domingo, 26 de julho de 2015

My Single Immortal Beloved: Declaração de Amor

My Single Immortal Beloved: Declaração de Amor

Por um momento pensei em você. Em todas as nossas cartas por tantos meses contínuos. Mas antes de prosseguir estas palavras, persitem em minha mente as suas palavras outrora recentes: "tentar reviver tempos quando éramos adolescentes." Por mais que possa ser fácil e óbvio enxergar uma meia idade, como a minha, o ridículo de reviver o que teve a sensação de momentos erredios, me cativa demais. Eu gosto tanto de sentir-me existencialmente vivo a ponto de não sentir falta alguma dos versos do Fernando Pessoa niilista. Eu revivo meu passado com o mesmo primeiro beijo adolescente que nunca dei em você. Nunca nos beijamos. Se passado, nostálgico; se futuro, sonhador; se presente, ridículo. Tenho saudades deste ridículo adolescente, e não por falta de presente intenso e nem ausência de perspectiva futura. Meus livros, meus filhos, minha separação, meus anos de casado, meu futuro mestrado e doutorado, meu próximo livro, minha vontade de resgatar as lacunas de tantas leituras, que tudo vive belamente intenso no meu olhar de agradecimento que tenho por você. Obrigado. Ainda sobra muito espaço de você dentro de mim. Estes dias, você mesma esteve em minha mente. Saudade gostosa. De agradecimento por você um dia ter segurado as minhas mãos, no meu quarto, em 1998, lendo uma carta para mim, tão íntima, tão cheia de amor, de palavras para as quais eu não estava preparado. Eu nunca estive preparado para você. Sonhava sim com você, e me entreguei ao meu destino de ser usado por quem precisava de mim. Eu até sonho acordado em tocar um dia meus lábios nos seus, mas seria egoísmo infantil e pura ingenuidade. Tocar suas mãos com a ternura que eu senti você tocar as minhas, naquele dia. Está em minha memória seus olhos trêmulos. Olhavam. Com uma decisão que tomava cheia de indecisão do que fazia. Eu vivia perdido. Tinha acabado de voltar do dentista. Você já havia seduzido a minha mãe, que se encantou com você, impressionantemente. Nunca - engraçado - eu a beijei. De certo, amaria ter feito. Nem tudo são memórias reais, porém. Algumas são estas memórias imaginadas tão reais a um esquizofrênico em seus delírios. Quero afirmar para mim mesmo que ainda tenho potencial para ser um escritor numa sociedade que pouco lê, e este escritor um dia poderá agradecer você, minha primeira leitora, quando não havia nada senão cartas. Eu sei que você torce por mim e talvez até deslizariam algumas lágrimas, testemunhando de longe algum sucesso. Claro que dependendo de seu grau de sensibilidade na época ou de ausência da sua razão e ocupações. São marcas. Minha marca em você é nosso passado que se toca. Sua marca em mim. As nossas marcas foram bonitas. Ah, creio que a vida tem sido boa para mim. Separei-me e deixei apartamento (verdade que não quitado), um carro (não quitado, mas terminei quitando), pensão generosa para meus padrões e tudo o que um homem que ama a dignidade da vida e os filhos que tem poderia deixar: a mãe deles está muito bem: formada pela USP, viagens para a Europa, Chile, EUA, várias pós, um excelente emprego e ainda jovial para qualquer amante de bom gosto e cultura. Sinto-me homem mais completo e realizado, ainda que o máximo sempre será o mínimo para a ingratidão. Saber, por outro lado, que você está em algum lugar e bem, me faz muito feliz também. Queria tanto que você lesse. Lesse estas palavras. Poder dizer que sim. Li. Confesso que eu a amei também outrora. Porém, tive medo. Medo de limitar o seu atual amplo mundo. Tenho em mim estes sacrifícios pessoais. Tenho medo de prejudicar quem amo, quem me ama ou me amou. Tenho tanto medo que elevo sempre meus olhos ao céu prostrado de joelhos na terra, pedindo para nunca deixar de amar e agradecer os amores que passaram em minha vida. Você foi um grande amor que passou por mim sem um único beijo. Creia. Não foi por outro motivo, senão por respeito ao que eu era, ao que você era, ao que você me representava e a enorme covardia de minha parte. Você está em meu coração, ainda, que totalmente ausente no espaço que não temos juntos. Quero ter uma vaidade pessoal de um dia dedicar um livro a você. Vaidade apenas. Você quem me apresentou aos filmes "Minha Amada Imortal" e "Nunca te vi, Sempre te Amei", bem como a "Sonata ao Luar", de Beethoven. Por mim, nunca falarei seu nome aqui, nem alí, nem acolá. Saiba que o tato apaixonado de sua mão, a voz daquela carta, o tremor suave de seus olhos semi-apaixonados me arrebatam ainda agora. Eu amei você também. Do fundo de meu coração. Ainda verdadeiro. Seja de meu coração adolescente ou do homem de meia idade. Obrigado, My Single Immortal Beloved. Nunca mais te vi, mas sempre te amarei com este nosso carinho recíproco...

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