terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Em algum canto

Em algum canto, deste vasto, mas finito, horizonte, se escondem milhares de mentes inseguras e inquietas. Elas buscam a si mesmas - envoltas em reflexões - as verdades, que nunca serão encontradas, a não ser dentro de suas imaginações. Uma vez soltos, onde aportarão tantos incontáveis desejos? A maioria se perde. A mente que admira é a mesma que se deixa apequenar. Lá longe, uma linha imaginária, que aprendemos a chamar horizonte, nunca será alcançada por quem quer que seja, semelhante à desilusão no amor que, por mais que se busque, nunca será compartilhada. Em algum canto agora há um amor que chora, outro que desespera, outro que ri das infelicidades, e do riso se faz nada e silêncio absoluto para sempre. Melhor que sentir é imaginar; melhor do que ir ao encontro do horizonte é crer nele à distância; melhor do que perseguir o amor é ser feliz na imaginação de respirar a paz da alma com nosso cérebro liberto, porque nunca se apequenerá diante da escravidão de uma dor que não lhe pertence. O horizonte não pertence ao mar, mas sim à nossa própria imaginação. Em algum canto uma lágrima pertecem ao mar agora, eu imagino. Em todos os cantos o horizonte não tem fim. É somente uma linha imaginária.

Domingo lindo

O dia está lindo. Nem para todos o dia estará lindo. Eu sei. Há pesoas, por exemplo, que nem sairão do seu quarto hoje porque estão profundamente insensìveis e anestesiadas a qualquer sentimento. Como um dia eu já estive em minha adolescência, e início maturidade. Eu estava anestesiado para alegria, tristeza, ódio e perdão. Como foi difícil ter de conviver comigo, ou melhor, com o estado de ânimo que me dominava por completo, que era a apatia, mais conhecida como depressão.. Aquilo não iria ter fim para mim, a não ser quando eu morresse, o que aliás era minha vontade todo os dias quando eu despertava. Não me importava nada. Nem a mim mesmo. Eu perdi quatro anos de minha vida nesse mundo. Perda porque eu não era dono de meus sentimentos. Um único estado de ânimo era dono de mim. Ele escravizava-me. Se eu tivesse ido a algum psicólogo, psiquiatra à época eu não sei como e o que eu seria hoje. Os anos passaram. Entrou o fator Deus em minha vida em 1994 (ateu que eu era). Aos poucos voltei a sentir emoções. Outras emoções. O momento mais catártico para mim foi quando assisti a um filme e, ao término dele, chorei. Chorei de todas as maneiras. Chorei de propósito, descontrolável, tristeza, libertação, alívio, esperança, término, recomeço. Chorei longamente. Em 1997, há vinte anos. Tinha eu meus sonhadores 23 anos. Redescobria a vida. Estava no segundo ano da faculdade. Voltei a viver. Hoje, vinte anos depois, o dia está lindo. Bom para churrasco, ver amigos, família, passear, parque, um bate-e-volta a qualquer lugar bacana. O dia está lindo para mim, e olha que eu não farei nada hoje. Nada. Verdade que moro na praia e faço dela meu bate-e-volta de um quilômetro. O dia está de fato lindo. Eu sei porquê e o nome que melhor traduz esse porquê é autoconsciência. Posso fazer Deus. Mas não gosto. Prefiro escolher. Escolher viver Deus permitir ser usado por Ele.

Novamente bom dia, desse domingo lindo.

Crítica Miguelito

Primeira leitura crítica de "Miguelito: Memórias"

"My teacher, uma vez teacher sempre teacher. Finalmente terminei de ler 'Miguelito: Memórias'. Foi por falta de tempo e o imprevisto com meu tablet. História envolvente, nos prende do início ao fim. No começo me confundi um pouco. Ora achava que estava falando já de Miguelito,ora do Padre e do Pablo. Por isso é importante um momento para a leitura. Me diverti com as aventuras do 'da finada'. Me emocionei muito. Me apaixonei pelo Padre Miguel. Mariana, mulher de sorte. Não foi simplesmente uma biografia. Amei as citações filosóficas, a cultura, as expressões do povo do norte e o querido Miguelito. Como me emocionou e me fez rir esse menino, morto, ressuscito e que se tornou monge. Muita emoção. Sabe aquelas pessoas que ficam na sua mente e que VC gostaria de conhecer, assim é ele.
Erros pequenos de gramática. Acho serem mais de digitação, que sei, já deve ou ainda vai editar. Amei a história e já estou com saudade do Padre Miguel, do Miguelito.

Parabéns Flávio, me senti como lendo obras lindas de alguns grandes escritores brasileiros. Admiro muito a sua inteligência. Que Deus o abençoe ainda mais e muito sucesso. VC merece, professor, escritor, psicólogo, filósofo, é assim um pouco de tudo ou até mais, não é?

