quinta-feira, 30 de julho de 2015

Pimenta e Queijo e Vinho Tinto

Pimenta e Queijo e Vinho Tinto

Parece que a dor do abandono (quem nunca?) é a essência da separação para a parte mais fraca e mais frágil de uma relação - aprendi na relação com a minha filha que eu sou a parte mais forte e, por este motivo, tenho que ceder mais facilmente. O mais forte tem que ceder.

Quem mais fala da dor é porque mais abandonado se sente, mais dor carrega, e sofre, e agoniza, e se desespera solitariamente. Adoro o termo abando. Meu coração se compadece e sinto vontade de adotar todos os abandonados. Tenho coração de mãe.

Sou ainda lembrado persistentemente, porque escrevo, de que retomo alguns aspectos de minha separação em meus textos quando escrevo. Sou lembrado que há recalques não ainda solucionados justamente porque escrevo. Aliás, recalque é um ato falho do inconsciente. E recalques valem apenas para os adultos. Raramente crianças e adolescentes tem recalques: eles tem medo, temor, susto. Por isto nós adultos somos o lado maia forte das relações com eles.

Adoro a dúvida. Mas não suporto a indecisão. Quem gosta de indecisão? Eu gosto da dúvida porque alimenta a reflexão. Amo refletir. Saboreio a reflexão como daquelas balas azedinhas que vem do Japão e que doem nos lados das boca, em cima da mandíbula. Estão sentido aquela dorzinha agora? Caso afirmativo, são os neurônios-espelho.

Discordo dos recalques porque escrevo. Mas alimento as dúvidas porque me separei e aí vem as reflexões. A separação - feito tudo que é novo na idade madura - foi que me deu sentimentos novo, mas previsíveis e calculados, que eu não tive de forma tão intensa até então. Tive e tenho de escrever a respeito. Recalque? Há artista recalcado? Quem não teme a arte é porque sabe que a vida passa. O passado confirma esta verdade. O resto é vaidade e alienação.

Não virei escritor após me separar. Já o era, antes mesmo de namorar, e o escritor adormeceu por uma década. Quando escrevia eu já fazia de outras experiências minha visão, sensação, abstração, assimilação de palavras de reflexão. Oras, uso das minhas experiências para entender algo que vale para muitos. Sempre há um coração querendo entender-se.

Digo, para fechar agora, que cada qual com seu alimento emocional para fazer a sua sopa ou o seu cozido. Mais tempero. Menos tempero. Eu adoro pimenta e tenho uma tese relativa à pimenta que demonstra maturidade com a sua vida corporal: quem ama pimenta tem o corpo livre  de constrangimentos e sem recalques. Enfim, nossa modernidade ajuda a escrever porque ajuda a ter mais leitores. Aos meus leitores, comam pimenta com queijo e vinho tinto. Vão amar a experiência...

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O Casal Sem-Vergonha

Um casal realmente sem vergonha? Nada a ver com sexo! Isto é egoísmo, que cansa, me destroi, que faz no futuro as pessoas apenas ficarem e pegarem o resto do ser humano.

Para ser um casal sem vergonha, cmece pensando em dar entrada em um apartamento na planta para os dois pagarem juntos. Como o casal é sem-vergonha, pode ser de apenas um dormitório no início. Deixe para o de dois dormitórios quando tiverem filhos.

Certamente o casal sem-vergonha já conseguiu um carro para ambos saírem sem depender de ônibus e metrô, e ambos estão na faculdade, terminando, ou já formados. Casal sem-vergonha toma as decisões rapidamente.

A porta aberta do banheiro para o casal sem-vergonha é o ensaio para viverem juntos felizes: casados ou não. Melhor casados. Bem melhor casados. Claro que deve levar em consideração a separação um dia. O casal sem-vergonha é maduro, tanto na união quanto na separação.
Sei que é tão bonito ficar juntos para sempre. Mas há coisas que são para sempre como a lua e o sol, as pirâmides do Egito, as feijoadas aos sábados e às quartas-feiras e a fragilidade das pessoas que buscam e não encontram. Mas num casal as coisas não são para sempre.

O casal sem-vergonha radical é prodígio também. Casa logo em meses. Tem filhos precocemente. Moram juntos. São inocentemente abusados e fazem das dificuldades histórias verdadeiras, cheias de fé com pitadas de medos e receios. O mínimo da o casal é rotina e o limite sua realidade. Os dias, por sua vez, são mais verídicos e honestos e sinceros. Casal sem-vergonha vive de viver todos os dias junto.

