segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Apaixonante para a maioria

Numa arrogância sem proporções, eu sempre advirto às pessoas que se aproximam de mim que o tempo me transforma em alguém apaixonante para a maioria. Muito porque a intimidade a dois me dá a vantagem do domínio sobre as palavras. Liberto-me assustadoramente. Já teve a chance de viver com alguém com alta dose de liberdade intelectual e auto-estima?

Como sou algo que sempre tem o que dizer sobre relaciomentos humanos, devo admitir que encanta quem pouco ouviu...

Que arrogância. Prepotência. Auto-estima. E o "se acha"! Já ouvi muito o "você se acha".

Eu me acho nos detalhes. Quem se preocupa com os detalhes tem a vantagem de se satisfazer com pouco. Até pouco carinho, pouco amor, pouca entrega, pouca atenção já que tudo isto são detalhes. Gosto dos detalhes e isto encanta. Abre a mente. Seduz até.

Evoco a imagem do gostar com a força do querer com o tempo. O tempo: ou nos faz querer, ou nos faz desquerer das pessoas quando buscamos a troca de intimidades. E lembro que é o mesmo  tempo que enjoa, desgasta, desconstroi. O desapego será, portanto, uma questão de tempo.

E agora entro em minhas reflexões porque vivo exclusivamente no presente em minha vida pessoal. Devemos estar com as pessoas - a partir de uma certa idade - sem deixar de sermos a nossa história ou o que já somos.

Não me sobra nada para o futuro senão para o que de fato tem importância para mim: meus filhos, para ser direto e claro! As demais coisas vivem em meu presente constante. Quem quiser fazer parte dele, assim o fará, de meu presente eterno. E olha que ainda escrevo para deixar mais presente o meu presente!

Não adianta. Meu coração fragiliza com o sofrimento alheio e a carência. O que é carência? Oras! É um passado que persiste; ou um futuro que nunca chega. A carência que se sente no presente é para outros tempos. Não sou carente. Não tenho este tempo. Minha vida me guia para onde devo ir. Todos iremos a algum lugar.

A vida. Bom misturar tudo. Deixar solto faz parte. Amar é bom. Ser amado por quem se ama, então, supera até o presente: já imaginamos futuro com o amor, o que é válido.

Post diferente este. Muito pessoal. Mas me ajudará. Quem não precisa de ajuda nos seus limites? Quem não tem limites?

domingo, 11 de janeiro de 2015

Evitar Deixar Sofrer

A arte de não deixar o seu próximo sofrer. Poucos sabem da arte de não deixar o outro sofrer.

Apenas quem um dia na vida superou a dor da falta de sentindo de sua própria existência compreende que viver feliz envolve o não sofrimento daqueles que você ama, amou, ou ao menos estão próximos a você.

Não generalizo. Eu confirmo: ser feliz é evitar o sofrimento de quem você ama, amou ou convive.

Excetuando o sadismo, que é o prazer no sofrimento externo, e portanto um distúrbio neurológico, fazer sofrer é vingar-se. Alivia por pouco tempo. Sim. Alivia o coração magoado, cheio de rancor. Ver sofrer quem o fez ou faz sofrer é aquele pecado chamado vingança. A vingança não é uma dor alheia e uma delícia interna: ela é a morte de ambos. Ninguém se vinga sem consequências negativas para si mesmo.

Me lembro que com 18 anos eu deixei uma jovem de nome Laura sofrendo em um ponto de ônibus, em São Miguel Pta, na frente de uma loja das Casas Bahia. Era noite. Em minha vida até então foi a segunda menina que havia se apaixonado por mim. A primeira foi a Patrícia.

Fazemos as pessoas sofrerem quando somos inocentes porque não temos meios de evitar. Fiz a Laura sofrer. Terminei o relacionamento com quem me amava. Não a deixei sofrendo, mas saí da vida da pessoa e isto causou dor. Quem aos 18 anos entende para que serve sentimentos amorosos? Me despedi dela. Entrei no ônibus. Dei uma última olhada para ela. E fui.

