Ela na Psicóloga
- Não gosto dele. Estou me equilibrando entre minha carência e minha auto-estima por ele. Por isto fico com ele. Ele me trata bem. Ele diz sempre que me ama. Quando sinto forte angústia, estar ao lado dele me traz forças. Depois me desespero internamente. Não queria para mim. Não assim. E fico vendo a vida passar. Meu passado sem volta. Minhas decisões que pareciam tão certas. Minhas coerências pessoais tão precisas. Minha confiança em meus sentimentos. Eu me assusto porque fui ingênua. Hoje sou consciente. Esta consciência machuca demais. Admito para mim todos os dias que águas passadas passaram sem volta. Vida nova. Tudo novo. Eu me empolgo. Creio em mim. Me liberto. Euforia. Porém, quando na minha solidão, vem de longe, sem querer, aparecem meus fantasmas. Os meus fantasmas, que tento, que quero, que preciso, que faço de tudo para esquecer. A angústia bate. A carência me envolve. Penso nele, que sei que me ama, para me resgatar para a vida momentânea. Ele me conforta. Diz sempre que me ama. Vou à casa dele. Jantamos. Vemos um filme. Fazemos sexo. E dormimos. Mesmo ao lado dele, a solidão persiste quando em silêncio, e minhas lembranças de minhas decisões passadas aparecem. A diferença é que eu aperto a sua mão. Ele me abraça forte. Sinto-me protegida. E durmo em paz, que dura poucas horas. Depois me pergunto o que faço ao lado de quem eu não amo. Eu me condeno por isto. Quero ir embora. Com um sorriso e promessas de saudades, arrumo desculpas tão sinceras que não deixo outra impressão senão que eu o amo sem o amar de verdade. Beijo a boca dele na despedida. Ele se importa comigo. Diz que me ama. Entro no meu carro. Vou embora e minha vontade é dirigir até acabarem os pneus. Largar tudo. E tento. Mas o tudo não me larga. Vou para casa no domingo pela manhã. Passo na padaria para um pão na chapa e um pingado. Me apaixono por alguns homens por lá com suas respectivas esposas. Sinto pena de mim mesma. Tão carente. A maioria, na verdade, já casados. Não perco a pose. Sei que minha carência vê amor em tudo. Enquanto não me convencer de que não posso viver arrependida de escolher de modo errado o que eu queria para a minha vida, sempre serei carente. O que fazer? Desabafar. Gosto de viver. Meu único problema está em mim. Na decisão que tomei. Por bonita que eu seja, nunca me apaixonei por nada que não tocasse minha alma e me cegasse completamente da minha beleza externa. O toque belo com palavras belas é muito mais belo do que a beleza de um rosto e de um corpo. Sou mulher. E mulher quer abrigo porque ela entende que o escuro tem mais proteção do que a ilusão da luz. O que fazer? Me trancar daqui a pouco no meu quarto. Apagar as luzes. Ligar a Netflix e assistir a seriados. Por mais que eu queira rir, colocarei aquele que me arranca lágrimas. O riso eu deixo para aquele que me ama e eu não o amo. As lágrimas guardo para mim e minha solidão. Há decisões que, ao invés de nos libertar, nos aprisionam em nós mesmos. Eu estou livre para o mundo, mas presa em mim mesma. Prefiro sua voz na escuridão à beleza na mais clara luz. O que fazer? O que eu devo fazer?
- Nada. Se conformar. Vida nova. Se tiver paciência, encontrará a voz que precisa na escuridão. Mas pare de olhar. Respire. E sofra. Sempre há alguém pior do que nossas dores.
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