Lendo agora algumas páginas de um escritor americano que adoro, Will Durant, três palavras me chamaram à atenção, das quais duas eu já conhecia e me havia esquecido o sentido, e a outra li pela primeira vez hoje, e o sentido foi intuído. As palavras são "turgescência" (a turgescência da vida); "desmedram" (os modos naturais e espontêneos desmedram); "transientemente" (se o livre-arbítrio é ilusão da máquina transientemente da vida). Turgescer é crescer, inflamar; desmedrar é deixar de crescer, diminuir. E transientemente é brevemente, algo que logo deixará de existir. É mera coincidência os sentidos se aproximarem, ou seja, crescer, diminuir e deixar de existir. O ponto que trago à reflexão é o que as palavras significam. Fazer do desconhecido deixar de ser desconhecido exige um movimento "efeito em cascada" em que um simples passo vai rumo ao outro e assim numa jornada até construir o entendimento que se espera. Nesse sentido é que não existe "genialidade" como se fosse uma entidade abstrata e oca, que participa do gênio sem prática. Já se conhece o estudo das "dez mil horas", ou três anos e meio de intenso treino, oito horas por dia, para que se saia das primeiras notas de um piano ao domínio virtuose do piano. Assim vale a todas artes e habilidades humanas. Veja que algumas genialidades são precoces justamente porque a precocidade tem o tempo da prática, sem outra preocupação humana. Mas se hoje, exatamente agora, não importa a idade, qualquer ser humano que tiver tempo de praticar uma habilidade por oito horas, ao longo de três anos, simplesmente sai do zero absoluto para o que chamamos de genialidade. Evidentemente que sabemos de nossas dificuldades, porque o tempo que temos, em sua grande maioria, não nos pertence. Nosso tempo pertence ao trabalho, à família, aos filhos, às obrigações sociais etc. Não existe um interruptor de 8 horas diárias e ininterruptas que podemos ligar para focarmos na construção de um talento qualquer. Mas olha que irônico. Em 1995 eu fazia USP. Eu tentava ler os textos acadêmicos e me dava angústia por não assimilar nada. Então, intuitivamente, resolvi mudar o jeito. Lia linha por linha, e lia mais de dez horas todos os dias, ao longo de quase dois anos, até 1997. Depois comecei a trabalhar e não tive mais tempo. Mas foi justamente quando comecei também a escrever meus primeiros contos e aspirar à vida de escritor. Hoje as palavras brincam em minha mente como ondas do mar que vêm e vão, esperando para que eu as escreva num poema, romance, reflexão. Eu perco mais tempo em controlar minhas emoções no ato do escrever do que escrever em si. O que é controlar as emoções? Pensar no que se sente e se ele traduz o que se sente, sem ingenuidade. Deseja mudança? É mais fácil, muito mais fácil do que se imagina! Simplesmente praticar. Bem, com isso dá para abrir um belo sorriso e tratar a dificuldade com menos ódio e rancor. Existem dificuldades, claro, mas aí são impedimentos realmente fisícos ou neurológicos, e quando se tem uma das duas, o diagnóstico é rápido. Mesmo assim, as Paralimpíadas e tantos talentos com impedimentos neurológicos provam que a prática cria no cérebro a estrutura para a a habilidade desejada. Para as demais dificuldades na aprendizagem, é apenas controlar o emocional (90% de nós estão em nosso emocional) e praticar, praticar, praticar regularmente. Sim! Somos governados por duas estruturas enfiadas dentro do cérebro: as amigdalas e a índula, que nos dão todas as respostas emocionais a tudo o que sentimos. Aqui é a sede do autocontrole, que vem de nossa mente consciente - mas aí já é outro papo.
- flavio notaroberto -
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