domingo, 3 de dezembro de 2017

Azedou, não há volta

As únicas pessoas em que o perdão é absoluto - para mim - são aquelas que amamos incondicionalmente, e que para mim são os nossos filhos. Os atuais e futuros pais e mães sabem ou saberão. Dos filhos, podemos sublimar qualquer mágoa, qualquer dor, qualquer rancor, qualquer decepção, qualquer sentimento destrutivo ou negativo. São filhos! Ao menos, sou assim, e funciona para mim. As demais pessoas, que amamos, não se encaixam nessa categoria do perdão absoluto - ao menos para mim. Claro que perdoo, porque não custa nada, e perdoar faz bem a si mesmo. Mas jamais será a mesma coisa um perdão diante de uma decepção. Eu brinco de amar. Brinco de amar a Ju, brinco de amar a Ka, brinco de amar a Rê, brinco de amar a Eli, brinco de amar a Ta, a Da, a Fla, a La, a Va, e por aí vai - sem falar daqueles do passado, já inexistentes. Mas não há mais volta para o que um dia teve mácula, e a dor remoeu de modo confusamente interno e forte a pureza da poesia que havia, que mergulha profundamente nesse abismo mortal chamado solidão humana. Brinco de amar para me divertir com os textos que brotam das minhas emoções de escritor. Do momento da discórdia em diante, o que se espera do amor? Não me refiro ao gosto do patê na torrada, do cheio do perfume, da temperatura da água no chuveiro. Refiro-me à tentativa do jogo emocional e psicológico, muito constrangedor para a sensibilidade poética. O jogo psicológico cai muito bem nos palcos, no drama, nos teatros da vida. O lirismo, porém, defere em grau. Difere ao enxergar o amor transcedental no sorriso da pessoa amada. Quando se perde o lirismo, pulveriza-se a sua ausência na disputa do eu com o outro. Explico melhor, quando perdemos o lirismo do outro, não existe presente mais com ela. Somente o passado lírico. Acabou o presente. Começou a tortura emocional. Lirismo é alma buscando alma, sem certezas pessoais, senão entrega recíproca. Acabou esse lirismo, a poesia continua como sonho, ilusão, fuga, evasão, refúgio e como forma de zombar de si mesma - herança do romantismo. Certa vez, num desses amores pregressos que tive, ela me disse um caso de umas cócegas em sua barriga. O cara sem noção. Sua barriga tinha sido atacada por dedos constantes de cócegas - uma sensível parte de seu corpo, as cócegas na barriga. Era namorado dela. Disse-me ela que foi tão insistente e sem noção que ali ela soube que "Deus me livre uma pessoa assim!" Eu entendi. "Sem noção." A partir daquele momento era só uma questão de tempo para livrar-se. Infelizmente, para algumas pessoas, funciona assim o término. Pode haver o bem-querer, mas não há mais o tal do perdão absoluto, da vida nova, do recomeçar. Os desavisados insistem que pode dar certo. Raramente dá. Os já cansados e maduros dão um auto pé-na-bunda em si mesmos e saem pelas portas do fundo, jurando para todo sempre o amor que tive, que de fato houve, mas não tem aquilo que o torna absoluto: o perdão. Eu sei que cometo exagero sobre perdoar incondicionalmente os filhos, mas eu falo exclusivamente por mim. Da mesma forma que eu exagero ao dizer que depois que se azedou o relacionamento, não há mais volta, porque eu falo também exclusivamente por mim. Entre uma coisa e outra, prevalece o equilíbrio. Algo que depois que aprendemos a ter, exercitamos a cada momento de nossas vidas.

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