A inteligência é a aliada mais preciosa do casal sem-vergonha. Gasta pouca energia na superfície da vida e do pensamento. Fala muito e não fofoca quase nada. Comenta a vida do mundo alheio com certa profundidade. Assim, o que é fofoca vira análise e justifica os minutos.

Mas o casal sem vergonha prefere o filme, o teatro, os livros e muita coisa ligada à cultura. Passatempo precioso. Casal que é sem-vergonha respeita a si mesmo porque seu pensamento comum é viver bem e feliz um com o outro.

O tempo, que deveria deixar o casal mais sem-vergonha ainda, é o maior inimigo do casal sem-vergonha. O tempo amadurece a inteligência. Ou um deles amadurece. O tempo existe e com ele a realidade de que as coisas mudam, inevitavelmente. O casal sem-vergonha, que muda com o tempo, deixa sem perceber a sem-vergonhice. O tempo deixa ambos mais sérios. A inteligência lapida o bruto. A sem-vergonhice que os unia vai substituindo aos poucos aquilo que os separa: a seriedade, o maior respeito da distância, a formalidade da taça de vinho em relação ao copo de requeijão, do jantar fino sem propósito em relação à lasagna congelada, da conta da balada livre em relação ao almoço por quilo contato no shopping.

O casalbera sem-vergonha porque compartilhava tudo. Mas quando cresce a vida financeira, vira uk casal cheio de pudor. O pudor mata a intimidade e o gozo. Mata o abuso. Sem a vergonha necessária, a vergonha moral ganha vida. A vergonha moral limita. A vergonha moral afasta. A vergonha moral esfria. A vergonha moral separa. O casal envergonhado não se aguenta e se apartam. São auto-suficientes em suas vergonhas. Independentes. Vão então, separados, atrás de outras possíveis sem vergonhices. Mas já é tarde. Seu tempo passou. As gerações vem. Porque o tempo é o senhor de tudo. Sem ou com vergonha. O bom mesmo é manter sempre a sem vergonhice, na riqueza ou na pobreza.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Amores que passam

Olha esta foto acima. Honestamente. É triste, mas é por aí mesmo. Ainda mais quando a pessoa acha que ela era feliz sozinha, e apesar de você, não era a sua infelicidade, sua entrega, sua dedicação e seu sacrifício que a/o deixava feliz e livre. Paciência. A alienação da felicidade tira das pessoas o senso crítico do sacrifício pessoal de alguém. O belo da vida de quem ama e sabe o sacrifício, porém, são os amores que surgem sempre enquanto outros amores passam e pouca saudade deixam. Seja um apenas amor que chega, ou outros tantos que chegam. Há pessoas que nasceram para serem amadas. Sinto-me amado por uma razão bem simples: eu sei amar; sei cuidar; sei entender; sei acolher; sei que da vida nada levamos senão as boas memórias. Quem cuida sempre será lembrado. Quem cuida sempre será amado. Quem ama sempre irá querer ser cuidado. Eu amo e eu sou amado. Que nosso amores passados sejam passados! Que nossos amores presentes sejam a nossa verdade de nosso futuro próximo! E que nunca esvaziemos o outro achando que somos completos sozinhos: o destino da ingratidão será o arrependimento, quando não a solidão de ter uma companhia que não nos preenche em nossos momentos...

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Sabe aquele "Ok" irritante da resposta?

Pe. Fabio de Melo diz que aquilo que mais cansa a gente é ter de explicar sempre. Por outro lado, somente tem de se explicar quem, no mínimo, se expõe conscientemente, né?

Quero sugerir o famoso "Ok" das  irritantes respostas, como se por trás dele resumisse um singelo e afetuoso "obrigado", "combinado", "fico agradecido" etc., e não o sadismo da torturar psicológica.

Para isto vou usar uns trechos de um belíssimo artigo que li chamado "O Silêncio como Tortura", e acho que ele vai à alma dos "Oks" como despreso e, por isto, desnecessário até.

Olha este trecho:

"O silêncio é uma das armas mais poderosas que se pode empregar contra o outro; expressão de falso vitimismo, (...) porque confina seu adversário em estado de constante incerteza emotiva."

