ONTEM matei uma saudade. De quebra, descobri que tenho algo de inocente. Segundo ela, uma inocência positiva. Insisti que não. Não sou inocente. Ser inocente tira a visão futura das consequências dos seus atos; ser inocente não o conecta ao passado para supor e reconstruir as possíveis causas; ser inocente cega as subliminares intenções e mensagens do presente momento, às vezes bem escondidas, até inconscientes.
Inocência, própria da infância, da adolescência em alguns aspectos e de uma eterna ingenuidade a qualquer idade.
Deixei lá em minha cabeça a ideia. Matava aquela saudade e refletia sobre a inocência. A Idade do Ouro quando viveram Adão e Eva antes da queda. Conhecida como Idade da Inocência. A Queda, consequência da desobediência, fez com que ambos, Adão e Eva, vissem a nudez um do outro e suas malícias, suas intimidades, seus segredos. Descobrir-se nu amadurece; na nudez perdemos todo pudor.
O corpo nu. Sem pudor. Próprio das crianças e suas inocências.
Refletia em minha inocência. Eu dirigia. O pensamento solto mesmo. Eu não sou inocente. Em que fui inocente?
Tanto pensar, indaguei se não fora minha saudade. Esta minha saudade, que matei ontem, viu-me inocente. Algum ato falho? Ela é inteligente. A inteligência me desmorona. Fico refém mesmo. Ah, e como sei que matei a saudade? Quando uma pessoa faz bem só por estar ao seu lado o presente se justifica. Matamos a saudade.
De repente, foi isto mesmo. Minha saudade, minha felicidade, o sentir tranquilidade e satisfação. Tive lampejos inocentes? Lampejos de criança feliz? Provavelmente.
Também provavelmente, eu não sou mesmo inocente. Prefiro achar que sou respeitador. Jamais ultrapasso o limite. Nem que todas as evidências possíveis existam. Se meu coração não sentir a falta de ambiguidade, dúvida, hesitação, inseguração, prevalece a minha inocência. Isto porque amo a entrega, porque a entrega é a confiança e a certeza.
Não sou inocente. Mas posso estar inocente. Amei isto.
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