quinta-feira, 21 de outubro de 2021

amor suave

Amor, suave, beije-me ternamente
Com aquela doçura dos primeiros
Momentos descobertos.

O beijo que nos ama, entrega-nos
Ao delírio alucinate do que fomos.
Sempre seremos.

Beija-nos o amor que sentimos,
E agora a saudade longa aperta
O fururo incerto.

Certo é o calor do sonho altivo,
E vivo e amado e eterno e lindo.
Nosso presente.

- Flavio Notaroberto -

terça-feira, 18 de maio de 2021

poema

Foi na solidão que descobri que amava
Minha tristeza, reflexiva, e sussurrava
Que amor algum leva à solidão!
Não era verdade.
Eu amava e vi-me só.
Porque quem ama descobre a solidão.
Eu amava e vi-me só cercado de pessoas.
Sozinho é que descobri que amava.
Amava o que não tinha...
Não tinha a vida que não me queria...
Não me queria e vi-me só.
Solitário.
Na solidão descobri que amava.
Olhos fixos no teto,
Respiração pesada,
Coração no compasso do meu querer
Que não me queria
E muito amava.
O lua luava e o sol ensolava.
Pouco ou nada sentia do luar e do solar.
Eu amava na solidão, que me ensinou que amar sozinho a tristeza alimentava.
Eu a amava.
Não amava o que eu não queria.
Amava quem não me queria.
Vi-me só.
Quantas vezes indaguei à minha existência se valeria?
Descobrir na solidão que amar
Machuca a dor de amar tão solitário, minha tristeza,
Que não me amava.
O desejo me impedia de amar a solidão.
Doía.
Uma dor sem lágrimas.
Dor de estar só.
A tristeza tem do imaginário um sofrimento libertador.
Libertei-me nos anos de solidão
E aprendi que amar faz sofrer.
Não queria mais ser triste.
Voltei a sorrir.
Sentir o sol e a lua.
A solidão misturou-se com a vida.
Sorri para tantos lábios que me sorriram de volta.
Ser feliz é fazer feliz.
Descobri.
Aprendi a amar não mais a tristeza.
Agradeci o sorrir.
Amar a felicidade.
Foi a tristeza que me ensinou a amar a solidão, na verdade.
A verdade é que hoje amo estar só amando esse meu sorriso interno.
Ser alegre por ser simplesmente.
Ainda que só, sem amar, sem ninguém,
A não ser eu mesmo na minha solitude e não solidão.
Amo estar só.

- flavio notaroberto -

sexta-feira, 14 de maio de 2021

sonhar e amar

Volte, e dessa vez veja se fica, porque o sonho de amar deve existir nos humanos corações sensíveis.
O amor igualmente existe ao sonhar.
Queremos ambos.
Se ela, a flor em sonho, doce e meiga no olhar,
Em que de seus sorrisos cristalizam minha saudades em memórias,
Se ela cativa meus sonhos,
Se ela sabe sorrir e ouvir e falar,
Se ela sabe ser espelho de desejos,
- reflexos de nossas almas -
Se ela me permite ficar,
Veja a si mesmo se volta a amar e a sonhar.
Não fui eu quem disse.
Está no coração de quem, na dúvida, inunda a alma em angústias.
Será que somos aquilo que queremos?
Parece irreal esse desejo tão forte.
Verdade, sim, porque sinto,
E na distância sonho com ela,
Pensamentos soltos, já que viver é assim outrossim para mim sonhar e amar.
Se voltamos queremos sempre ficar ao olhar de quem amamos,
E nesse amor sonhar.