A ponte do diálogo foi derrubada. A relação está dentro de um conflito. O silêncio passar a ser a tortura de uma das partes. Mas nem sempre é assim. Por vezes, perdemos o assunto e não temos mais o que falar, o que é natural. Se jogarmos limpo, nossa sinceridade do silêncio acaba deixando nossa fraqueza acolhedora. Eu mesmo, inúmeras vezes, já disse: "eu não sei o que falar", ou "eu estou sem assunto". Usei meu silêncio a favor da minha impotência comunicativa. Ganhei méritos.

É covardia e espírito pequeno o silêncio como tortura que, através do silêncio, cria incertezas emotivas. Aliás, ainda mais quando o outro percebe a infantilidade do ridículo.

Outro trecho:

"Nas dinâmicas de casal a resposta do masculino muitas vezes é inadequada, pueril, tola. São poucos os homens que evoluem integrando seu componente feminino (...). Em sentido psicológico deve tornar-se sempre feminino (...): muitos homens também são vítimas do silêncio feminino sádico e culpabilizante."

O silêncio da mulher é interpretado pelo homem como infantilidade ou dor arquivada e reprimida. O silêncio do homem é interpretado como tortura e desamor pela mulher que sofre angústias.

A mulher que usa o famoso "ok" quer mostrar seu comportamento masculino de tortura para chegar à alma do homem? Tiro errado! Quando muito, apenas masculinizará a relação e construirá mais argumentos de distanciamento. Ok representa ok, no universo masculino.

Homem algum entra em banheiro público reparando os detalhes. Seu olhar é seu propósito direto. Não existe olhar para lado algum. Uma linha reta machista e viril. O simples "ok" feminino é um simples "estou criando barbas, aumentando minha testosterona, aversão a banhos diários e cremes". Não funciona como tortura psicológica o "ok" feminino. Irrita pela infantilidade apenas.

Último trecho:

"...é impossível não se comunicar. Consequentemente, também, o siléncio é uma forma de comunicação, uma forma diferente como as mensagens duplas, as comunicações oblíquas, por negação etc. A sua característica é, porém, de serem indecifráveis e deixarem o recebedor das mensagens em estado de incerteza."

O cuidado com o sentimento alheio pertence a uma categoria bem especial de seres humanos. Minha irmã, separada, me disse que a maior tortura para a mulher separada é ver o ex-marido bem. O contrário também é verdadeiro. Por isto o cuidado com o sentimento das pessoas é algo raro. Querer ver o outro sofrer alivia as dores da ausência e da separação. Quantos "ok" não resumiram um "sofra!"? Daí entra o cuidado. Em minha memória recente, falo "ok" para amigos com certa frequência. Amigos, homens, claro. Jamais o silêncio para uma mulher, porque eu não sou adepto à tortura. Melhor um posicionamento claro, ainda que machuque do que deixar a dor da dúvida, que agoniza. A dúvida para o homem acaba virando sexo e bebida; a dúvida para as mulheres potencializa doenças, porque o primeiro extravaza e a segunda somatiza assustadoramente.

O silêncio como tortura é sadismo. Um sádico é um doente. Precisa de orientação para entender que este mal volta para si em algum momento. O "ok" como tortura é feio, frio, falta de humanidade. Ninguém muda a dor interna rapidamente espalhando "ok" para sofrerem. Nem por isto tem de provocar dores. É pouco. Bem pouco para si. Que a comunicação seja sempre a mais plena possível.

Apresentação

Flavio e seus Contos Suaves

Um amigo me convidou para escrever o texto de apresentação de sua obra, um livro de contos, chamado Contos Suaves. Apesar da aparente frieza com que dou essa notícia, eu aceitei o convite como se aceita o filho do outro para amadrinhar… feliz, maaaaas, com o peso da responsabilidade.

Li a obra e sou fã do jeitinho que ele escreve. Além disso, conheço o Flavio há 20 anos (sim, desde quando eu era pré-adolescente) e pude acompanhar algumas dificílimas etapas de sua vida de perto, outras vezes de longe, mas sempre em uma torcida íntima de que as coisas dessem sempre certo pra ele.

O Flavio, que eu conheci como Chico lá nos idos dos anos 90, chegou a minha vida como amigo do meu irmão, que eu imediatamente roubei pra mim. Sim, ele tinha muito mais afinidade comigo, pois eu lia romances e escrevia poesias, do que com o pragmático e matemático e exato do meu irmão. Por ele ser barbudo, encardido, libertário, anarquista e, além de tudo, ser doce e escrever poesias como eu (além de saber recitá-las, o que eu nunca soube fazer e acho o máximo), me apaixonei por ele com todo meu coração.

