Fiz 44 anos esta semana. Já vou dizendo que viver cansa. Não sou adepto ao romantismo da juventude longeva. Porque viver cansa. Alguns antecipam o cansaço e saltam para o infinito, por meio da morte, voltando a ser tempo e nada juntamente. A morte restitue o eterno em nós. É trágica e ao mesmo tempo especulativa esta coragem. É porque viver cansa. Cansa a ida e a volta. Por isso preferimos mais permanecer, conforme envelhecemos no passar dos anos. Permanecer onde sentimos o bem, sentimo-nos bem, sentimo-nos fazendo o bem. É que viver cansa os que não se sentem bem neste mundo cheio de possibilidades, que nos ensina que temos apenas algumas reais possibilidades. Viver cansa. Viver é para os fortes e para os fracos. Viver é para todos. Inclusive para quem discorda de nós em tudo, ou concorda com nada. Amar a vida intensamente sem se cansar de viver é algo misteriosamente próprio da inocência, que olha encantada para o mundo a cada momento. Se colocarmos vida em tudo o que se mexe: o sol, as núvens, as estrelas, as folhas, o mar, a areia leve e fina, nossa imaginação, os cabelos da mamãe e a barriga do papai, haverá algo que podemos chamar de vida. Ao menos para as lindas mentes das crianças encantadas com a descoberta eterna da novidade de viver o movimento. Ser criança é herdar a alegria. Envelhecer nos traz melancolia. Assim como é melancólico saber que viver cansa. Mas melancolia é amiga do espírito solitário, que adora estar só na sua melancolia. Se a inocência é a eterna descoberta do olhar no mundo, a melancolia é trazer o mundo para dentro de si, da alma, e com ela formar nosso espírito. O processo é inverso ao da inocência. De tanto viver para dentro, nos cansamos muito facilmente do mundo fora de nós. Viver, neste sentido, cansa. O maior antídoto contra o cansaço de viver é ir, com melancolia e tudo. É não parar. É se inspirar nos jovens que vão à vida e ir também. Me inspiro em meus filhos, sobrinhos, alunos. Eles herdarão o nosso algo, o nosso legado, o que estamos agora fazendo. A certeza deles deve ser acolhida. Por isso eu creio em motivar nossos jovens a serem. Ser e estar ao mesmo tempo. É bobo quem desmotiva a juventude. É bobo e muito perverso e cruel. Eles nos ajudarão a sentir o movimento, que nos dará vida para longe da melancolia. Viver cansa. Mas viver é tudo o que temos. O resto de viver, todos adultos sabem, e por este motivo somos tão melancólicos.
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