sábado, 16 de dezembro de 2017

Na convivência podemos criar carinho

A convivência é a melhor forma de criarmos carinho por alguém. A mesma convivência inclusive que revela o quanto estávamos errados ao supor que o que sentíamos por alguém era amor verdadeiramente. Todos nós nos revelamos aos poucos para as pessoas no convívio; raramente de uma única vez. Li uma manchete de notícia que dizia que um casal de enamorados foi feito por meio de um concurso de dança. Eles dançaram muito, ensaiaram muito, se conheceram muito, se curtiram muito e estão agora aí assumiram que se gostam muito. Não é possível mensurar o nível de carência tanto de um, quanto de outro para saber quem cedeu mais, ou se a carência era zero ou total e a sintonia gerou o amor-amigo perfeito. Geralmente o mais carente cede muito mais e as razões que explicam são tantas que perde tempo pontuá-las. Quando terminamos um relacionamento bate uma forte carência e confusão em nosso centro emocional que cedemos com facilidade qualquer investida mais carinhosa, atenciosa, que proporciona alívio. Uma conhecida me disse recentemente que ao terminar um relacionamento engatava em seguida outro e assim tem sido desde que ela começou a namorar. Hoje ela tem mais de trinta anos. Eu sorri. Nada mais natural para mim. Uma porque eu nem reparei quando ela começou a me desenrolar seu histórico afetivo. Mas se ela me disse que com ela era um atrás do outro, é porque de alguma forma, ela tem autoconsciência de uma inquietação, que no fundo diz respeito a ela mesma. Aliás hoje ela namora, de novo! Eu evito contato prolongado com quem pode perturbar meu coração para evitar também a perturbação do amor. Não ando carente e até me incomoda os momentos de carência. Quero ver meus filhos crescerem, porque eles são prioridades nas minhas escolhas agora. Já que tenho pretensão de filósofo, tenho hábito estoicista, adquirido por muito pensar e por muito viver. O estoicismo crê que os sentimentos não são mais fortes do que nosso pessoal desejo. Podemos dominar nossos sentimentos, se desejarmos - da carência ao amor pleno. Não me refiro a reprimir. Reprimir é uma doença sufocante. O estoico admite a dor, o sofrimento, a angústia, o desejo, o sentimento, a dependência emocional, a carência afetiva, porém, diante de tudo, o estoico escolhe sentir e apenas sentir, esvaziando a reação ao que sente. Sentir é uma das formas de viver. Pode parecer muito repressor. Pode até ser, desde que o estoico não somatize em recalques e outras doenças, ele leva a vida muito bem, focado em seus interesses. Existem decisões pessoais, que não são tão pessoais. Minha decisão de evitar contato emocional parece triste a muitos olhos atualmente apaixonados. Creio que para o olhar dos meus filhos, eles entenderam minha decisão. Já vivi o paradigma de relacionamento convencional, que todos querem. Um ciclo bacana. Separar-se, então, é complicado. Não há quem, depois dos trinta, que tenha passado pela separação, não entenda a complexidade sentimental nos bastidores da separação. A maioria crê na não-privação dos nossos desejos, ainda que separado. Filosoficamente, Epicuro sugeriu o prazer acima de qualquer outra vontade. Outra corrente de pensamento grego, epicurismo, sugere que a vida vale diante do prazer moderado, e sentir carência não é prazeroso. Como citei estoicismo e epicurismo, vou lembrar a filosofia que traduz nosso atual meio de vida: o hedonismo. O hedonismo se confunde com o epicurismo: ambos procuram o prazer. Mas a perspectiva atual do hedonismo é que o prazer não pode ter limites, nem ser moderado. É o prazer radical, e tudo deve geral euforia dentro de nossos sentidos. Nossa sociedade vende o hedonismo como o máximo. A maioria crê nele. Por isso sentir carência machuca absurdamente. Não somos programados para a ausência. Podemos nos programar para ela, o que significa aprender a sofrer com dignidade e abstinência, e conviver é um perigo. Na convivência criamos carinho.

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