Ele não quis me namorar e acabamos nos tornando amigos. Mais do que isso, iniciamos uma troca de correspondências que durou anos, cartas e cartas e cartas e cartas escritas a mão (não tinha internet!), longuíssimas e que falavam sobre tudo, sobre poesia, romances, dica de livros, lições de casa (ele indicando leitura para mim, pois ele era mais velho), amizade e amor.

Então, aos poucos, nos afastamos um do outro. Talvez porque eu tenha entrado na faculdade e feito novos amigos… ou porque meu namorado à época não encarava com bons olhos essa “ardente” troca de correspondências que não cessava… ou porque ele tenha se casado também… hoje é difícil identificar quando e porque rompemos a comunicação por meio das cartas.

Depois de um tempo, quando eu conversava com ele pela internet, sentia que ele havia perdido um pouco aquele papo apaixonante sobre literatura e só falava de Deus Deus Deus Deus. Sim, parece que ele abraçou uma religião e em todo diálogo nosso ele queria sempre “pregar” e isso me cansava.

Eu acompanhei de longe sua vida, ele se formou em Letras, é professor, casou-se com a Priscila, uma garota incrível, tiveram três filhos lindos (Sofia, Pedro e Daniel) e, agora, vai editar um livro… e me convida para o batismo.

Voltando ao início do texto, confesso que aceitei como se aceita um “trabalho”, um contrato a fazer. Mas quando eu comecei a escrever, um filme se passou em minha cabeça desde o dia em que eu o conheci e, depois de tantos anos, ele me concedeu essa honra sem tamanho.

Honrada, porém, cheia de medos pelo tamanho da responsabilidade, optei em fazer daquele jeito de sempre: deixei meu coração escrever (depois arrumei pontos e vírgulas e mecanismos de coesão e afins).  E o texto ficou incrível, porque ele é incrível, o livro dele é incrível, nossa história teve um peso assertivo muito importante em nossas vidas e, mesmo depois de tantos anos, fluiu como fluia as cartas manuscritas de anos atrás.

Este post é uma singela homenagem ao Flavio Notaroberto, este professor vencedor da vida, que edita seu primeiro livro, Contos Suaves, com a apresentação de Renata, sua amiga, que copio abaixo. E à amizade, sempre provando que tempo e distância são duas coisas… simplesmente coisas que em nada interfere quando o sentimento é de verdade.

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Apresentação

É fácil enxergar suavidade em um tecido macio, no desmanchar das nuvens, no sabor adocicado de uma sobremesa de frutas ou no toque do pé em uma areia macia. Está ao alcance de qualquer um perceber a suavidade nessas coisas. O desafio, entretanto, está na percepção do que vai além das aparências, dos sentidos e do óbvio. Os que conseguem conquistá-la não se tornam melhores ou piores do que ninguém, mas se tornam diferentes.

Quando eu conheci o Flavio há quase 20 anos, ele me encantou por enxergar além da casca de todas as coisas. Sua aparência grosseira, encardida, seu perfil militante e revolucionário típico de homens brutos nunca disfarçaram, pelo menos para mim, a suavidade da sua alma.

Naquela época, tive o prazer e a satisfação, quando eu era apenas uma adolescente arredia, de trocar correspondências sobre literatura e filosofia com o autor desses lindos Contos que vocês estão a prestes a degustar e, ao longo dos anos, pude perceber a lapidação de um escritor impecável e absolutamente sensível a sua realidade como morador da periferia de São Paulo.

Está presente em seus Contos o realismo puro e irretocável, próprio de alguém que viveu na pele todas as dificuldades de se morar no extremo da zona leste de São Paulo e conseguiu extrair a suavidade e a beleza que estão presentes na luta cotidiana dessa numerosa população abandonada por todas as iniciativas de desenvolvimento social e de infra estrutura que presenciamos há décadas em nossa cidade.

Os Contos trazem histórias que permeiam várias regiões da cidade de São Paulo, desde os extremos das periferias até as zonas centrais mais abastadas. O autor trabalha os contrastes com maestria, fazendo-nos exergar em personagens que, à primeira vista, julgaríamos opostos, um pouco de nós mesmos.