Não tive arte alguma. Foi o que a imaturidade dos meus anos me proporcionava. Até hoje trago esta memória viva porque no meu íntimo não é correto livrar-se de um sofrimento desta forma que não lhe pertence, sendo você a causa.

Os anos nos evelhecem, nos tornam encantadores, cativantes e mais sensíveis. Claro. Para quem aproveita de verdade a verdade dos anos, apenas sabedoria e encanto se tiram deles. Há quem faz da experiência da vida alguns quilômetros de seu quintal e não vêem o mundo além disto. Nossos sentimentos são nossos mundos em potencial. Pequeno mundo, sentimentos limitados. Todo envelhecimento deveria encantar e cativar. Envelhecer é expendir-se.

Queria que a Laura lesse este pequeno texto. Já procurei várias vezes pelas redes sociais seu perfil, mas não me recordo seu nome completo. Em todo caso, eu registro agora que não tinha ainda a arte de não permitir o sofrimento sem necessidade. Hoje não permito eu fazer sofrer.

Sei que o perdão vem da inocência e boa intenção. Minha intenção não valia nada aos 18 e minha inocência era enorme. O perdão da Laura pode existir, senão até hoje ela deve ter mágoa de meus 18 anos, ou melhor, rancor que é a eterna mágoa o que perduraria até hoje, nos meus 41 anos.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Felicidade. Amor. Fraqueza. Entrega.

Eu creio. Crer confirma o impossível. Antes de ser possível, devemos crer no impossível. Afirmarei que não há sentido mais forte do impossível, senão ao crer.

Vamos pensar no que buscamos em nossas vidas: ser felizes... Eu não inovo na busca da Felicidade. Aristóteles, em sua A Política, disse que a finalidade do ser humano é a busca da Felicidade. Queremos ser felizes. A partir daí o que acontece vai se encontrando, vai se tocando, vai enrolando-se, combinando-se, ajudando-se na forma e no conteúdo.

Acreditar, portanto, em ser feliz é deixar as adversidades ajudarem neste propósito. Não o acaso, que é a falta de crença. Não suporto o acaso porque não creio em coincidências.

Sou feliz. Sofro como todos porque a dor no ser humano é interna. Não arranquemos de nossas almas as dores, que causam sofrimento. Nunca devemos rasgar nossas almas. E as dores são incerteza, dúvida, limite, solidão, carência, ausência, amor... Amor? Amor não poderia confundir-se com dor. Quando o amor doi, ele não é amor, mas sim incerteza, dúvida, solidão, carência, ausência, limite... Amor. Quer amar muito? Sinta-se fraco e entrega-se.

Sentir-se fraco é uma virtude. Não sabia? Como crescemos quando nos construímos em nossas fraquezas e vivemos mais felizes! Interessante a fraqueza. Por que poucos usam a sua fraqueza como apoio? Quem usa a sua fraqueza como apoio? E num salto inesperado, ligamos nossa felicidade com nossas fraquezas. Ser fraco, paradoxal que seja, é ser feliz.

Quando admitimos o que existe de excesso em nós (fraqueza) ou o que existe de carência (fraqueza) damos ao outro a oportunidade de nos amar onde precisamos. Compreende? Parece até uma lei universal que governa nossos limites. Lembra-me a Bíblia: sou forte quando sou fraco. Eu sou fraco, por isto aprendi um pouco a essência de amar...

Felicidade. Amor. Fraqueza. Entrega. Quanta virtude nisto tudo!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Falar de amor e de tudo...

Me sugeriram num comentário se eu escrevo o que não sinto e por isto fica mais fácil, e há quem creia que escrevemos melhor quando sentimos seja sobre amor, dor, solidão, ausência, carência, felicidade, ilusão...

O comentário:

Professor, por que sabemos falar de amor quando não o estamos vivendo? Isso é  uma característica  dos escritores  e poetas. Já  havia notado isso outrora.

