É comum. A história "Lágrimas" de meu livro. É ler e chorar. Após o choro, a inevitável projeção em mim. Nossa, professor! Como o senhor sofreu! Ou, sua mãe está bem, professor? O olhar de pena e comiseração atinge mesmo minha alma. Mesmo assim, eu não facilito. Alimento esta ideia. Para ver no que dá.
Nossa, professor, como sua vida foi triste. Eu abaixo a cabeça. Olhar de piedade. Nutro mais um pouco a dor projetada. Falo que faz parte da vida. Você tão alegre e feliz! Nem imaginava! Eu abraço a pessoa, agradecendo pelo carinho. Ela me abraça. Olha nos meus olhos. Pergunta de minha mãe. Eu falo que está bem.
- Bem? Mas sua mãe não...?
- Não.
- Aquela história não é de sua vida?
- Não.
- Não é pessoal?
- Não.
- Mas como pode! Parece tão real.
- Mas é real.
- História de alguém?
- Não.
Surpresa, a pessoa fica confusa. Questiona os demais textos, as demais histórias. Nenhuma auto-biográfico. Imaginação? Exatamente. Como é possível? O olhar. Saber olhar. Colocar-se na vida do outro e imaginar. Projetar sentimentos, situações, contextos, desejos, projeções, causas e efeitos, tudo dentro do drama humano. Ah, drama em grego quer dizer "ação", nada a ver com tragédia. O ser humano em ação não tem tanto segredo.
O russo Pavlov foi o pioneiro ao estudar o condicionamento do comportamento nos animais. O escritor entra aí. Narra aquilo que é previsível no comportamento humano e narra as superações e frustrações. O escritor e os artistas ensinam a olhar. A causa e o efeito. Tudo é uma questão de olhar com disciplina. Ver, enxergar, olhar, compreender, assimilar, saber. Mais ou menos nesta ordem. O resto é repetição, como fez Pavlov no "papel do condicionamento na psicologia do comportamento (reflexo condicionado)". A arte é descondicionar.
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