Desafio Literário - Narrativas Curtas
(autor: flavio notaroberto)
Personagens: Lucas e Amanda.
Sentimento: amor, raiva, alegria.
Local: consultório
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- Não entendo bem, doutora.
Amanda já entendia. As pernas cruzadas, com postura, um pequeno caderno em uma mão, caneta verde na outra.
- Por que escreve com a verde?
- Perdi a azul.
- Mas semana passada era verde, e na outra, e na outra.
- Perdi faz tempo.
- Vu trazer uma para a senhora. Azul.
- Obrigada.
- Posso ver seu caderno?
- Este, em minhas mãos? Olha só, disse, apontando de longe. Ele tem a idade de quando nós começamos...
Lucas ameaçou extender a mão. Intimidou-se. Recuou. Faltavam dez minutos.
- Eu vivo uma ilusão, doutora?
- Tecnicamente, é complicado definir psicologicamente o que é realidade e ilusão. Mesmo assim, estamos em alguma realidade, Lucas.
- Posso amar e sentir raiva da mesma pessoa ao mesmo tempo?
- Pode.
- Não é uma ilusão amar e sentir raiva de uma mesma pessoa?
- Não digo ilusão. É um paradoxo.
- Defina paradoxo.
- Uma verdade que parece mentira.
- Eu amo e sinto raiva da mesma pessoa.
- Raiva ou ódio?
- Raiva, doutora. Ódio não combina com amor.
- Então você pode ter raiva por amar alguém que não corresponde ao seu amor, Lucas? É isso?
- Sim.
- Tem raiva mais dela ou do seu sentimento?
- Do meu sentimento.
- E quem sente seu sentimento?
- Eu, né?
- Então a raiva é por você mesmo?
- Talvez. Mas me sinto melhor transferindo a culpa.
- Autoconsciência é o início das descobertas mais significativas sobre nós mesmos. A autoconsciência nos liberda da escravidão do amor, da raiva, do ódio, da busca sem critérios da ideia de felicidade.
- Eu sei. Mas deve machucar muito a autoconsciência.
- Machuca. Ela apenas liberta.
- Acabou a seção, doutora.
- Mais um passo para a alegria?
- Sim, um passo mais longe da tristeza.
- Este caderno será seu depois.
- Obrigado.
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