sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sofremos quando mal-entendidos

Reparem nestas palavras:

"O que nos entristece verdadeiramente e que nos torna amarga a existência refere-se sempre à relação com nossos semelhantes. Pessoalmente estou convencido de que sofremos quando somos mal-entendidos pelos outros e sentimos com isto aviltados, maltratados, desvalorizados."

Não são palavras minhas. São palavras de um artigo chamado "A Dor do Homem". A dor emocional. Ele não considera a dor em função de mal-funcionamento do cérebro, causando os transtornos congênitos. Não dor física também. Dor emocional que se cria em uma relacionamento. Tirando este parênteses, parece-me perfeito a definição.

Por princípio, a dor, a mágoa, os rancor, o ódio, a solidão, a angústia e sentimentos semelhantes são algo de cunho bem pessoal, porque cada qual sabe a sua profundidade. A psicanálise, porém, pode dar uma outra abordagem, ainda mais no que diz respeito ao sofrimento emocional. O outro, o nosso semelhante, de quem gostamos, porém quem não mais queremos como corpo, tende a nos querer ver sofrer, nos fazer sofrer, nos levar ao sofrimento. Nada psicologicamente impressionante. Assusta um pouco, é verdade. Mesmo assim, o susto é o inacreditável juntamente com o inesperado.

Ser comunicativo traz ao homem enorme vantagem para buscar alívios emocionais. Ser cominucativo e culto surpreende e provoca um pouco o inesperado e o espanto. Ser cominucativo, culto e atencioso leva ao encanto. E ser encantador por um período leva ao amor profundo. Quando surge todos os demais conflitos porque o amor pode ser correspondido, o amor pode ser ao mesmo tempo correspondido e dificilmente realizável, o amor pode ser uma belíssima ilusão. O sofrimento vem neste momento. O fazer sofrer aparece a partir de então.

Entristece-me verdadeiramente a querer gerar a dor gratuita. Creio que querer fazer o outro sofrer, algo do inconsciente da pessoa, causa um alívio momentâneo, mas sem fim. Ou um alívio duradouro se a pessoa realmente for muito fraca e amar o sadismo. Como eu tenho baita consciência disto tudo, meu cuidado com o sentimento das pessoas chega a ser como dar brilho a uma taça de cristal para o champanhe. Não descuido da fragilidade.

Retomando o texto acima, "sofremos quando somos mal-entendidos". Eu acrescento: propositadamente mal-entendidos! Ainda que a pessoa não tenha plena consciência. O sentimento de amor pelo outro, que não mais temos, turva as palavras porque ele espera veneno em tudo. Nunca néctar. Botar dois para conversar quando um quer ver o outro sofrer, vira uma guerra de perdedores e cada vez mais desafetos. É triste. Talvez necessário. Mas é triste. De minha parte, escolho escrever para fazer o processo inverso: compreender e fazer refletir. Sou compreensível e reflexivo. Da vida, nada levamos. Poder deixar bons momentos para quem nos ama de verdade é uma dádiva. Dadivemos!

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