A riqueza desta obra está na riqueza da formação pessoal do autor. Não digo de estudos, pois acredito que a nobreza da boa literatura transcende os bancos acadêmicos. Mas sim, mesmo tendo o autor excelente formação em uma das instituições mais prestigiadas no país, reside nas experiências cotidianas, no baú de boas leituras realizadas ao longo da vida, na conversa com os mais velhos, que já viveram tanto, e com os mais jovens, que anseiam tanto em viver. Também está no tal do olhar além da casca, matéria em que nosso professor Flavio é hors concours!

Contos Suaves tem a responsabilidade de cumprir duas importantes tarefas na vida do autor: a primeira, a de servir como presente aos seus alunos, amigos e familiares que o acompanharam durante sua trajetória, que foi dura, e o livro representa uma graça que o autor retorna a essas pessoas, como um “muito obrigado”, mesmo. E a segunda, entendo como uma recompensa, mas não algo que tenha vindo pronto por seu merecimento, que é notório, mas algo que ele mesmo construiu, como se todos os dias ele pincelasse sobre uma tela branca sua história, às vezes com raiva, outras com amor, ora derrotado, ora vitorioso, e hoje estivesse admirando a obra de arte, fruto de tanto trabalho, suor, dedicação, perseverança, fé e determinação.

O lugar comum desses adjetivos é inevitável, pois estamos falando, sim, de uma pessoa comum, com o pequeno diferencial de enxergar palavras em tudo, nas coisas, lugares, pessoas… e convergi-las para histórias que nos enchem os olhos.

É isso que diferencia os escritores dos leitores: os leitores por meio das palavras apreendem histórias e personagens e, por isso, têm sede de leitura. Os escritores, ao contrário, extraem das pessoas e coisas as palavras que viram histórias, contos, romances e novelas e, por isso, são têm sede de realidade. E a beleza do ato da leitura é justamente o encontro dessas peças fundamentais para o desenvolvimento de qualquer cultura popular.

Sendo assim, caro leitor, a seguir terá início esta fecunda relação entre autor e leitor que alimenta e dá continuidade à arte da literatura ao longo dos séculos. Neste momento, você e o querido autor Flavio, de mãos dadas, dão vida e movimento à história da literatura nacional, que se fez e se faz, com pessoas que lêem e escrevem. Apesar da profundidade que envolve o tema, o resumo é simples assim.

Deixo-os agora com a leitura de Contos Suaves, uma obra delicada, apesar de realista, que consagra essa habilidade do autor de enxergar suavidade nas asperezas do cotidiano e transformá-las em belíssimos textos, com personagens que podem representar a mim, ou a você, ou alguém que você conheça. Os contos são intensos porque nos aproximam da história e dos personagens de uma maneira arrebatadora e, na mesma medida, com uma suavidade incrível.