Minha consideração:

"Eu já superei os limites emocionais que os sentimentos nos colocam... Escrevo não o que sinto e nem o que não sinto. É muita intuição. Intuir é sair de seu corpo. Entrar num universo mais amplo de emoções e possibilidades. O que sinto, eu gosto de transmitir pessoalmente, o que só é possível presente... sem intuição! Ah, talvez por isto pessoalmente faço rir com uma boa impressão e com facilidade... Diferentemente de meus escritos... Pessoalmente amo. Encantar é surpreender positivamente. Decepcionar é surpreender negativamente. Encantar. Pessoalmente o amor vem do encanto."

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Amar...

Amar é algo bom... Gosto muito do amor. Ele aproxima. A vida conecta sentimentos. Nos libertamos do mundo exterior. Por isto que se for amar, não pense em sua carência. Ela vai sufocar. E não será feliz. Seja íntimo de fazer intimidades do tipo cólica ou mesmo um imprevisto pum. Tenho vergonha. Tenho vergonha de minha intimidade. E a paixão cresce ao perdoar nossas vergonhas. Sentimos algumas. E amamos mais no perdão... Não ao perdoarmos, mas ao ser perdoados; seremos tratados como humanos, seremos queridos pela consciência de que a vida não se congela em um selfie esteticamente vislumbrante... A pausa dos segundos que antecedem a foto é uma perspectiva do que seremos e queremos ser. Se formos bem, nossa imagem nos agradará e amaremos ser vistos. Mas apenas uma imagem. Gosto de amar por isto. Não se ama algo parado, congelado, estático, sem vida.... No fundo precisamos de vida. Precisamos que nos façam sentir intensa e amorosamente vivos. A fraqueza da vontade da entrega gera o verdadeiro amor. Já amei a carne, já amei a beleza, já amei a essência. Hoje amo a entrega. Não aquela total. A entrega da intimidade do que nos faz feliz. Sou contra a carência. Ela destroi. Sou pró o amor: ele edifica. Sou crente no sacrifício: somente ele justifica o amor. De resto, é ser sincero com o que de verdade precisamos. Eu preciso de meus filhos porque os amo. Sinto que me sacrificarei por eles sempre. Ah, e eles sabem disto. Mas amar não anula o sacrifício. Ele o completa. Fora isto, é um pouco amor adolescente. Não querer se sentir sozinho na festa. O amor maduro sabe muito bem o que significa "antes completamente sozinho do que uma companhia que o lembra se vale à pena tanto gasto de energia por uma companhia." Sim. Amar faz bem. Amar quem sabe o sentido real do amor vale à pena? Somente os fortes entenderão. Não é fácil. Creio sim que não é para quem apenas pensa no amor como o eu-feliz. Amar o outro-feliz. O outro muito feliz. Reciprocamente.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

História de Amor (Possível)

Na praia dos Milionários em São Vicente, a água do mar batia na areia, ou melhor, deslizava na beirada suavemente. Um par de olhos, perdido dentro de si, estava quieto, observando o sol que, do outro lado do mar, entre a Ponte Pênsil, descia vagarosamente. Um papel de sorvete se distraia com o balançar das águas impulsionado pelas fracas ondas. Pés fixados na areia. Perto, uma bola de voleibol caia de um lado ao outro, aos gritos, uivos, suor, risos e sensualidade. Sexta-feira. Sexta-feira vaga. Muito calor, paz e solidão na alma de Rafael.

Ele veio de sua casa, a poucos metros da praia. Morava com a mãe aposentada. Caminhou pensativo até o mar. Trazia entre as mãos um punhado de papel. Na verdade, um rascunho, cuidadosamente manuscrito. Cerca de duzentas páginas. Frente e verso. Buscava o título. O pôr-do-sol o inspirava. Trazia o mundo para seu interior. Perdia-se num prazer somente seu. Queria encontrar o que procurava.

Arriscava. “O que pode ser?” Nada. Tirava da areia um dos pés afundados. Mexia de um lado a outro, quando a água vinha. Limpava-o. Água sensitiva e leve. Levantava a cabeça. Mirava os olhos para o finito. Respirava toda calmaria do ambiente. Estava só. “O sol também”, refletiu. E a lua mais tarde. Era uma pessoa contemplativa e paradoxalmente feliz.