Por Isabel

Não precisamos amar como jovens

A quem acha que depois de uma certa idade precisamos amar feito jovens. Não. Não precisamos mais. A solidão e a carência são parceiraças. É bacana companhia que vamos chamar se amor, mas não ter que ter amor para ser uma linda companhia. Acredite que podemos falar de amor, sentir vontade de amar e romantizar todas as sensações possíveis que orbitam nossa ideia de amar. Se não formos Romeus e Julietas, se não tivermos a inocência desse amor original, se não acreditarmos que sem esse amor realizado o que nos resta é a entrega mórbida para a morte, se não somos mais Romeus e Julietas, acreditem homens e mulheres experimentados, definitivamente não precisamos mais desse tipo de amor em nossas vidas. Não precisamos mais desse tipo de amor. Não devemos ser fracos a ponto de achar que sim.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Cerveja e vinho

Pensando em nada. Somente uma justificativa para a vida. Comecei a beber cerveja e vinho a partir dos 27 anos. Fumar charuto a partir dos 40 anos. Creio que a razão seja eu crer que temos permissão desde que haja algo próximo como auto-consciência. Influência por influência, gosto de compartilhar tanto os livros que escrevi quanto os livros que leio todos os dias. Assim vale para a arte de modo geral. A vida vem do sol e da água. A união enorme da vida eu dou o nome de praia. De lá compartilho também um pouco do meu olhar pessoal. Eu creio na juventude quando ela é realmente jovem. É o momento deles. Torço pelos jovens. Motivo pelo qual entendo uma mente madura como a minha encantar um pouco a juventude. Apenas encanto, porém. Auto-consciência é muito mais do que olhar para si. Ao ler um capítulo sobre a evolução da introspecção, tudo o que eu entendia por auto-consciêcia, self, alteridade, inconsciente tem um outro capítulo agora. E mais do que nunca, se antes eu gostava de viver o que eu falo e meu entendimento, hoje tenho mais razões para saber onde está minha auto-consciência, meu eu, meu self e a minha relação com o mundo e com as pessoas. E isso me encanta maravilhosamente. E continuamos em nossa viagem.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Azedou, não há volta

As únicas pessoas em que o perdão é absoluto - para mim - são aquelas que amamos incondicionalmente, e que para mim são os nossos filhos. Os atuais e futuros pais e mães sabem ou saberão. Dos filhos, podemos sublimar qualquer mágoa, qualquer dor, qualquer rancor, qualquer decepção, qualquer sentimento destrutivo ou negativo. São filhos! Ao menos, sou assim, e funciona para mim. As demais pessoas, que amamos, não se encaixam nessa categoria do perdão absoluto - ao menos para mim. Claro que perdoo, porque não custa nada, e perdoar faz bem a si mesmo. Mas jamais será a mesma coisa um perdão diante de uma decepção. Eu brinco de amar. Brinco de amar a Ju, brinco de amar a Ka, brinco de amar a Rê, brinco de amar a Eli, brinco de amar a Ta, a Da, a Fla, a La, a Va, e por aí vai - sem falar daqueles do passado, já inexistentes. Mas não há mais volta para o que um dia teve mácula, e a dor remoeu de modo confusamente interno e forte a pureza da poesia que havia, que mergulha profundamente nesse abismo mortal chamado solidão humana. Brinco de amar para me divertir com os textos que brotam das minhas emoções de escritor. Do momento da discórdia em diante, o que se espera do amor? Não me refiro ao gosto do patê na torrada, do cheio do perfume, da temperatura da água no chuveiro. Refiro-me à tentativa do jogo emocional e psicológico, muito constrangedor para a sensibilidade poética. O jogo psicológico cai muito bem nos palcos, no drama, nos teatros da vida. O lirismo, porém, defere em grau. Difere ao enxergar o amor transcedental no sorriso da pessoa amada. Quando se perde o lirismo, pulveriza-se a sua ausência na disputa do eu com o outro. Explico melhor, quando perdemos o lirismo do outro, não existe presente mais com ela. Somente o passado lírico. Acabou o presente. Começou a tortura emocional. Lirismo é alma buscando alma, sem certezas pessoais, senão entrega recíproca. Acabou esse lirismo, a poesia continua como sonho, ilusão, fuga, evasão, refúgio e como forma de zombar de si mesma - herança do romantismo. Certa vez, num desses amores pregressos que tive, ela me disse um caso de umas cócegas em sua barriga. O cara sem noção. Sua barriga tinha sido atacada por dedos constantes de cócegas - uma sensível parte de seu corpo, as cócegas na barriga. Era namorado dela. Disse-me ela que foi tão insistente e sem noção que ali ela soube que "Deus me livre uma pessoa assim!" Eu entendi. "Sem noção." A partir daquele momento era só uma questão de tempo para livrar-se. Infelizmente, para algumas pessoas, funciona assim o término. Pode haver o bem-querer, mas não há mais o tal do perdão absoluto, da vida nova, do recomeçar. Os desavisados insistem que pode dar certo. Raramente dá. Os já cansados e maduros dão um auto pé-na-bunda em si mesmos e saem pelas portas do fundo, jurando para todo sempre o amor que tive, que de fato houve, mas não tem aquilo que o torna absoluto: o perdão. Eu sei que cometo exagero sobre perdoar incondicionalmente os filhos, mas eu falo exclusivamente por mim. Da mesma forma que eu exagero ao dizer que depois que se azedou o relacionamento, não há mais volta, porque eu falo também exclusivamente por mim. Entre uma coisa e outra, prevalece o equilíbrio. Algo que depois que aprendemos a ter, exercitamos a cada momento de nossas vidas.

Adeus (poema)

Adeus, meu adeus, volto logo.
Um dia verei em seus lábios,
Soltos aos ares da vida,
Verei a saudade nos ares,
Não faço do amor o apego.

Adeus, adeus, para mais,
Não mais, nunca mais o apego
Nunca mais verei em seus olhos
Soluços despertos de mim,
Fui o pouco que resta assim,
Adeus, adeus, volto logo.

Desperto, silêncio, aflito,
O adeus apett