quarta-feira, 11 de março de 2020

A Entrega

- Que entende por "entrega"?

- Ano passado fiz trabalho voluntário, primeiro domingo de cada mês. Seis horas. A Casa de Repouso Sã, bem próxima de casa.

O entrevistador reparou na gramática. Gostou. Sussurrou mentalmente 'casa próxima de casa'. Os pequenos detalhes são essências delicadas.

Era um privilégio para ele. Há dois anos entrevistava. Sentia. Fingia. Manipulava nos detalhes. Raríssimas vezes se enganou.

- Juliano? E sobre entrega?

Ele tinha feito a barba de manhã. Passou a mão macia no queixo, amassiando seus pensamentos. 

- Minha vida foi uma entrega. É a minha virtude que carrego comigo. Não algumas horas. Nem algumas semanas. Uma vida de entrega. Uma existência.

Havia seis candidatos na sala, mais o entrevistador. O destino ou o acaso  deixou Juliano por último. Bateu a mão direita na perna cruzada. Abaixou a cabeça por um segundo para recordar. E voltou em instantes, instantes dos longos wanos de sua curta vida.

- Entregar-me, disse, foi a necessidade de meu sacrifício ser maior do que meu amor. Minha primeira entrega, de que me lembro, foi aos três anos, um carrinho, pelo portão de minha casa. Desde então percebi como eu precisava daquele sentimento de ser útil. Descobri o amor assim. E amar teve a dimensão dos relacionamentos humanos, com a natureza, com os animais e por fim comigo mesmo. Vivo contemplativo hoje. Vivo feliz. Vivo para a felicidade. Não vivo, no entanto, para o amor como fonte de egoísmo. O sacrifício gritou em mim. Eu o ouvi. Gosto de nesta passagem saber o que posso fazer para o outro.

- Você se expressa muito poeticamente, Juliano - interrompeu o entrevistador.

Os demais candidatos concordaram com o olhar.

- Continue, por favor.

- Uma vida. Uma vida fazendo o que deveria ser feito. Neguei o amor dos jovens e dediquei-me ao cuidado maduro. Quando digo negar o amor, falo que neguei a mim mesmo; e maturidade expressa levar em consideração o outro. Já a poesia é a herança inconsciente de meu amor. O meu primeiro e verdadeiro amor... Sem amor e sofrimento não existe solidão; sem solidão não existe o nosso momento individual; e sem sabermos quem somos, seremos um tanto que egoístas, achando que temos o mundo.

Ao final, Juliano não foi o escolhido candidato. Não imediatamente. Seis meses depois, o MacDonald's o chamou em função da enorme rotatividade. Juliano aprendeu que entrega em inglês era delivery. E foi trabalhar neste setor atendendo os pedidos.

Mas Juliano é amado por quem o conhece. E vítima de inúmeras paixões. O encanto.

- flavio notaroberto -

Antonin saiu para comprar fumo para o pai. Tinha uma nota de cinco. O vendeiro mediu tamanho do fumo e cortou sem embrulhar. Uma distração, porém, de um relincho forte lá fora e berrro de homem fez que Antomin devolvesse a nota pro bolso, sem malícia e má sorte. O vendeiro foi atender também outro freguês de uma compra mais robusta e trabalhosa. Caminho de volta, Antonin viu o passarinho parado contando. Naquela época era cassa com estilingue. Meteu a mão no bolso como sem lembrar que estava sem o seu estilingue. Ele, porém, sentiu a nota de cinco ainda vivinha dentro. Tirou para fora e seu coração de criança inocente tremeu para fora do peito. A nota nãp era mais sua. Ameaçou chorar. Não teve dúvida. Fez da nota um bolinho pequeno e jogou para o mato, que lá ficou para sempre. O fumo também já foi fumado pelo pai, que há muito anos não existe mais, e Antonin virou Antônio, homem velho e sábio, que desde pequeno não sabe o que é roubar e fazer o mal. Antônio ensina aprendendo.- flavio notaroberto -

