A Gente de Desacostuma
A gente se desacostuma. Aos poucos a gente se desacostuma de ser e ter. Um pouquinho por dia e todos os dias, de tanto se desacostumar, a gente pode refletir quanto tempo perdido. Se o tempo foi perdido é porque pouca coisa ou nada fez a gente ser mais. Periga quando faz a gente ser menos. A gente se desacostuma de ter vida social tipicamente de rua. A gente se desacostuma da vida virtual. A gente se desacostuma a gostar de ler, aprender, estudar. A gente se desacostuma ao trabalho e a um relacionamento, porque passam a ser necessários e apenas isso. O primeiro se perde o prazer e o segundo o amor. A gente se desacostuma de assistir a filmes, a seriados, a torcer pelo time do coração. A gente se desacostuma a celebrar aniversário e a sair com amigos para molecagem. A gente se desacostuma a jogar bola, a fazer compras no mercado, a cuidar do cabelo, das unhas, da maquiagem. A gente inclusive se desacostuma do Facebook, Whatsapp, Instagram. A gente se desacostuma a comer bem, a mexer o corpo, a dormir bem, a acordar com sono de quem somente quer dormir mais. A gente se desacostuma a dizer eu amo você. A gente se desacostuma a ouvir que amam a gente. A gente se desacostuma a sentir-se engajado, coletivo, desejado para se sentir deslocado, solitário, indesejado. A gente se desacostuma a viver um dia após o outro. A gente se desacostuma às ambições. A gente se desacostuma ao que poderíamos ser e não somos. A gente se desacostuma a ser quem as pessoas querem que a gente seja. Se o costume faz da gente algo simples, o descostume faz da gente algo complexo, porque a gente deixa de ter e ser o que a gente tinha e era. O descostume é bom. Quando a gente se desacostuma, a vida começa. A gente se liberdade e manda muita gente e situações caçar coquinho. O descostume é mais feliz do que o costume. A gente expande a vida. Essa que nos deram.
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