TODOS SOMOS SOBRAS
Depois de um tempo de vida, todos somos sobras. Sobras do que fomos e somos, do que fizemos, do que fizeram conosco. Somos sobras, mas restos sem valor. Somos sobras porque somos inúmeras partes, inúmeros fragmentos e porções. Nossa consistência de um todo unificado somente tem razão à luz de nossos fragmentos.
Aliás, quem considera o outro 'resto' traz para si a sua própria inutilidade e insignificância num relacionamento. Tem o coração cheio de arrogância e prepotência.
Podemos ser a sobra daquilo que nos restou, mas jamais o resto para o outro.
Digamos que a sobra está na mistura de tudo o que somos, ao passo que o resto é a 'sobra' de uma única coisa. Sobramos na experiência acumulada. Já resto de nós é quando não vivemos nossas próprias experiências, porque ficamos presos, fechados, oprimidos, reprimidos.
Bom e belo quando todas as nossas sobras vivem em harmonia. A sobra dos relacionamentos, a sobra da adolescência, a sobra dos empregos, a sobra de tantas amizades, a sobra das dificuldades e dos contentamentos, porque assim temos ainda algo a dar, a compartilhar, a ceder, a ganhar e ter.
Diferentemente do resto. Ser o resto derruma nossa estima e amor-próprios. Ninguém quer nosso resto ou o resto do que somos. Somos sobras de tudo o que fizemos e fizeram de nós.
Restar quer dizer "faltar pouco"; sobrar quer dizer "tem mais do que o completo". Restar é nunca estar completo; sobrar é compartilhar com o mundo, cheio de completude.
Insisto que depois de uma certa idade todos seremos sobras. Sem uma única exceção. Creio que, entrando nos 30 anos, acumulamos muitas experiências e sensações.
Aceitar a sobra do que somos e a sobra do que as pessoas são é um ato lindo de respeito e amor verdadeiros. Quem aceita resto não ama, não respeita, não vê no outro uma pessoa completa. E provavelmente o pouco que lhe resta nunca chegará a ser completo. Amarga e frustrada.
Aceitar as histórias, os anos, as experiências e as memórias do outro é acolher e ser acolhido. Caso olhemos para o outro como resto, nada ele poderá lhe dar senão o pouco que resta. Caso veja um todo cheio de sobra do que é, virá cheio de sentimentos que somente o tempo fez lapidar e deixar mais acolhedor porque os caminhos existem e já foram percorridos, boa parte deles.
Fale assim à pessoa que chega, ainda que mentalmente:
- Me dê a sua mão. Podemos ir juntos. Não quero ser o resto do que você ainda não teve. Sobra muito de mim para o mundo porque sou um pequeno riacho límpido quase sempre transbordando: não desperdiço; eu transbordo. Só os meus limites que se acumulam. Nossas sobras é porque somos inteiros demais. Me dê a sua mão e vamos!
Nenhum comentário:
Postar um comentário