Na praia dos Milionários em São Vicente, a água do mar batia na areia, ou melhor, deslizava na beirada suavemente. Um par de olhos, perdido dentro de si, estava quieto, observando o sol que, do outro lado do mar, entre a Ponte Pênsil, descia vagarosamente. Um papel de sorvete se distraia com o balançar das águas impulsionado pelas fracas ondas. Pés fixados na areia. Perto, uma bola de voleibol caia de um lado ao outro, aos gritos, uivos, suor, risos e sensualidade. Sexta-feira. Sexta-feira vaga. Muito calor, paz e solidão na alma de Rafael.
Ele veio de sua casa, a poucos metros da praia. Morava com a mãe aposentada. Caminhou pensativo até o mar. Trazia entre as mãos um punhado de papel. Na verdade, um rascunho, cuidadosamente manuscrito. Cerca de duzentas páginas. Frente e verso. Buscava o título. O pôr-do-sol o inspirava. Trazia o mundo para seu interior. Perdia-se num prazer somente seu. Queria encontrar o que procurava.
Arriscava. “O que pode ser?” Nada. Tirava da areia um dos pés afundados. Mexia de um lado a outro, quando a água vinha. Limpava-o. Água sensitiva e leve. Levantava a cabeça. Mirava os olhos para o finito. Respirava toda calmaria do ambiente. Estava só. “O sol também”, refletiu. E a lua mais tarde. Era uma pessoa contemplativa e paradoxalmente feliz.
- Mãe, quer ir ver o pôr-do-sol?
- Não, meu filho.
Voltaria para casa, pensando em reler seu livro. Descobrir o título. Rafael tinha um jeito particular de solucionar seus problemas. Esperava. Não apenas porque era a única solução e a melhor delas. Mas porque seu trabalho intelectual exigia paciência. Esperava. Esperava e pensava. Olhou para o mar e agradeceu sua solidão encantadora.
- Cuidado!
Voz feminina. Foi o tempo de receber uma bolada no nariz. Tombou lentamente no chão de areia.
- Me desculpe.
Rafael levantou os olhos. Desnorteado pela força da bola, pela areia que entrou nos seus olhos, pelo zumbido horrível.
- Não foi nada - disse.
E se ergueu mais preocupado com os papéis que se espalharam pela areia. Nenhum ficou molhado. A jovem recolheu outros tantos que estavam mais longe.
- Está bem? - perguntou menos preocupada.
- Sim, claro!
Enxergou Larissa diante de si. Assustou-se. A beleza no início assusta. A perfeição espanta e amedronta. O que viu o desnorteou mais do que a bola na cabeça. Nem reparou no sangue que lhe escorria do nariz.
- Começou a sangrar!
Ela retirou sua camiseta branca onde escondia seu biquíni azul escuro. Os seios nem pequenos nem grandes.
- Não, não precisa. - disse Rafael, levando as mãos ao nariz, erguendo-o.
Ela fez que não ouviu e insistiu. Era pró-ativa. Não se vencia pelo machismo enraizado na cultura brasileira.
A partida de voleibol recomeçou há muito sem Larissa. Ela, cansada, deu-se descanso por minutos. Rafael, desconsertado. Ele não era tímido. Reservado porque seu mundo era interno e não das aparências. Não conseguia olhar para ela por mais de dois segundos. Desviava os olhos. Muita beleza fere a alma. Escrevia para a alma. Consciência. Mundo dentro das pessoas. Os originais. Reparou nos originais do seu livro. Alguns em suas mãos. Alguns nas mãos de Larissa.
- Olha a bola! - e outra com mais força atinge a nuca de Rafael.
Após outro susto, entreolharam-se, riram de modo bem expontâneo.
- Melhor a gente sair daqui, sugeriu a menina
- É, respondeu.