- Mãe, quer ir ver o pôr-do-sol?

- Não, meu filho.

Voltaria para casa, pensando em reler seu livro. Descobrir o título. Rafael tinha um jeito particular de solucionar seus problemas. Esperava. Não apenas porque era a única solução e a melhor delas. Mas porque seu trabalho intelectual exigia paciência. Esperava. Esperava e pensava. Olhou para o mar e agradeceu sua solidão encantadora.

- Cuidado!

Voz feminina. Foi o tempo de receber uma bolada no nariz. Tombou lentamente no chão de areia.

- Me desculpe.

Rafael levantou os olhos. Desnorteado pela força da bola, pela areia que entrou nos seus olhos, pelo zumbido horrível.

- Não foi nada - disse.

E se ergueu mais preocupado com os papéis que se espalharam pela areia. Nenhum ficou molhado. A jovem recolheu outros tantos que estavam mais longe.

- Está bem? - perguntou menos preocupada.

- Sim, claro!

Enxergou Larissa diante de si. Assustou-se. A beleza no início assusta. A perfeição espanta e amedronta. O que viu o desnorteou mais do que a bola na cabeça. Nem reparou no sangue que lhe escorria do nariz.

- Começou a sangrar!

Ela retirou sua camiseta branca onde escondia seu biquíni azul escuro. Os seios nem pequenos nem grandes.

- Não, não precisa. - disse Rafael, levando as mãos ao nariz, erguendo-o.

Ela fez que não ouviu e insistiu. Era pró-ativa. Não se vencia pelo machismo enraizado na cultura brasileira.

A partida de voleibol recomeçou há muito sem Larissa. Ela, cansada, deu-se descanso por minutos. Rafael, desconsertado. Ele não era tímido. Reservado porque seu mundo era interno e não das aparências. Não conseguia olhar para ela por mais de dois segundos. Desviava os olhos. Muita beleza fere a alma. Escrevia para a alma. Consciência. Mundo dentro das pessoas. Os originais. Reparou nos originais do seu livro. Alguns em suas mãos. Alguns nas mãos de Larissa.

- Olha a bola! - e outra com mais força atinge a nuca de Rafael.

Após outro susto, entreolharam-se, riram de modo bem expontâneo.

- Melhor a gente sair daqui, sugeriu a menina

- É, respondeu.

Com a camisa de Larissa no nariz, cabeça erguida, preocupado com os originais do livro e ainda queria assistir o pôr-do-sol! Seu livro, nas mãos dela, firme. Agradeceu por ela ter pego antes da água do mar. Não havia cópia. Larissa retribuiu "de nada". Que sorriso! Que dentes brancos!

- Magina.

Corrigiu mentalmente. "Imagina." Sabia ser mala mentalmente.

Ela se apresentou. Rafael estendeu a mão.

- Prazer.

Afastaram-se.

- Olha a bola, Larissa!

Larissa olhou; achou graça. Pegou a bola, que desta vez veio fraca, e devolveu-a para o jogo.

- Ela está te perseguindo.

- Talvez porque nunca fui amigo dela. Parou de sangrar.

Lentamente caminhou à beira do mar. Larissa o acompanhou. Tirou as mãos do nariz. Abaixou a cabeça. A água estava morna, boa para um mergulho. Molhou um pouco a nuca. Depois limpou o rosto. Devolveu a camiseta de Larissa. Agradeceu. Tirou a sua e foi na água. Pediu para ela segurar os originais.

- Que originais?

- Estes. De meu livro.

Não explicou mais nada. Jogou mais água na cabeça, cabelos molhados. “Como a água está quente.” Mergulhou. "Acho que estou nervoso", sussurrou.

De longe, ela gritava:

-Você está melhor agora?

- Estou, retribuía aos berros. Obrigado.

Poucas pessoas no mar. Ele puxava muitas braçadas. Nadou. Nadou. Nadava todos os dias.

