Ao invés de correr, eu resolvi andar pela areia da praia à noite. Comecei correndo, na verdade. Depois parei. Fazia tempo que não corria e tenho treinado musculação bastante pela manhã. Também não corri, porque queria refletir com menos preocupação a vida, pensamentos soltos, sentidos dispersos, sem vontade de parar em momento algum pelo cansaço. Não que a praia acalme a todos e diminua necessariamente o ritmo de nosso espírito. É que parece que não existe outra alternativa quando estamos em contato com a natureza. Seja no mato, seja na trilha, seja no rio, seja no barro. Se permitirmos, a natureza nos envolverá no seu ritmo, constante e quase sempre seguro. Digo às vezes para mim mesmo que depois dos quarenta anos, um homem sensível sonha poder um dia olhar para o mundo externo e harmonizar-se na paz existencial exterior, tendo esse mundo paz exterior. O contato com a natureza tem. Querendo ou não, o fator Deus, destino, falta de alternativa, e outras razões, me trouxeram para cá, para a realidade exterior ao encanto da harmonia da minha realidade interior. Posso incorporar hoje a paz de fora no mar, na areia, na natureza, com a paz aqui de dentro de mim, e meditar. Quando digo que sou sensível refiro-me a sentir de modo pungente o mundo. Nunca olhei insensivelmente o mundo, nem a dor humana é por mim indiferente. Ao contrário. Viver não é tão simples. Algo, por exemplo, que eu nunca imaginei que faria nesse nundo seria parar de tomar cerveja. De fato, não parei. Mas não compro mais, nem me faz falta. Emagrecer era outra realidade impossível, assim como atividades físicas. Hoje mais magro e treinando. Tantas coisas que temos por absolutas e são tão frágeis. Quem crer em algo, crê na fragilidade sem saber. Sobre coisas do amor no coração, cansaram-me as expectativas. Não as minhas. Das pessoas. Sou adepto ao casamento. Mas casamento por um dia, uma semana, quando se vê. Entrega total. Justamente porque depois dos quarenta é bom o ser humano ter projetos "paradidáticos" - sem depender do outro para ser feliz. Que graça nosso projeto de vida ser uma outra vida? Não entra mais em minha cabeça. Olha que nem falo de promiscuidade, libertinagem, relação aberta, poligamia, traição etc. Falo de viver a vida pessoal de cada um de modo livre para o que deseja. Assim aprendi na filosofia com Hegel, e nem gosto de Hegel. A caminhada acabou e encostei-me no carro para materializar essa reflexão agradecido. Quando pouco se tem, agradecer equivale a quase tudo.
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