Jamais outra vez
Era para ser uma noite especial. Eu havia sido contratado há um mês depois de quase três anos vivendo de bicos. O primeiro pagamento saiu na quinta-feira. Separei parte dele para sair à noite com um amor platônico, que sinto até hoje. Ela morava próximo da minha tia. Eu não liguei para confirmar se ela iria. Ela havia me confirmado na segunda. Cheguei e esperei. Espero até hoje. Sei que no outro dia liguei para ela. Sua voz foi muito afetuosa, acolhedora. Falamos por alguns minutos. Perguntei se estava bem. Disse que sim. Depois que teria que desligar. Eu não compreendi. Será que esqueceu? Eu não quis confirmar. Deixei a dúvida morar nas minhas memórias por muitos e muitos anos. Por acaso, estou me lembrando dela hoje, em que recebo meu primeiro mês de minha aposentadoria, deitado na sala, tv ligada, lembrando-me dela. Seu olhar, seu sorriso, os cabelos soltos, os cabelos presos, com e sem maquiagem, a voz nunca alterada, sempre discreta, sempre positiva, sempre apaixonante para mim. Fizemos colégio juntos. Nunca consegui gostar de outra pessoa em minha vida. Continuei trabalhando. Como não tinha com o que gastar o salário que eu recebia, gastava o mínimo comigo e deixava no banco. Comia pouco, muito pouco. Dormia em um quarto simples no fundo da casa de minha tia, que não cobrava nem aluguel, nem água, nem luz, nem nada. Fazia ainda mimos, deixando-me algo para comer. O trabalho era meu contato com o mundo. O trabalho ao longo da semana. No fim de semana eu caminhava pela manhã e início da noite. Contava os passos no início. Depois entrava em transe e esquecia de mim mesmo. Não sabia aonde ia. Depois voltava e sentia profunda melancolia quando fechava a porta do meu quarto. Dormia cedo. Foram mais de dez anos assim. Aos 30, resolvi começar a faculdade. Sem perceber, eu pude sair do emprego. Sem perceber, porque a minha conta bancária tinha tanto dinheiro que me assustei. É que depois de um certo valor, o correntista muda de perfil. O gerente me ligou oferecendo uns pacotes. Fui ao banco. Vi a quantia. Agradeci a informação. Não aceitei mudar. Transferi tudo para a poupança. Poupei sem saber. Fiz uma breve carta de demissão. Inclusive dispensei o aviso prévio. Fazia mais de dez anos que exercia a mesma função, sempre eficiente, e nunca ausente. Meus passatempos permitiam ser funcionário exemplar. Era controlador de mercadoria de um depósito de material de construção. Tudo o que entrava e tudo o que saía passava pela minha assinatura. O RH aceitou sem contendas. Saí de lá. A pé fui pensando. O que iria estudar? Desde que terminei o colegial, não me vinha a vontade de voltar a sentar em um banco de escola. Gostava de pensar. Me incomodava olhar para o mundo sem resposta. Sentir era algo confuso. De repende, veio-me à mente uma professora de filosofia do colégio, que me chamou a atenção pelas ideias que tinha do mundo. Fui à faculdade e perguntei do curso. Dois meses depois eu estava na sala de aula. Mudei-me da minha tia para uma casa na rua atrás da faculdade. Minha tia me desejou boa sorte. Nos primeiros meses - comecei em agosto -, era sempre "o quê". O que era isso e o que era aquilo. Eu ia anotando o que no meu caderno. Passei os quatro anos entre perguntas com "o que" e a vida dos filósofos. Não trabalhei neste tempo todo. Estudava pela manhã. Almoçava frugalmente. Ficava na biblioteca até anoitecer. Ia para casa. Comia uma bolacha. Ligava o rádio. Tomava banho. Dormia antes das nove. Todos os dias - com exceção dos fins de semana e férias. Ao invés de ir para a faculdade, eu caminhava toda manhã. Admito que, ao tornar-me filósofo graduado, senti-me culto, mas cheio das mesmas perguntas sem respostas. A faculdade não me ajudou a responder os por quês. Eu vivia para sentir. Nos quatro anos de faculdade, eu pude desviar a atenção do amor platônico de minha alma, e aprender a cultura do pensamento Ocidental. Graduado, sem respostas, aos poucos o amor voltou em meu coração. Foi estranho. Veio pior do que antes. Foi forte e não conseguia pensar em mais nada. Seis meses depois, eu me sentia tão doentemente apaixonado que procurei por ela na mesma rua da casa da minha tia. Fui à tarde, logo depois do almoço. Era sábado. Apertei a campainha. Dois cachorros pequenos latiram estridentemente. Ela abriu a porta. Veio ao portão. Perguntou quem é e abriu o portão. Não me reconheceu. Fazia quase quinze anos que não nos víamos. Eu tinha deixado a barba crescer. Me deixava com ar de filósofo. Ela se surpreendeu quando falei detalhes. Surpreendeu-se e sorriu. O mesmo sorriso apaixonante. O cabelo descuidado. Mesmo assim, ali a pessoa que eu amava doentemente. O corpo mais cheio do que vazio. Mesmo assim, não me importava. Ficou feliz em me ver, tanto que me chamou para entrar. Porém, em seguida, passou por nós de dentro da casa um jovem, que se despede com a palavra mãe. Disse-me que ele estava com quinze anos. Ela até me lembrou de que naquele dia de nosso encontro, que não aconteceu, ficou sabendo da gravidez. O inusitado foi tão grande que se trancou no quarto. Saiu de lá somente na segunda para ir trabalhar. Estava feliz hoje. Eu fiquei feliz. Não entrei na casa dela e minutos depois me despedi. Saí de lá igualmente apaixonado. Voltei a estudar para distrair a mente. Mestrado, doutorado. Há três anos tornei-me livre-docente. Aposentei-me há um mês. Não me casei e não quis macular meu amor tão sublime. Foi bom viver entregue a um sentimento caro para mim. Se pude amar tanto, não me importei em não ser amado. Sentir me bastava. Ao menos, eu não sofria a dor do outro sobre mim. Eu poderia ter arriscado mais. Poderia ter perguntado mais. Poderia ter libertado-me mais. Saber por que nunca foi meu forte. Aceitava. Ao menos deveria ter entrado na casa dela naquela vez. Seria um risco. Este outro pequeno detalhe vai morrer comigo. Jamais vou atrás de resposta novamente. Jamais.
Belo conto, envolvente e emocionante. Nos faz pensar...Pensar no que. Jamais outra vez...
ResponderExcluirVerdade. Um dos discursos de fundo é que ele tem um leve autismo que não o faz sentir a vida e suas emocoes de modo intenso...
Excluir