Larissa achou-o gracioso. Apenas. Rafael, de longe, reconstruiu em suas palavras de escritor Larissa. Cabelo longo, liso e escuro. Um pouco embaraçado, castigado, pesado por causa do vento do litoral que não o deixava quieto em cachos grossos. Sua pele branca e macia, bem cuidada. Angelical. Os olhos largos e redondos, combinando com a boca média e lábios sedutoramente macios. Se Rafael pensou na maciez dos lábios dela, pensou em seus lábios tocando nos dela. Nariz levemente redondo e pequeno. Todo seu semblante uma harmonia, dentro de um gracioso corpo de quase 1,80m com 59 quilos saudáveis e bem nutridos e bem distribuídos. Rafael, no mar ainda, descobria-a aos poucos e produzia a imaginação com o olhar viril. Larissa, na areia, sentiu o homem aflorar nos jeitos de Rafael e silenciou, consentindo amigavelmente.

Ela abriu o livro.  As folhas. Lia algumas linhas. Não conseguia. Não conseguia manter a atenção na leitura. Se perdia. Teve um pouco de vergonha.

- O que você faz? - perguntou Larissa quando sentaram numa pedra próximo.

-Sou escritor.

- Que legal!

-É.

-O que escreve?

- Gosto de escrever histórias. Não tenho nada publicado. Não sou famoso, nem nada disso. Eu falo para mim mesmo que sou escritor porque amo escrever. Moro com minha mãe.

- Esses papéis em minhas mãos são um livro?

- Um livro de contos. Histórias curtas sobre a vida, sobre o que a gente faz no dia-a-dia. Frustrações, desilusões, limites, angústias, mas sempre com um sinal de esperança. Eu estava aqui na areia da praia buscando um título para este livro.

- Estava? Já encontrou um?

- Não! Não! Ainda não.

- E como você cria as histórias?

- Não sei dizer. Quando escrevo, eu me esqueço de quem sou e por isto não sinto que sou eu mesmo quem as cria. Escrevo sobre aquilo que está fora de mim como realidade e dentro de mim como imaginação.

- Escrever é realidade e imaginação? - interrompeu a jovem.

- Pode ser que sim , ele concordou, mas eu penso muito nas pessoas, nos sofrimentos, nas angústias, nas incertezas e escrevo o que as pessoas não se dão conta ainda porque alienadas.

Larissa ouvia atentamente.

- Escrever é estar lá, solitário, criando, compondo, desenhando no papel palavras para leitores. As palavras surgem de um espanto, um pasmo, um momento espiritual difícil de descrever porque é somente a consciência que existe solitariamente. É até interessante porque os amigos que lêem meus textos me falam ‘Mas isso não aconteceu com você?’ Eles perguntam como fosse necessário a gente viver as coisas para poder falar delas. Escrevo o que não vivi e parece que sou eu.

Larissa teve gosto de como Rafael articulava as palavras. Ela não era acostumada a conversas. Embora falasse três idiomas e tivesse conhecido o mundo em viagens, por ser modelo desde os 14 anos, naquele momento, nos seus 25, nunca gastou seu tempo com a boca de um escritor. Seu mundo era das imagens. Da imagem dada e sedutora, imagem do desejo inalcançável da maioria que vê e nunca terá e será. Larissa já havia tido a oportunidade de conversar com escritores badalados. Aqueles que são tão imagens quanto ela. Apenas naquelas formalidades das imagens do mundo Fashion. O inusitado de Rafael parecia o diferente da simplicidade. Areia, mar, sol, vida, natureza, arte. Sentia sinceridade, verdadeira beleza, suavidade na alma. Ela nunca teve amores nos olhos do mundo da literatura, dos livros, dos escritores.

- Modelo internacional? - perguntou Rafael assustado.

- Isto mesmo, confirmou Larissa, mordendo o lado esquerdo dos lábios que fez Rafael quase se apaixonar.

Confessou a ele que lia o que lhe convinha. Lia pouco. Quase nada. Gostava de estar livre quando tinha um tempo para si. Ainda que houvesse um chato de um paparazzo ao seu pé.