Com a camisa de Larissa no nariz, cabeça erguida, preocupado com os originais do livro e ainda queria assistir o pôr-do-sol! Seu livro, nas mãos dela, firme. Agradeceu por ela ter pego antes da água do mar. Não havia cópia. Larissa retribuiu "de nada". Que sorriso! Que dentes brancos!
- Magina.
Corrigiu mentalmente. "Imagina." Sabia ser mala mentalmente.
Ela se apresentou. Rafael estendeu a mão.
- Prazer.
Afastaram-se.
- Olha a bola, Larissa!
Larissa olhou; achou graça. Pegou a bola, que desta vez veio fraca, e devolveu-a para o jogo.
- Ela está te perseguindo.
- Talvez porque nunca fui amigo dela. Parou de sangrar.
Lentamente caminhou à beira do mar. Larissa o acompanhou. Tirou as mãos do nariz. Abaixou a cabeça. A água estava morna, boa para um mergulho. Molhou um pouco a nuca. Depois limpou o rosto. Devolveu a camiseta de Larissa. Agradeceu. Tirou a sua e foi na água. Pediu para ela segurar os originais.
- Que originais?
- Estes. De meu livro.
Não explicou mais nada. Jogou mais água na cabeça, cabelos molhados. “Como a água está quente.” Mergulhou. "Acho que estou nervoso", sussurrou.
De longe, ela gritava:
-Você está melhor agora?
- Estou, retribuía aos berros. Obrigado.
Poucas pessoas no mar. Ele puxava muitas braçadas. Nadou. Nadou. Nadava todos os dias.
Larissa achou-o gracioso. Apenas. Rafael, de longe, reconstruiu em suas palavras de escritor Larissa. Cabelo longo, liso e escuro. Um pouco embaraçado, castigado, pesado por causa do vento do litoral que não o deixava quieto em cachos grossos. Sua pele branca e macia, bem cuidada. Angelical. Os olhos largos e redondos, combinando com a boca média e lábios sedutoramente macios. Se Rafael pensou na maciez dos lábios dela, pensou em seus lábios tocando nos dela. Nariz levemente redondo e pequeno. Todo seu semblante uma harmonia, dentro de um gracioso corpo de quase 1,80m com 59 quilos saudáveis e bem nutridos e bem distribuídos. Rafael, no mar ainda, descobria-a aos poucos e produzia a imaginação com o olhar viril. Larissa, na areia, sentiu o homem aflorar nos jeitos de Rafael e silenciou, consentindo amigavelmente.
Ela abriu o livro. As folhas. Lia algumas linhas. Não conseguia. Não conseguia manter a atenção na leitura. Se perdia. Teve um pouco de vergonha.
- O que você faz? - perguntou Larissa quando sentaram numa pedra próximo.
-Sou escritor.
- Que legal!
-É.
-O que escreve?
- Gosto de escrever histórias. Não tenho nada publicado. Não sou famoso, nem nada disso. Eu falo para mim mesmo que sou escritor porque amo escrever. Moro com minha mãe.
- Esses papéis em minhas mãos são um livro?
- Um livro de contos. Histórias curtas sobre a vida, sobre o que a gente faz no dia-a-dia. Frustrações, desilusões, limites, angústias, mas sempre com um sinal de esperança. Eu estava aqui na areia da praia buscando um título para este livro.
- Estava? Já encontrou um?
- Não! Não! Ainda não.
- E como você cria as histórias?
- Não sei dizer. Quando escrevo, eu me esqueço de quem sou e por isto não sinto que sou eu mesmo quem as cria. Escrevo sobre aquilo que está fora de mim como realidade e dentro de mim como imaginação.
- Escrever é realidade e imaginação? - interrompeu a jovem.
- Pode ser que sim , ele concordou, mas eu penso muito nas pessoas, nos sofrimentos, nas angústias, nas incertezas e escrevo o que as pessoas não se dão conta ainda porque alienadas.
Larissa ouvia atentamente.