- flavio notaroberto -



domingo, 2 de maio de 2021

poema leda

Encontrei naquelas soltas nuvens
Seu sorriso e belo olhar sereno.
Ela, ledo entardecer, leda bronze tez,
Fazia do sol o seu corpo inteiro.
Era água, seu sal, o dela, o azul,
Porque na praia deitada na areia,
O cheiro vinha suave e sensivel,
Encantando, e sedução de sereia.
Leda, leda vida, ledo momento.
A bela Leda da tarde persiste ainda.
Outrora ela sorria em Boa Viagem
Para alhures sorrir sempre linda.


sábado, 6 de março de 2021

Beatriz e Fátima

 - Minha mãe disse para eu vir para escola, porque era para eu comer. É verdade, professora?

Sentada na cadeira, cara invertida, de pouquíssimos amigos, a professora Fátima usava máscara preta. A aluna em seguida meteu os olhos por entre os braços cruzados na carteira para chorar bem silenciosamente. Fátima ouviu e quase respondeu que estavam na escola "para todo mundo morrer de Covid!", de tão indignada pela desfaçatez e desumanidade de ter de ir trabalhar no pior momento. Ainda mais ela que já foi infectada. A sala vazia. Dos quase vinte e poucos alunos, somente oito presentes, espalhados, e todos em profundo silêncio, de máscara, obedientes. Ao menos fossem sempre quietos assim, pensou Fátima, dar aulas não seria doentio. A aluna insistia com os olhos entre os seus dois braços, chorando bem suavemente. Ela estava triste por algo, que ainda não incomodava a professora; esconder o olhar vermelho de tristeza era uma forma de sinalizar que não queria estar triste. Uma criança de onze anos entende ainda pouco de emoções humanas, nem procura entender para acomodar o que não é possível deixar de sentir. Apenas sente.

- Sim, disse a professora Fátima, vocês estão todos aqui para comer!, e Beatriz escondeu mais ainda a cabeça, agora incluindo suas orelhas.

A professora não levantou da cadeira, em momento algum, desde que havia entrado, há uns quinze minutos. Mexia em papeis e olhava as mensagens no grupo de professores, com a palavra de ordem Greve Já! O dia , por sua vez, até que feliz, alegre, sorridente com sol, vento fresco, nuvens brancas; o barulho era pouco, bem pouco, para uma cidade como São Paulo, para o bairro como Cidade Tiradentes, no extremo leste da zona leste. Tudo praticamente fechado, mas escolas não! O dia lá fora livre, e a professora presa naquela sala, oito alunos, servindo de quase babá, com risco para ela, sua família, dos alunos e seus familiares.

- O que foi, Beatriz? Por que chora aí?

A menina levantou parte do olhar, abaixou um pouco a máscara e em poucas palavras repetiu:

- Minha mãe falou que eu tinha que vir para a escola para comer.

Enfiou de novo o olhar perdido de sua inocência entre os braços, um pouco mais conformada.

- Por que para comer? - quis saber Fátima.

- Minha mãe só disse que eu tinha que vir para escola para comer, respondeu a menina, sem tirar a cabeça dos braços, e o som saindo abafado.

Mensagens no grupo dos professores pipocavam em protestos Greve Já!. Fátima lia e se alimentava daquelas convicções. A presença da Beatriz, uma aluna tão boa, dedicada, simples, humilde, olhar e sorriso sempre meigos e acolhedores, não faltava, que fazia lição, prestava atenção, participava cheia de respeito, aquela presença de Beatriz foi diminuindo o incômodo de Fátima de estar lá. Talvez porque as lágrimas de Beatriz não eram mais escondidas. O nariz não se aguentava e falavam por si. A professora deixou de lado o celular. Deu um panorama na sala de aula, naquela diante dela. Oito alunos, em silêncio, esperando o que fosse para esperar.

- Quem a mãe mandou para escola para comer?

Todos levantaram a mão, como se fosse parte da aula e obrigação a verdade.

"Para comer", sussurrou Fátima.