conto

Eles estavam já quase casados. O tempo os uniu há muito tempo. Um instante os uniu, e foi avassalador como todos os amores. Os beijos e toques trocados, cúmplices do amor sentido e de um para o outro. Andavam lado a lado agora. Pareciam amigos. Ela ainda fazia de sua mão esforço solitário encostar na dele, por uma, duas, três vezes, e nada de abraçarem-se, palmas sentidas, dedos entrelaçados, calores e amores trocados. Eles andavam e as mãos não se uniram. Era dia e a luz testemunhava a quem via os segredos deles quase escondidos. Um dia comum. Os dias têm um mistério revelador aos casais do que eles foram e podem ser. Parecia que naquele momento os toques representavam pouco, ou quase nada na intimidade do tempo. A amizade causa compaixão. Ela parecia ansiar a paixão, aquela paixão entregue, e pode ser que sobrava apenas a compaixão de um carinho não mais existente. Algo no ar dizia que ela representava o que pode ser de essência nas mulheres em paixão, amar e ser amada, sempre. Um movimento também misterioso, como os dias, de querer o beijo na alma, no toque das mãos dadas lado a lado, num dia comum. Mãos que não se tocam mais foi o quadro doloroso de se imaginar o sofrimento dela. Ele desviou de sua mão, e caminharam, lado a lado. Não sei se dela, se dele, se de quem os via no quadro doía mais. Meus, e talvez outros olhos viram e sentiram. Quis ler o coração dela buscando a mão dele, da alma entregue, dizendo "estou aqui, mão ao lado da sua; abrace-a como outrora." Nada de mãos abraçadas. Estavam juntos, lado a lado, caminhando. Foram. Voltaram. O dia vem eterno, e pode ser que desesperado a ela. Melhor a dor da ausência do que a dor da presença ausente. Quem definha de amor prefere a solidão à pura empatia. Ela talvez só queria crer que ainda ama. "Segure minha mão na sua, e caminhemos juntos." Sem amor, não se vive o presente. Sem amor, a dor da solidão aloja no coração a dois. Alguém sofre mais. Ela sofreu com meus olhos sonhadores da união que não mais havia, senão fragmentos penosamente insistentes, pulverizados, que não mais existirão inteiros. O dia caminha e nada se faz mais presente. Ele não estava mais lá como antes. Ela estava lá, e queria como antes. Acabou, mas ele seguia lado a lado, apenas. Acabou, e ela sabia. Um dia, quem sabe, a dor do aperto da separação possa angustiá-los numa liberdade necessária. Não se deram as mãos. Sem mãos, sem vínculo, sem uma mesma alma, ou cada qual entregue a si mesma, que é doloroso. Eles, por certo, não estão sozinhos. Ela está sozinha em si, e vai tentando levar a solidão sentida de seu jeito. É o jeito, quando não tem jeito.