- Escrever é estar lá, solitário, criando, compondo, desenhando no papel palavras para leitores. As palavras surgem de um espanto, um pasmo, um momento espiritual difícil de descrever porque é somente a consciência que existe solitariamente. É até interessante porque os amigos que lêem meus textos me falam ‘Mas isso não aconteceu com você?’ Eles perguntam como fosse necessário a gente viver as coisas para poder falar delas. Escrevo o que não vivi e parece que sou eu.
Larissa teve gosto de como Rafael articulava as palavras. Ela não era acostumada a conversas. Embora falasse três idiomas e tivesse conhecido o mundo em viagens, por ser modelo desde os 14 anos, naquele momento, nos seus 25, nunca gastou seu tempo com a boca de um escritor. Seu mundo era das imagens. Da imagem dada e sedutora, imagem do desejo inalcançável da maioria que vê e nunca terá e será. Larissa já havia tido a oportunidade de conversar com escritores badalados. Aqueles que são tão imagens quanto ela. Apenas naquelas formalidades das imagens do mundo Fashion. O inusitado de Rafael parecia o diferente da simplicidade. Areia, mar, sol, vida, natureza, arte. Sentia sinceridade, verdadeira beleza, suavidade na alma. Ela nunca teve amores nos olhos do mundo da literatura, dos livros, dos escritores.
- Modelo internacional? - perguntou Rafael assustado.
- Isto mesmo, confirmou Larissa, mordendo o lado esquerdo dos lábios que fez Rafael quase se apaixonar.
Confessou a ele que lia o que lhe convinha. Lia pouco. Quase nada. Gostava de estar livre quando tinha um tempo para si. Ainda que houvesse um chato de um paparazzo ao seu pé.
- Aqui já vi uns sete me fotografando.
Nem ligava. Não era famosíssima de estar nas revistas semanais, ou na boca dos programas de fofocas. Não. Apenas bem requisitada na profissão o que lhe rendia boa fortuna. A idade já a envelhecia para a moda. Tudo o que tinha que viver nele, já havia vivido. Nos anos seguintes queria intensamente a vida, sem incorporada, como corpo, no mundo da badalação, Fashion World, produto que era e que tinha se transformado. Imagens infinitas. As palavras não eram imagens.
- Eu sou uma imagem, Rafael; você é imaginação. Aliás, eu moro em Santa Catarina desde os 20 anos. Mas sou daqui também, de São Vicente.
Ele manteve silêncio. O sol finalmente caindo. O lindo pôr-do-sol bem no meio da Ponte Pênsil. Dois morros ao lado. O mar como chão e espelho. Larissa hipnotizou-se com ele e ficaram os minutos seguintes sentindo a cena, alí, ao lado de quem valorizava a beleza do olhar na natureza. Beleza da sensibilidade e não da sedução. Ela seduzia com sua imagem. A natureza com a sensação de fazer parte. Nunca imaginou que se sentiria constrangida com esta reflexão.
Depois, o chamou para tomar um suco. Nem se lembrava mais do vôlei. Ele nem do livro nas mãos dela. Foram. Juntos conversaram sobre tudo. Larissa do universo da aparência que conhecia; Rafael do mundo verossímil que criava. Trocaram muitos sentimentos pelo olhar. E o tempo precioso para o deleite dela e para a inspiração dele. Lá fora tudo esquecido. Dentro deles tudo criado.
- Vou para São Paulo amanhã. Tenho passarela em Milão neste fim de ano. Viajo daqui três dias.
Rafael nada respondeu. Concordou com a cabeça. Queria prolongar a conversa. Sentiu, porém, que tinha falado tudo quanto podia para um sujeito tímido como era. Tímido não. Reservado. Ele, então, disse que precisava ir. Inventou uma desculpa qualquer. Despediram.
A noite entrou quente e continuava quente como nunca antes. A vida continuaria.
Rafael, distraído, beijo-a no rosto, disse que estava sem dinheiro para pagar a conta dos sucos, pediu desculpa e foi embora. Larissa manteve-se normal como era. Terminou de beber. Olhou as horas no celular. Reparou nos originais do livro de Rafael em mãos.