- Aqui já vi uns sete me fotografando.

Nem ligava. Não era famosíssima de estar nas revistas semanais, ou na boca dos programas de fofocas. Não. Apenas bem requisitada na profissão o que lhe rendia boa fortuna. A idade já a envelhecia para a moda. Tudo o que tinha que viver nele, já havia vivido. Nos anos seguintes queria intensamente a vida, sem incorporada, como corpo, no mundo da badalação, Fashion World, produto que era e que tinha se transformado. Imagens infinitas. As palavras não eram imagens.

- Eu sou uma imagem, Rafael; você é imaginação. Aliás, eu moro em Santa Catarina desde os 20 anos. Mas sou daqui também, de São Vicente.

Ele manteve silêncio. O sol finalmente caindo. O lindo pôr-do-sol bem no meio da Ponte Pênsil. Dois morros ao lado. O mar como chão e espelho. Larissa hipnotizou-se com ele e ficaram os minutos seguintes sentindo a cena, alí, ao lado de quem valorizava a beleza do olhar na natureza. Beleza da sensibilidade e não da sedução. Ela seduzia com sua imagem. A natureza com a sensação de fazer parte. Nunca imaginou que se sentiria constrangida com esta reflexão.

Depois, o chamou para tomar um suco. Nem se lembrava mais do vôlei. Ele nem do livro nas mãos dela. Foram. Juntos conversaram sobre tudo. Larissa do universo da aparência que conhecia; Rafael do mundo verossímil que criava. Trocaram muitos sentimentos pelo olhar. E o tempo precioso para o deleite dela e para a inspiração dele. Lá fora tudo esquecido. Dentro deles tudo criado.

- Vou para São Paulo amanhã. Tenho passarela em Milão neste fim de ano. Viajo daqui três dias.

Rafael nada respondeu. Concordou com a cabeça. Queria prolongar a conversa. Sentiu, porém, que tinha falado tudo quanto podia para um sujeito tímido como era. Tímido não. Reservado. Ele, então, disse que precisava ir. Inventou uma desculpa qualquer. Despediram.

A noite entrou quente e continuava quente como nunca antes. A vida continuaria.

Rafael, distraído, beijo-a no rosto, disse que estava sem dinheiro para pagar a conta dos sucos, pediu desculpa e foi embora. Larissa manteve-se normal como era. Terminou de beber. Olhou as horas no celular. Reparou nos originais do livro de Rafael em mãos.

- Nossa, disse para si mesma, ele esqueceu.

Iria atrás dele. Não foi. Foi para casa. Com os originais.

Viu o nome Rafael Gaiado. Deixou em cima da sua cama. Foi ao banheiro. Depois do banho, deitou um pouco. Iria para Santos. Um evento simples, altruísta. Parte do contrato. Levantou-se da cama, arrumou-se maravilhosamente linda e manteve-se normal como sempre em sua vida. Deixou o rascunho do livro de Rafael espalhado na grande cama. Foi pega pela empresária, sempre à sua cola.

Larissa, ela nunca havia amado ninguém. Não. Nunca soube da verdadeira natureza do amor. Não sabia. Saiu naquele dia à noite um pouco reflexiva. Sem saber, ela diminuía para si mesma sua individualidade e independência. Rafael crescia dentro dela. Exatamente. Não existe outro sintoma para o amor senão a diminuição de nós mesmos. No princípio, ela não teve a mínima ideia. Quem a tem? Quem tem a ideia original de nossos amores?

A publicação do livro de Rafael, "Ao Amor da Vida", que ela mesmo iria financiar, publicar e divulgar, sem a autorização de Rafael, era somente paixão. Fraquejava ao pensar. O livro, por sua vez, era muito bom. Muito bom de verdade. Sucesso nas primeiras semanas. Ela em Milão. Rafael em São Vicente, angustiado por ter perdido seu livro, isolado e desolado no seu quarto: no fundo, também, apaixonado. Em uma semana, "Ao Amor da Vida" ganhou enorme repercusão na mídia, nas livrarias, aos olhos dos leitores. Não apenas porque Larissa teve a cara de pau de, surpreendentemente, desfilar em Milão com um exemplar do livro em suas mãos, mostrando a todos os flashes, mas pela crítica honesta dos leitores distantes e anônimos do mundo das imagens da moda. Rafael foi o último a saber de sua fama. Tomou um susto quando a irmã mais nova falou:

- Rafael, seu nome está na televisão.