- flavio notaroberto -

domingo, 19 de janeiro de 2020

conto 3

- Somos muito diferentes, Léia. Não sei se pode dar certo.
- Eu sei que somos, Rafael. Sou eu muito mais bonita do que você, mais jovem.
- Está bem, está bem. Mas têm outras coisas aí.
- Eu sei que tem. Também sou muito mais rica do que você. Aliás, eu sou a rica, né?
- Sim, mas, as diferenças são enormes.
- Rafa, as diferenças atingem o absurdo. Eu sou promotora de carreira e você. Bem, você vende capinhas de celular e tenta escrever versos.
- Então, não sei como dar certo.
Léia silenciou. Ameaçou duas vezes falar. Já estava paga a conta. Levantou-se de repende.
- Vamos.
Rafael agradeceu o garçon na saída e depois o motorista.
- Sabe o que eu estou pensado - disse a Rafael dentro do carro, que olhava o retrovisor - ou você não me ama, ou fala muito bobagem, ou é tóxico e vai destruir minha vida. Há ainda uma quarta hipótese, que deixo para o final.
O silêncio dele foi mais sério.
- Se você não me ama, você finge muito bem, e seria um excelente psicopata. Como você é bastante emotivo e chora em besteirol de filmes e músicas, descarto a psicopatia. Se você falasse muita bobagem, eu já teria descartado você nas primeiras linhas da sua boca; nossos papos são espirituosos, cheios de ideias, agradáveis; nossa sincronicidade é nível máximo de gostos e empatias. Definitivamente, você não fala muita bobagem. Ao contrario, fala muito bem e me sinto acolhida. Se você for uma pessoa tóxica provavelmente será uma pessoal igualmente narcisista. Também descarto. Seus olhos agora denunciam seu emocional fragilizado.
Os olhos dele não se desgrudavam da avenida.
- Mas testemunhando seu olhar melancólico, quase olhos marejados, fixos no infinito, eu vejo mesmo que você, na verdade é inseguro, fraco, masculinidade frágil e tenta esconder de você mesmo a superioridade de uma mulher como eu, que não sabe o que viu em você tudo aquilo que ela tem, e você não. Está me ouvindo? Essa a quarta hipótese. Eu não posso mudar o que eu sou, entende?
Ele disse que sim sussurrantemente com manejos da cabeça. Passou a língua pelos lábios e uma lágrima escorreu. Léia percebeu.
- Pare o carro.
Encostou em instantes.
- Vou de Uber.
- E eu vou para onde? O carro é seu.
- Deixa em casa.
Rafael obedeceu. As chaves ficaram com o porteiro. Esqueceu que não estava com dinheiro. Voltou dezenove quilômetros a pé, quatro horas, de Pinheiros a Vila Matilde, cabisbaixo, resignado. Disse a si mesmo que precisava caminhar. No outro dia, segunda-feira, foi para a loja na frente do metro Artur Alvim. Léia chegou em casa as oito da manhã. Passou a noite na casa de sua mãe, a poucos metros da sua. Antecipa suas férias na Promotoria de São Paulo e pega o avião das 19:40 para Nova Yorque. Bloqueou Rafael de tudo. Só não conseguia apagar as boas memórias dos quase dois meses juntos. Por isso, jamais esqueceu-se dele, e também não conseguiria encontrar alguém com tantas afinidades sutis do mesmo emocional - havia, mas não conseguia. Não era beleza, dinheiro, poder, inteligência. Era viver ao lado de alguém para momentos que nada compra, nem beleza justifica, nem poder impõe, nem inteligência constroi. Só viver ao lado de bem com as palavras, emoções e ideias. Ela poderia ter sido só um pouco mais tolerante com a fragilidade masculina do coitado vendedor de capinhas de celular. Rafael tinha tudo o que ela queria. Exatamente tudo. Aliás, mais do que ele mereceria nesse mundo. Ela tinha tudo o que Rafael queria. Porém, um abismo persistia. Ao que tudo indica, nunca se saberá se foi realmente uma péssima ou boa escolha.

- flavio notaroberto -

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

SOBRE DEPRESSÃO

Sobre DEPRESSÃO

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domingo, 3 de novembro de 2019

