A arte de não deixar o seu próximo sofrer. Poucos sabem da arte de não deixar o outro sofrer.
Apenas quem um dia na vida superou a dor da falta de sentindo de sua própria existência compreende que viver feliz envolve o não sofrimento daqueles que você ama, amou, ou ao menos estão próximos a você.
Não generalizo. Eu confirmo: ser feliz é evitar o sofrimento de quem você ama, amou ou convive.
Excetuando o sadismo, que é o prazer no sofrimento externo, e portanto um distúrbio neurológico, fazer sofrer é vingar-se. Alivia por pouco tempo. Sim. Alivia o coração magoado, cheio de rancor. Ver sofrer quem o fez ou faz sofrer é aquele pecado chamado vingança. A vingança não é uma dor alheia e uma delícia interna: ela é a morte de ambos. Ninguém se vinga sem consequências negativas para si mesmo.
Me lembro que com 18 anos eu deixei uma jovem de nome Laura sofrendo em um ponto de ônibus, em São Miguel Pta, na frente de uma loja das Casas Bahia. Era noite. Em minha vida até então foi a segunda menina que havia se apaixonado por mim. A primeira foi a Patrícia.
Fazemos as pessoas sofrerem quando somos inocentes porque não temos meios de evitar. Fiz a Laura sofrer. Terminei o relacionamento com quem me amava. Não a deixei sofrendo, mas saí da vida da pessoa e isto causou dor. Quem aos 18 anos entende para que serve sentimentos amorosos? Me despedi dela. Entrei no ônibus. Dei uma última olhada para ela. E fui.
Não tive arte alguma. Foi o que a imaturidade dos meus anos me proporcionava. Até hoje trago esta memória viva porque no meu íntimo não é correto livrar-se de um sofrimento desta forma que não lhe pertence, sendo você a causa.
Os anos nos evelhecem, nos tornam encantadores, cativantes e mais sensíveis. Claro. Para quem aproveita de verdade a verdade dos anos, apenas sabedoria e encanto se tiram deles. Há quem faz da experiência da vida alguns quilômetros de seu quintal e não vêem o mundo além disto. Nossos sentimentos são nossos mundos em potencial. Pequeno mundo, sentimentos limitados. Todo envelhecimento deveria encantar e cativar. Envelhecer é expendir-se.
Queria que a Laura lesse este pequeno texto. Já procurei várias vezes pelas redes sociais seu perfil, mas não me recordo seu nome completo. Em todo caso, eu registro agora que não tinha ainda a arte de não permitir o sofrimento sem necessidade. Hoje não permito eu fazer sofrer.
Sei que o perdão vem da inocência e boa intenção. Minha intenção não valia nada aos 18 e minha inocência era enorme. O perdão da Laura pode existir, senão até hoje ela deve ter mágoa de meus 18 anos, ou melhor, rancor que é a eterna mágoa o que perduraria até hoje, nos meus 41 anos.
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