Todos temos uma forma de machucar quem amamos. Ferir corroi as fronteiras do coração. Creio mesmo que nosso inconsciente age para fazer doer as fronteiras do coração do outro.
Na dor não esquecemos com facilidade a origem, não esquecemos a fonte da dor, quem machucou, ainda que a dor em si possa desaparecer. Não quem a fez. Ah, dá-se o nome perdão esquecer quem nos feriu.
O paradoxal é que na felicidade e na alegria existe uma potencial dor. Do mesmo modo, a alegria nos fará sofrer. Por quê? Um dia nos lembraremos dela, da alegria pueril e compartilhada. As lembranças, quando boas, podem ate machucar também. Dá-se o nome a isto saudades.
Difícil compreender que no fundo quem machuca apenas se defende. Refiro-me especificamente a quem ama. Ou apenas gosta, mas não tem a pessoa.
Não creio, porém, na necessidade desta dor, na necessidade de projetar esta dor. Não creio no sofrimento desta natureza. Se somos nossas memórias, quando lembrarmos quem somos será normal recordar aqueles quem fazem ou fizeram parte de nós.
Definitivamente, de um modo geral, as pessoas são nossos paradigmas, nossos modelos, e devem fazer parte de nosso crescimento.
Não vou discutir a necessidade da dor, da angústia, do sofrimento. Já li muito sobre estes temas, que são essenciais para estruturar o íntimo de nós mesmos.
Escrevo para traduzir e não para mim. Ao escrever torno-me tão leitor quanto qualquer outro que pensa sobre o que lê. As palavras são dos leitores e quase nada resta do autor aqui. E, por fim, creio que no mínimo um texto desta natureza deve incomodar. De modo construtivo. Edificante. Vivo.
À felicidade já que as dores serão inevitáveis...
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