NOSTALGIA

Peguei o Daniel, meu caçula, para ver um filme. "Vamos ao Shopping União ou Eldorado?". Ele hesitou um pouco. "Tanto faz, pai." E fomos ao Shopping União, em Osasco. No caminho insisti se ele não preferiria ir ao Eldorado. Ele respondeu que não, mas acrescentou que gostava de ir ao Shopping Eldorado porque sentia "nostalgia". Quem não sabe o que é nostalgia? Uma das definições de nostalgia é "saudades de algo, de um estado, de uma forma de existência que se deixou de ter; desejo de voltar ao passado." A palavra também está ligada ao afastamento do lar, do país, da casa, da família. Se ele me disse que gostava do Eldorado, era porque sentia "aquele desejo de voltar ao passado", e se referia a um momento fortemente construído de imagens ricas da família de saudáveis emoções. De fato. Quando casado, íamos como família muito ao Eldorado, minha filha fazia teatro no Macunaíma, as salas de cinema são muitas, Outback, teatro, brinquedos, exposições, e um clima familiar muito agradável. Às vezes não sabemos como funciona nossas emoções e este o foco da vida. Ontem mesmo, uma conhecida me perguntou pelo whats: "Flávio, o q vc acha da alexitimia, da ausência de emoções? O q a neurociência diz sobre isso?" Eu não sabia o que era alexitimia. Fui ao dicionátio e achei "uma desordem psicológica caracterizada pela incapacidade de identificar e descrever emoções; significa literalmente 'sem palavras para a emoção'." Resumidamente, eu foquei no "ausência de emoções". Há duas formas básicas de não termos mais fortes emoções. A primeira é através da depressão, um distúbio neural que anestesia as emoções e faz nossas memórias e lembranças perderem significados e associações, como comer diferentes comidas sem sabor algum. A grosso modo, o depressivo olha para fotos suas de criança e vive uma dor estranha. Ele sabe racionalmente que é ele nas fotos, mas não significa emocionalmente nada. Além das fotos, podem ser lugares, pessoas, músicas, momentos etc. Esta é uma forma cruel de viver nossa pouca existência, motivo pelo qual o suicídio é uma triste alternativa e um desesperado alívio. A outra forma de "ausência de emoções" vem de algo bem diferente da depressão. As emoções não estão ausentes, nem anestesiadas. Elas apenas estão controladas, pelo fato de tanto vivê-las e analisá-las. Nossa mente racional pega nossas experiências em lutos, angústias, tristezas, melancolias, euforias, felicidade, timidez, introspecção, ódio, raiva e mágoa, desprezo, rejeição, humilhação e todas as diferentes formas de emoções, que já sentimos, e cria um controle inibitório quase que natural. Se tanto sentir, nem ligamos mais. Pessoas que passam por guerra ou abuso, e mesmo assim não se traumatizam, é porque conseguiram, por meio da mente racional, entender a existência e o poder da emoção vivida. A palavra resiliência traduz esta última definição de ausência de emoção. A emoção, então, não está ausente, mas faz parte da vida sem perturbar quem sente. De volta ao meu filho. Ouvi-lo dizer "nostalgia" de um lugar, e ele com doze anos, me rasgou liricamente a alma e me deixou com leve melancolia. Aquela minha família de antes: esposa, três filhos, passeios, jantares, filmes e viagens não existe mais no momento presente dele, mas os lugares ainda evocam fortes emoções daqueles momentos de família, em que ele tinha seis, sete anos. A partir de então, foram outras memórias de pais separados. Eu sempre tive cuidado com as memórias que poderia construir na mente de meus filhos depois de separado, e buscava amenizar qualquer possível potencial para trauma. Raramente temos 100% de sucesso naquilo que não depende apenas de nós. Por outro lado, conversando com meus filhos hoje, eu vejo que há uma autoconsciência implantada em cada um deles, e a autoconsciência é primeira condição de conhecer nossas emoção e nosso corpo, e nosso papel na sociedade, e como as pessoas nos veem e como as vezes. Sobre isso, existe a "teoria da mente", que aliás, já falei com cada um deles a respeito. Está aí algo que vale a pena dar uma pesquisa no Google. Porque "teoria da mente" é tentar olhar para a própria mente através das intenções das pessoas. Se virmos alguém abrindo a porta da geladeira, deduzimos que irá pegar algo. Esta dedução é a "teoria da mente", ou seja, concluir o que o outro pretende ou não fazer. Daniel abriu seu coração a um pai sensível sem ter pensado que eu faria de uma única palavra um profunda reflexão íntima e pessoal. Claro que doeu em mim aquele sentimento nostálgico em uma criança de doze anos. Dá vontade de chorar e pedir perdão a ele. Por outro lado, a vida é um caldeirão de emoções, e quanto mais vivemos, mais nos sentimos incorporados em nós mesmos, e saber que sentimos emoções nos ajuda a amar a arte, e na essência a arte é materialização do belo racional por meio das mais profundas emoções, motivo porque eu escrevo arte e amo, amo muito, e amar nos ajuda a sentir...

