Não permita-se. Do erro. Erro comum. O erro de ser igual. Ser um dos modelos encaixados no mesmo perfil replicante. Sim, eu sei! É mais fácil, cômodo. Ser igual e reproduzir-se igual. O desafio diminui. Gasta-se menos energia. Equilibrá-se na divisão infinita das partes. Ser comum aproxima os comuns e afasta os incomuns.
Ser igual somente conforta quem se dá bem com o anonimato, ou com a segurança porque desaparece na multidão. A multidão encobre, suga, deixa seu eu numa patética forma acabada de linha de produção. Particularmente, isto sempre me incomodou e me incomoda ainda. Faço-me por fora um comum. Por dentro são estas palavras incomuns que chegam a assustar, surpreender às vezes, causar algum cansaço, provocar dissintonia, mas também acalmar os não comuns.
Uma amiga querida minha que aliás não fala mais comigo, e que eu a conheci quando ela tinha seus pueris 13 anos, e que por sinal fez a Apresentação do meu primeiro livro, certa vez, em 2006, descreveu-me assim:
"Ele usava barba quando nenhum jovem da idade dele. Ele arriscava a Hering branca quando os mocinhos variavam a cor da pólo. E talvez ele até não fizesse questão do banho diário… Enquanto os outros usavam gel no topete e nas espinhas para secar. E o discurso dele de outrora, uns 10 ou 12 anos atrás, era aquele abominável pelos seus iguais, salvo uma ou outra adolescente que caia de amores pela sua lábia erudita com um “tchan” de Che Guevara. (...) Olho para eles e vejo aquele meu amigo que era assim quando ninguém o era. E olho para esse meu amigo – que na verdade faz tempo que não vejo – e hoje não usa barba, nem faz tantos discursos socialistas, e toma banho todos os dias. Provavelmente ele não tenha abandonado a poesia nem a literatura, mas, na mesma proporção, provável que tenha dado espaço a outros discursos no lugar daqueles que não visavam colocar comida na mesa para uma família de quatro pessoas. Tem horas eu sinto que tanto ele, quanto eu, temos saudades daqueles tempos e, por vezes (várias vezes) queremos agir como se ainda estivéssemos naqueles dias… e acabamos sendo tão ridículos e felizes pelo sentimento da saudade inevitável. Tem anos que não o vejo, e acabei perdendo o contato e a paciência com ele… pode ter sido pela perda da barba de Sansão, que tanto me encantava." -Renata Oliveira.
O mundo nos tende a tornar comuns. O mundo tem outras opções, porém. A opção existe em ser comum por fora. Por dentro, diferente, autônomo, desigual, tendo prazer com o vinho pelo vinho, do cinema, pelo cinema, dos estudos e leituras, pelos estudos e pelas leituras, das amizades pelas amizades que nos fazem sentir quem somos e não mais um homogeneizado. Ser comum é fazer dos prazeres meios para nos tirar da solidão e da carência. Ser incomum é sentar com a solidão e com a carência, agradecendo pelas pequenas boas coisas que o enriquecem.
Meu espírito sempre foi este. Não sabia dentro de mim isto e somente o tempo encarregou-se de ir lapidando, com muito sofrimento necessário (aquele desacordo entre a alma e a vida externa) e a felicidade, que para mim foi sentir os meus próximos felizes. O erro em querer ser igual à multidão é que "a multidão é um monstro sem rosto e coração". (Racionais).
Exato. Ouço Racionais MC. Não para pertencer à multidão. Tudo que faço é pelo prazer de fazer aquilo. Consigo sentir a verdade do momento e espalhar a essência de minha própria verdade. A minha. Não a da multidão.
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