domingo, 26 de julho de 2015

My Single Immortal Beloved: Declaração de Amor

My Single Immortal Beloved: Declaração de Amor

Por um momento pensei em você. Em todas as nossas cartas por tantos meses contínuos. Mas antes de prosseguir estas palavras, persitem em minha mente as suas palavras outrora recentes: "tentar reviver tempos quando éramos adolescentes." Por mais que possa ser fácil e óbvio enxergar uma meia idade, como a minha, o ridículo de reviver o que teve a sensação de momentos erredios, me cativa demais. Eu gosto tanto de sentir-me existencialmente vivo a ponto de não sentir falta alguma dos versos do Fernando Pessoa niilista. Eu revivo meu passado com o mesmo primeiro beijo adolescente que nunca dei em você. Nunca nos beijamos. Se passado, nostálgico; se futuro, sonhador; se presente, ridículo. Tenho saudades deste ridículo adolescente, e não por falta de presente intenso e nem ausência de perspectiva futura. Meus livros, meus filhos, minha separação, meus anos de casado, meu futuro mestrado e doutorado, meu próximo livro, minha vontade de resgatar as lacunas de tantas leituras, que tudo vive belamente intenso no meu olhar de agradecimento que tenho por você. Obrigado. Ainda sobra muito espaço de você dentro de mim. Estes dias, você mesma esteve em minha mente. Saudade gostosa. De agradecimento por você um dia ter segurado as minhas mãos, no meu quarto, em 1998, lendo uma carta para mim, tão íntima, tão cheia de amor, de palavras para as quais eu não estava preparado. Eu nunca estive preparado para você. Sonhava sim com você, e me entreguei ao meu destino de ser usado por quem precisava de mim. Eu até sonho acordado em tocar um dia meus lábios nos seus, mas seria egoísmo infantil e pura ingenuidade. Tocar suas mãos com a ternura que eu senti você tocar as minhas, naquele dia. Está em minha memória seus olhos trêmulos. Olhavam. Com uma decisão que tomava cheia de indecisão do que fazia. Eu vivia perdido. Tinha acabado de voltar do dentista. Você já havia seduzido a minha mãe, que se encantou com você, impressionantemente. Nunca - engraçado - eu a beijei. De certo, amaria ter feito. Nem tudo são memórias reais, porém. Algumas são estas memórias imaginadas tão reais a um esquizofrênico em seus delírios. Quero afirmar para mim mesmo que ainda tenho potencial para ser um escritor numa sociedade que pouco lê, e este escritor um dia poderá agradecer você, minha primeira leitora, quando não havia nada senão cartas. Eu sei que você torce por mim e talvez até deslizariam algumas lágrimas, testemunhando de longe algum sucesso. Claro que dependendo de seu grau de sensibilidade na época ou de ausência da sua razão e ocupações. São marcas. Minha marca em você é nosso passado que se toca. Sua marca em mim. As nossas marcas foram bonitas. Ah, creio que a vida tem sido boa para mim. Separei-me e deixei apartamento (verdade que não quitado), um carro (não quitado, mas terminei quitando), pensão generosa para meus padrões e tudo o que um homem que ama a dignidade da vida e os filhos que tem poderia deixar: a mãe deles está muito bem: formada pela USP, viagens para a Europa, Chile, EUA, várias pós, um excelente emprego e ainda jovial para qualquer amante de bom gosto e cultura. Sinto-me homem mais completo e realizado, ainda que o máximo sempre será o mínimo para a ingratidão. Saber, por outro lado, que você está em algum lugar e bem, me faz muito feliz também. Queria tanto que você lesse. Lesse estas palavras. Poder dizer que sim. Li. Confesso que eu a amei também outrora. Porém, tive medo. Medo de limitar o seu atual amplo mundo. Tenho em mim estes sacrifícios pessoais. Tenho medo de prejudicar quem amo, quem me ama ou me amou. Tenho tanto medo que elevo sempre meus olhos ao céu prostrado de joelhos na terra, pedindo para nunca deixar de amar e agradecer os amores que passaram em minha vida. Você foi um grande amor que passou por mim sem um único beijo. Creia. Não foi por outro motivo, senão por respeito ao que eu era, ao que você era, ao que você me representava e a enorme covardia de minha parte. Você está em meu coração, ainda, que totalmente ausente no espaço que não temos juntos. Quero ter uma vaidade pessoal de um dia dedicar um livro a você. Vaidade apenas. Você quem me apresentou aos filmes "Minha Amada Imortal" e "Nunca te vi, Sempre te Amei", bem como a "Sonata ao Luar", de Beethoven. Por mim, nunca falarei seu nome aqui, nem alí, nem acolá. Saiba que o tato apaixonado de sua mão, a voz daquela carta, o tremor suave de seus olhos semi-apaixonados me arrebatam ainda agora. Eu amei você também. Do fundo de meu coração. Ainda verdadeiro. Seja de meu coração adolescente ou do homem de meia idade. Obrigado, My Single Immortal Beloved. Nunca mais te vi, mas sempre te amarei com este nosso carinho recíproco...

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Saudades do quê?

Bem no finalzinho do sonho. A pessoa estava com ar triste. Primeiro deitada próxima a uma porta. Término de festa na casa de uma tia. Vejo-a e me aproximo dela. Ela se levanta sem perceber-me. Chego por trás. Cutuco-a. Ela me olha espantada.

- Posso te dar uma abraço?

Ela consente e aceita e me abraça fortemente por segundos. Em seguida, olhos fechados, eu falo em lágrimas:

- Que saudades!

Ainda abraçados, ela pergunta, com os olhos fechados:

- Saudades do que?

- De quando a gente era feliz, quando éramos bem mais simples.

Sem suportar a emoção, ela desata a chorar copiosanente. Soluçando, confirma:

- Verdade.

Então ambos desabam emocionadamente em fortes lágrimas, abraçando-se cada vez mais firmes um no outro, e eu desperto do sonho, com a sensação de lágrimas reais escorrendo nos cantos dos olhos e a respiração ofegante do pranto. Sonhos catárticos. Aliás, ontem falei como fazem falta aqueles momentos tão iniciais de todas as nossas vidas. Sim, felicidade.