- Nossa, disse para si mesma, ele esqueceu.
Iria atrás dele. Não foi. Foi para casa. Com os originais.
Viu o nome Rafael Gaiado. Deixou em cima da sua cama. Foi ao banheiro. Depois do banho, deitou um pouco. Iria para Santos. Um evento simples, altruísta. Parte do contrato. Levantou-se da cama, arrumou-se maravilhosamente linda e manteve-se normal como sempre em sua vida. Deixou o rascunho do livro de Rafael espalhado na grande cama. Foi pega pela empresária, sempre à sua cola.
Larissa, ela nunca havia amado ninguém. Não. Nunca soube da verdadeira natureza do amor. Não sabia. Saiu naquele dia à noite um pouco reflexiva. Sem saber, ela diminuía para si mesma sua individualidade e independência. Rafael crescia dentro dela. Exatamente. Não existe outro sintoma para o amor senão a diminuição de nós mesmos. No princípio, ela não teve a mínima ideia. Quem a tem? Quem tem a ideia original de nossos amores?
A publicação do livro de Rafael, "Ao Amor da Vida", que ela mesmo iria financiar, publicar e divulgar, sem a autorização de Rafael, era somente paixão. Fraquejava ao pensar. O livro, por sua vez, era muito bom. Muito bom de verdade. Sucesso nas primeiras semanas. Ela em Milão. Rafael em São Vicente, angustiado por ter perdido seu livro, isolado e desolado no seu quarto: no fundo, também, apaixonado. Em uma semana, "Ao Amor da Vida" ganhou enorme repercusão na mídia, nas livrarias, aos olhos dos leitores. Não apenas porque Larissa teve a cara de pau de, surpreendentemente, desfilar em Milão com um exemplar do livro em suas mãos, mostrando a todos os flashes, mas pela crítica honesta dos leitores distantes e anônimos do mundo das imagens da moda. Rafael foi o último a saber de sua fama. Tomou um susto quando a irmã mais nova falou:
- Rafael, seu nome está na televisão.
Era ela. Larissa. Falando, sem ter ainda lido praticamente uma única das histórias.
Em janeiro, na volta para o Brasil, depois de conversarem muito por telefone, Larissa e Rafael finalmente se reencontraram. Ele agora como escritor conhecido. Ela como mulher apaixonada. Abraçaram-se. Beijaram-se. Fizeram amor no hotel. Para ela foi como sentir a felicidade pela primeira vez na vida, a felicidade de um homem em sua vida; para ele foi o amor platônico realizado. Sem livro, sem modelo, sem reconhecimento. Obrigado por ela voltar. Ele não falaria em voz alta. Ao invés de agradecer, ele beijava seus lábios.
- Larissa - perguntou na mesa de jantar neste mesmo dia em que se reencontraram pela primeira vez - sobre o título "Ao Amor da Vida"?
Ela sorriu.
- Feio, né, para um livro.
Ele beijou seus lábios. Nada disse. Sorriu também.
- Eu iria colocar "Ao Amor da Minha Vida", mas senti enorme insegurança. Me senti fraca e totalmente desprotegida.
Ele beijou seus lábios novamente.
- Meu próximo livro, Larissa, o nome será "Ao Amor da Minha Vida".
A emoção. Não segurou a emoção. Deslizaram algumas lágrimas. Rafael não reparou. Foi ela, Larissa, quem beijou seus lábios. Uma, duas, mil vezes. Como por instinto, sussurrou no ouvido dele:
- Obrigada. - e arrematou. Casa comigo?
Terminaram o jantar. Foram para o hotel na região da Paulista, onde se hospedaram, para marcar para sempre as suas vidas. Em beijos que traduziam infinitos agradecimentos. Se casaram em duas semanas e vivem felizes se completando todos os dias...
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