Era ela. Larissa. Falando, sem ter ainda lido praticamente uma única das histórias.

Em janeiro, na volta para o Brasil, depois de conversarem muito por telefone, Larissa e Rafael finalmente se reencontraram. Ele agora como escritor conhecido. Ela como mulher apaixonada. Abraçaram-se. Beijaram-se. Fizeram amor no hotel. Para ela foi como sentir a felicidade pela primeira vez na vida, a felicidade de um homem em sua vida; para ele foi o amor platônico realizado. Sem livro, sem modelo, sem reconhecimento. Obrigado por ela voltar. Ele não falaria em voz alta. Ao invés de agradecer, ele beijava seus lábios.

- Larissa - perguntou na mesa de jantar neste mesmo dia em que se reencontraram pela primeira vez - sobre o título "Ao Amor da Vida"?

Ela sorriu.

- Feio, né, para um livro.

Ele beijou seus lábios. Nada disse. Sorriu também.

- Eu iria colocar "Ao Amor da Minha Vida", mas senti enorme insegurança. Me senti fraca e totalmente desprotegida.

Ele beijou seus lábios novamente.

- Meu próximo livro, Larissa, o nome será "Ao Amor da Minha Vida".

A emoção. Não segurou a emoção. Deslizaram algumas lágrimas. Rafael não reparou. Foi ela, Larissa, quem beijou seus lábios. Uma, duas, mil vezes. Como por instinto, sussurrou no ouvido dele:

- Obrigada. - e arrematou. Casa comigo?

Terminaram o jantar. Foram para o hotel na região da Paulista, onde se hospedaram, para marcar para sempre as suas vidas. Em beijos que traduziam infinitos agradecimentos. Se casaram em duas semanas e vivem felizes se completando todos os dias...

domingo, 4 de janeiro de 2015

Seu Jeito

Não adianta muito. Há pessoas que criticarão porque não entenderão seu jeito. E isto não é tão pessoal. Eu gosto do meu. Meu jeito tem muita importância sobretudo nos momentos em que o ser humano mais se fragiliza. Coloco o coração e eu vou lá e faço o que for possível. Sustentar um coração frágil para o mundo exige bastante sensibilidade.

Hoje na praia, entre o vento na cara, o clima fechado, o bate papo com meu irmão, caipirinhas e cervejas, o comum foi uma jovem senhora, bonita, esbelta, brozeado lindo, fazendo forças para levar uma senhora idosa, debilitada, passos lentos, mais umas cinco cadeiras. E havia pressa. Começara a garoar.

Eu estava a uns 20 metros. De imediato vi, percebi. Fui ajudar. O bom é que ela não sentiu nada diferente senão o ser humano pronto a fazer uma ação possível cujo esforço implicaria em absolutamente nada em troca. E relembro. Não adianta muito porque o conhecedor de nossas intenções é o nosso coração.

Meu irmão na volta:

- E aí, está melhor com a boa ação?

Nem respondi a ele e nem me imaginei em uma ação boa pelo óbvio que me pareceu uma cena desta diante de meus olhos. Que o mundo julgue! Mas que o coração acolha e nutra suas boas memórias.

Basta até mesmo sentir a necessidade de amor, apoio, afeto, cuidado, proteção, ajuda, e sendo possível, não consigo ver o porquê não... Não adianta muito mesmo assim. O mundo julga para evitar agir. O julgamento, portanto, é a ausência. Como assim? Julgar é ausentar-se do outro... Reflitamos! Para onde nos leva nosso julgamento? Da mesma forma: para onde nos leva nosso coração com amor?