A gente propõe e Deus dispõe. Minha irmã sempre lembra este slogan quando o que se gostaria que fosse, não aconteceu. Mas somente propõe quem deseja, claro; quem sonha, imagina, quer, busca, anseia, acredita, tenta, arrisca, caminha, o que implica movimento. Manter o mesmo ritmo limitado é o natural do ser humano tribal e primitivo. Somos, de certa forma, programados para atuar no limite de nossos movimentos. Não temos asas para voar; não temos barbatanas para nadar; não temos a velocidade de um guepardo. Verdade que não somos lesmas, nem bicho preguiça, nem aqueles insetos cuja existência dura algumas horas neste mundo. Se nosso tempo de vida não é o que nossa mortalidade nos lega, existem anos e anos abertos a possibilidades, ainda mais para alguns. Mesmo assim, a vida dentro de um perímetro seguro, como ir até o riacho, até a plantação, até as crias de animais, dentro de um pequeno círculo, já daria nossa existência peculiar por anos e anos, uma vida inteira, sem reflexões, sem desespero, sem introspecção, sem tédio. Houve um momento da História de nossa espécie em que o mundo exterior foi refletido no mundo interior, e este mundo interior construiu uma miríade de representações, e em cada uma delas a mente botou seu domínio racional e com o passar de milhares de anos foi desconstruindo aqueles todos em partes de sentido cada vez menores. A árvore inteira ganhou explicação da fotossíntese à raiz; a montanha deixou de ser morada de deuses para fornecer minérios e, depois, ferro; o corpo humano passou de construção de Deus, do barro, para existência sensitiva e perceptiva dos filósofos, até decompor naquilo que de fato somos: sistema nervoso, e neurônios estimulados e inibidos o tempo todo. Bem, estamos por aqui. Queremos estímulos quando propomos algo, mas Deus nos inibe, quando ele dispõe. Falo por meio de fé como analogia de que nem tudo o que queremos, nós teremos. Lei incompreensível às crianças, mas também a jovens e adultos mimados e alienados. Ao mesmo tempo, nossa mente abriga quase tudo na imaginação, e vem ela para ampliar mais ainda o mistério de estar em um lugar e em todos ao mesmo tempo. Se propomos algo, imaginamos. Morada de sonhos e esperanças, a gratidão poderia ser comparada a um deus na imaginação. Aquilo que não conseguimos ter ou alcançar, deveríamos a um ato de gratidão, porque se queremos, está já aí o que somos: sonhos, vontades e representações, e quem gosta de filosofia já entendeu a inspiração de Mundo como Vontade e Representação. Somos um mundo, cheio de vontade e representações.
Nenhum comentário:
Postar um comentário