eterna juventude dos amores, e foi em 1919, que Joana e Zion..."

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