segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Ser bonito e interessante, e gastar menos energia

Um amigo meu, muito inteligente, me perguntou o que ele tinha que fazer para ser mais bem articulado. Mas a questão que ele propôs era mais intrigante do que ele pensava, porque ele é articulado. Ele tem um bate papo normal, sabe polemizar, é viajado, tem raciocínio rápido, é amador em esportes radicais, é shaper profissional, é empreendedor de entretenimento, tem um porte físico naturalmente atlético, faz sucesso com a mulherada e se dá super bem com a rapaziada. Mesmo assim, a questão que ele levantou, como se contrapondo à minha situação, uma vez que eu fui levado para o mundo da arte, sobretudo da escrita e consigo ser articulado dando minhas aulas e palestras, essa questão proporcionou uma observação no mínimo polêmica.

Fui bem direto em minhas observações e a primeira que disse que ele para ser mais articulado seria necessário ler, começar a ler muito, ler diariamente. Não me refiro a textos como esse que escrevo agora, nem a notícias de jornal. Pensava na leitura de livros, porque exigem disciplina e quase que estudo analítico do que se está lendo. A leitura de livros provoca a exigência da atenção, bem como do cuidado de ler e reler o que não está claramente compreendido. Muito comum, inclusive, reiniciar capítulos inteiros para não perder o foco. Disse isso a ele, mas sabendo que a leitura em si não articula ninguém, uma vez que milhões leem e são tão introspectivos quanto uma pedra.

A reação dele foi de um pequeno silêncio. Mesmo assim, ele não se convenceu muito. Afinal, como disse, ele é inteligente, comunicativo, articulado para o seu propósito. Não consigo vê-lo dando palestras, falando em público, arrebatando a plateia. Essas coisas. Mas num bate papo, rolamos horas e horas de assunto dos mais díspares, da política à economia e, claro, muito sobre o comportamento humano, sobre mulheres, desde aquelas que nos fazem apaixonar àquelas que são independentes e amam apenas curtir.

Eu fui um pouco mais específico no perfil dele do porquê ele não precisava se preocupar com aquilo. Mesmo porque, ele me perguntou também se haveria algum problema mais específico em sua incapacidade de ser mais articulado e extrovertido do que já era. Como disse, ele tem o perfil do inteligente e articulado - e posso dizer que ele é das pessoas mais inteligentes que conheço. O detalhe é que abri o olho dele sobre sua personalidade, porque socialmente ele é uma pessoa muito agradável. Amigos e mulheres gostam da companhia dele. O cara é do tipo boa pinta, e gasta quase nada de energia para ser convidado a festas e sair com as mulheres, uma vez que geralmente são elas que dão em cima dele. Diferentemente de mim, que tenho que ser primeiro interessante no que falo e escrevo, para as mulheres me acharem interessante. Ou seja, sou obrigado a gastar energia em demasia naquilo que esse meu amigo praticamente fica imune. Eu disse isso a ele:

- Cara, você é boa pinta, esportista, músico, gente boa com todo mundo. As pessoas têm prazer em cercar-se de você. Elas gostam de estar ao seu lado, ter você por perto, fazer parte de seu círculo de amizade. Sua imagem e jeito de ser agregam nelas um prazer, consciente ou inconsciente, que talvez você não tenha muito claramente. Ou seja, seu gasto de energia para as relações humanas não precisa ser igual aos meus. Eu tenho que ser interessante no que falo e escrevo, por exemplo. Você, a sua companhia, já atrai as mulheres e amigos. Você não vê necessidade de gastar energia para ser mais articulado para ter uma boa vida social. O que você é em si já lhe proporciona esse bem-estar emocional, que todos desejamos.

Para eu saber se a pessoa concorda ou não comigo eu reparo no desvio do seu olhar por segundos, para o infinito, como pensando, sem responder nada. Aconteceu com ele. Sua única observação foi um "pode ser" resignado, como se a observação "uma vida social com bem-estar emocional" já traduzisse a verdade de vivermos nesse mundo com pessoas que nos querem e nos querem bem. Ainda observei o mal que a beleza faz em muitas pessoas que descobrem o poder que o belo provoca no mundo. Digo o mal porque o belo sem controle é tão firme quanto o vapor. Temos interesse no belo, na pessoa bela, pelo prazer que nos causa. Por sua vez, ela sendo uma pessoa amada e amável, sentindo-se amada, querida e requisitada, inconscientemente ela prefere gastar menos energia em outras tarefas, como estudos mais árduos, que exigem muito de nosso cérebro, e curtir sua vida agradável para si e para as pessoas que a cercam. Não é diferente com este meu camarada. Ele é assim. E não vejo nada negativo em ser assim. Negativo é desprover-se de discernimento e autoconsciência.

O bom nessa nossa vida tão breve nesse mundo é saber quais são nossos limites, nossas virtudes, vícios e defeitos. A harmonia, que eu chamo de autoconsciência, desses quatro pontos leva-nos à satisfação pessoal de viver, que eu chamo de real felicidade. Vale para mim, cuja virtude tem sido dedicar-me à leitura e estudo para que eu aprimore tanto minhas aulas quanto meus escritos, já que admito meus limites, meus defeitos e meus vícios (analisar comportamentos mentalmente é um deles!). Projetar no outro o que gostaríamos de ser é saudável, desde que não nos anule. Nesse sentido, esse meu camarada me acha um cara muito inteligente, culto e articulado. Companhia agradável. Eu vejo nele o que eu gostaria de ser para não ter de gastar tanta energia para conquistar as mulheres. Quem ganha mais, claro, é ele. Eu apenas atenuo meus limites. Ele agora compreende mais ainda sobre si mesmo porque não precisa se preocupar com coisas, que não são necessárias à sua vida pessoal. Inteligente, como disse, ele é. Muito mais do que eu. Eu apenas me esforço. Nesse sentido não sei se eu estou sendo humilde, irônico ou sarcástico. Mas sincero eu estou sendo.                      






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