- flavio notaroberto

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

A Mendiga no Terminal

A mendiga no Terminal

No Terminal Rodoviário do Tietê, a mendiga passou na minha frente com duas sacolas e trapos, andando apressadamente. Para ser mais preciso, foi do Desembarque pouco movimentado numa quinta-feira à noite. Ela tinha a altivez dos dominadores, que fazem do mundo um palco lúdico de avanços e recuos, até o cenário ideal para dominar. Eu me intimidei no olhar introspectivo da solidão triste de esperar a paz que não sentia. A mendiga não era introspectiva. Nem licença ela pediu. Tão somente foi para a sua reunião de negócio, que equivaleria a um contrato fechado com o peso da sua assinatura e as glórias do poder. Ela estava atrasada para ele, e eu pensei no recalque que a imaginação da arte representa em contraste com a realidade da doce esquizofrenia dela, e que fosse uma leve e espetacular esquizofrenia! Quem não é esquizofrênico diante das dúvidas e incertezas que plantam em nossas mentes na sociedade cheia de segundas intenções e recalques? Está ou não me traindo? Devo ou não aceitar? Vale a pena? Vale? O que tem de importante para falar comigo? Por que quer falar comigo mais tarde? E o “eu preciso de falar algo depois”? Por que foi um "sim" seco? Por que apenas "não"? Recortes e recortes profundos de tortuosas dúvidas, que nos consomem tempo de vida e higiene emocional, traduzidos no que queremos ser e no que somos na vida que segue. A mendiga seguia sem a par algum pelas ideias de um outro esquizofrênico nas palavras, que fantasiava a fantasia real dela, que ela tinha ao olhar de quem a via com outros olhos. Os meus eram o da dor. O dela, o da liberdade. Possivelmente o desejo seu de desembarcar de dentro de sua mente o imaginado real de pessoa séria, ocupada, cidadã de bem, com personagens e lugares reais na mente viva era a minha imaginação do que poderia ser, mas não deveria. Uma sacola pesada no braço direito, outra no esquerdo, passos curtos acelerados. Quem corre, teme. Quem acelera, faz porque pode. Ela podia e pôde tudo. Colocou nas minhas reginas internas uma cena de breves segundos em um enredo atemporal. A mendiga olhava soberba para cima. Não nariz tão empinado, porque o exagero é um amigo da insanidade. Nem desviava o olhar para os lados, pela mesma razão do pouco caso a quem não a notasse. Os holofotes da alma não se comparam ao que o sol diz ao que somos aqui e agora. O sol existe por existir. Os olhos da mendiga é uma luz miraculosa de um universo que olha para si mesmo com as poeiras de um início que não sabemos por quê, nem quando, nem nada. A mendiga, porém, é vida, e vida em abundância como havia sido de todas as rainhas e reis de outrora e vindouros, e farrapos artistas. O nariz e o olhar iam na medida da dona, que avançou ainda para a escada rolante, acima, e deixou quem tivesse sensibilidade para ver parado, silencioso, agradecido, a desilusão da existência sem sentido algum. Ela deixou inveja da certeza de quem vive seu próprio mundo com autonomia, sem recorrer às esquizofrenias artísticas, sendo que a arte é o último refúgio dos que sentem que podem ser algo, mas são pouco, porque meras ferramentas de quem vive daquela mesma poeira estrelar intensamente. Ela, a mendiga, vive a arte real de ser e não inventar. Sua criação do mito de si própria. A imaginação melancólica da arte apenas mimetiza o poder limitado da intuição, que tem vida inconsciente cheia de segundas intenções e associações. A mendiga no terminal...

- flavio notaroberto -