domingo, 11 de outubro de 2020

Encontrar Caminhos

Conforme a vida vai se tornando mais perdida, parece mais necessário encontrar caminhos, num ciclo infinito, fadado ao fracasso do vazio existencial. Um dependente químico, paradoxalmente, não tem sua vida perdida. Ele sabe muito bem o que desejar, e vive suas consequências. Um religioso, um ninfomaníaco, um pesquisar científico, um filósofo, um escritor, um captalista, um corrupto e um guru. O leque é quase infinito de opções de encontro de caminhos, e caberá a nós julgar as pessoas e sermos julgados pelo que fazemos nos caminhos que trilhamos. Aliás, quando sabemos, os julgamentos incomodam como ruídos, mas não afetam a melodia do canto. Seguir caminhos é criar tragetórias, e não saber para onde ir nos leva a crises existenciais. A regra da vida é sabermos o que fazer. Um princípio que descobri na prática são as mensagens subliminares e inconscientes que pessoas próximas de nós vão nos enviando constantemente. Se eu citasse o caso de minha vida pessoal, seria bem didático, mas não posso por razões ainda emocionais. Pessoas próximas de nós, bem próximas, quando perdidas, vão nos dando pequenas mensagens, decerto imperceptíveis, acessíveis apenas depois de muita experiência. É um privilégio conhecer pessoas que nos leem as intenções, quando estamos fracos e apenas precisamos de acolhimento e orientação. Sim, eu leio. Sou escritor, que é condição básica para abrir com cuidado a casca da noz humana. Mas muitas pessoas intuitivamente são capazes de sentir e ler, e dar a interpretação adequada a pessoas próximas, que se acham perdidas. Uma pessoa perdida somente pode ser ajudada de duas formas: ou ela encontra seu próprio caminho através de muito sofrimento, tentativas e erros, numa luta interna bastante tortuosa e longa; ou a ajuda vem de fora através de pais, amigos, artistas, professores, psicólogos, que não a livra de passar pelo sofrimento; afinal, não saber o que somos e o que queremos é sofrer. Em ambos encontros com a fonte de seu encontro com sua natureza perdida, é a pessoa que caminha seus passos em seus caminhos. Quando seus passos não levam a si mesma, a pessoa anda e anda, vagueia e vagueia, perambula indefinidamente, e se perde mais e mais no infinito universo de percepções psicológicas de suas emoções, memórias, impulsos, desejos e ansiedades. Quem está de fora e nada pode fazer simplesmente lê as mensagens de socorro; mas, como disse, nada se pode fazer se você não tem acesso à pessoa. Se fosse para resumir o vontade de encontrar-se, poderia propor algo como saber o que a pessoa afinal representa para ela mesma. Ontem um aluno meu me compartilhou versos que ele vem escrevendo. É um pequeno universo existencial rumo a um encontro consigo mesmo, e eu o apoio e disse a ele que quero acompanhar sua tragetória artística, agora no início de seus quinze anos. Eu sou crítico de nossos adultos, porque muitos se veem perdidos e tentam compensar-se na geração anterior a deles, o que parece confundir a necessidade do confronto de gerações, que ajuda a estruturar a razão de viver dos jovens. Mas isso é uma outra especulação. Estamos sendo bombardeados de buscas de caminhos. A arte para mim pode ser o início mais seguro rumo ao encontro com nosso próprio eu. Aliás, a arte pode ser no final de tudo a única e mais bela razão de haver gente.

- flavio notaroberto -

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