Hoje falei de poesia. Poesia na sala de aula. Aula de inglês. Lembrei que poesia confunde-se com o belo. Vou colocar o Belo assim. Letra maiúscula. Confundir não devemos.
O Belo faz vertigem em nossos sentidos. Em todos os sentidos. Nos acalma, seja nas lágrimas ou na satisfação de preenchimento. O vazio pode não transbordar. Nós podemos não transbordar.
Geralmente abafamos o que verdadeiramente sentimentos. Não vamos além da nossa proteção emocional porque acredita-se na frieza dos sentimentos que um dia sublima e se dissolverá no ar. Equívoco. Mais belo e digno e saudável é admitir a dor, a preocupação, a ansiedade, a dúvida, mesmo assim persistir. Como propósito firme para a vida, ou para os anos que faltam.
Disse, em minha aula de inglês, que dei aulas por sete anos de literatura. Dos meus 19 aos 21 anos memorizei dezenas de poemas. Entre 1993 a 1995. Longos poemas a maioria. Tinha tempo. Tinha estranhamento. Tinha medo. Tinha uma busca interna sem mapa.
Na poesia e nos poemas e na leitura ia buscando caminhos internos dentro do meu solitário quarto. Ah, e também escrevia. Muito. Centenas de poemas. Havia noite, dois, três, quartro poemas. Perderam-se todos. Restou minha alma em acelerada reconstrução manipulada do que eu fora. Restaram minhas memórias do que eu era.
Por graça, hoje na sala, eu declamei um trecho de um poema de Gonçalves Dias. Um trecho. O início.
Ainda Uma Vez Adeus
I
Enfim te vejo! - enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!
II
Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!
III
Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esperança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!
Este poema é longo. Bonito. Belo. Longo. Eu o tinha em minha mente como uma canção. Amo a arte. Sempre fui excêntrico. Hoje sou endógeno. E estou feliz. Sinto-me feliz. Agradeço.
Superar o que somos diaramente traduz-se em poesia. Ela supera e nos supera. A poesia. Estou feliz e pretendo permanecer assim. Na espera não da Felicidade, já que eu a tenho. Na espera, porém, do Belo. Um dia falei que deixar bonito deve ser nosso objetivo. Eu creio. Eu espero.
Sorria para o mundo. O meu mundo sorri para mim. Eu sorrio de volta. Sem angústia. Quero sempre falar de poesia. Amar minha poesia. Minha poesia. Olhos marejados. Sempre esperança. Minha poesia. O resto é incompreensão manipulatória. O que não é Belo incomoda. Minha poesia.
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