Aos poucos, sentimentos se sobrepõem a sentimentos, e o sentido de focar na sua revolta obscurece sua indignação, aplacando sua raiva e protesto. A fome tem pressa. O mal da humanidade é não sentir a fome emocional do outro, porque as pessoas sentem emoções e fome. A Beatriz na frente dela, o Guilherme lá no canto esquerdo. Na frente do Guilherme, o Matheus, e na frente dele a Paula; do outro lado da sala, Antônio, Débora, de cabeça baixa. No meio o Fábio e a Cinthia. Ela conhecia todos por nome, e mais ainda, conhecia parte da vida familiar de seus alunos, e daqueles em especial. O padrão entre eles seria mesmo a fome, que existe presente e triste, muito, muito, muito triste.

- Bem, levantou a professora, livro na mão, pedindo a todos para abrirem o caderno para atividades. Copiem com caneta azul, e iniciou um conteúdo aleatório de geografia.

Por um movimento mágico, Beatriz ergueu a cabeça, limpou o nariz escorrendo com ambos os braços. Ficou feliz internamente. O vermelhidão dos olhos se desfez em instantes. Uma luz de felicidade acendeu na sua mente. Ela abriu o caderno, separou a caneta e com tanto brilho no olhar começou a copiar da lousa cada palavra, com das maiores verdades existenciais. Beatriz era inocente, como todas as crianças ali, mas o que ela queria dizer em outras palavras seria a gratidão.

- Ah - disse a professora Fátima, conforme copiava, se a mãe de vocês falar para vocês virem para a escola para comer, falem para ela que ela está totalmente errada! Escola é para aprender, e isso que vamos fazer todos os dias. Vocês vêm para a escola para aprender!

Ninguém viu, mas Fátima, agora de costas, permaneceu assim por muitos e muitos minutos, copiando na louca - um hábito que ela não tinha -, simplesmente porque chorava a cada palavra na lousa, redescobrindo o que seria o amor nos pequenos gestos. Os alunos lá para comer, e ela sabia disso. A pandemia, por sua vez, exigia alguns sacrifícios. Fátima percebeu através da inocência de Beatriz e de todos aqueles oito alunos presentes, qual seria seu efetivo papel na pandemia. Por fim, Fátima saiu do grupo dos professores, que somente falavam em Greve Já! para mentalmente segurar firme a mão daqueles oito alunos e dizer "estamos juntos daqui para frente!". Fátima segue ainda aquilo que acha ser seu destino: acolher com conhecimento o coração de Beatriz e todos os demais.

flavio notaroberto


sábado, 2 de janeiro de 2021

poema

Se um dia uma lágrima solta
De verdade, na lágrima contida,
Escorrer dos olhos meus aos seus,
Direi que sentimentos sempre são diversos,
Tão diversos quanto a certeza do que amo.
Lágrimas silenciosas represam emoções,
Assim como a gratidão presente busca sua expressão
No perdão, no pedido de perdão, que me acompanha.
Eu peço a você para ficar, fique, e vamos.
Por que não? - pergunta em emoções verdadeiras!
Desejo a felicidade compartilhada.
Anseio uma alma acolhedora - a sua -
Que nos acolha um ao outro na dor e no amor,
Porque a plenitude está nos olhos que se amam
- Internos de nossas histórias.
Sou fonte do que sinto, e cuido sempre.
Chorarei por antecipação meu silêncio,
Mas faço rir!
Nem que do riso seja a saudade de meu bem agora precioso: você,
Que me transforma a vontade simples em eterno momento.
Sinto você maior em mim hoje - e quero saber daquele eterno alvocerer.

- flavio notaroberto -


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

poema

Foi no seu olhar e no sorriso.
Havia seu andar calmo e lento.
Seus dentes lindos, precisos,
Brancos, e pele morena e bela.
Seus soltos cabelos ao vento,
Beijando a brisa do mar dela.
De repente me vi apaixonado,
Vi-me refém do que acredito.
Respirei sozinho e profundo
Meu amar solitário, em que me via.
Disse a mim mesmo que valeria;
Vale muito a pena sofrer e feliz,
Espalhandi versos cheios de alegria.