quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Atos Falhos

1991. Primeiros dias no primeiro ano do colégio. Eu estava com 16 anos então. Faria 17 em maio. Dois anos trasados. De algum modo me eu compensaria posteriormente.

E nesta época, a canção que não saía de minha cabeça é a mesma que meu filho Pedro, 12 anos, ouve agora no quarto, desenhando (foto). A canção é "Patience" dos Guns and Roses. Muitos conhecem, ainda que poucos tenham vivido o auge da banda.

Há um assovio inicial esta canção. Eu fiquei meio que marcado por duas amigas orientais, a Lucia e a Regina, porque distraidamente eu sempre assoviava esta melodia.Tivesse a consciência que tenho hoje, eu saberia que era meu ato falho, ou seja, um mecanismo inconsciente para distrair pensamentos que eu queria que ninguém percebesse.

Os atos falhos possuem basicamente dois propósitos: tentar esconder das pessoas ou tentar revelar para as pessoas. E creia: somos a todo momento atos falhos.Percepção é algo parecido. Ler as intenções indiretas também. Por isto sou fã de um livro muito interessante cujo nome é "Por que mentimos?". Oras, se não for doença, isto é, anormalidade, mentimos porque muitas vezes queremos que as pessoas descubram a verdade. Acabei de falar dos atos falhos, desta tentativa de comunicação do inconsciente. Portanto, refiro-me à mentira da ajuda, do socorro, do desespero, da leitura ao contrário... (eu leio os atos falhos rapidinhos). O livro a que me refiro é leitura obrigatória para todos que vivem de vendas. Não para mentir. Para ler os mecanismos de mentira (atos falhos) de quem quer comprar.

Qual, então, era o ato falho que em 1991 eu no fundo queria esconder dos outros alunos? Em resumo: o desconforto de não me sentir igual. Eu havia feito supletivo (em seis meses como fosse um ano) da quinta série à oitava. Sentia-me velho diante da maioria. E outros problemas pessoais que, aliás, já narrei alguns no meu segundo livro.

O bacana de saber onde e como caminha seu inconsciente mora no conforto daquilo que você realmente busca no mundo como propósito de vida. Ah, propósito de vida! Quem não o tem? No ápice de minha incompetência para ser aluno de escola pública (repeti quatro vezes), tive ainda tempo e a misericórdia de adquirir vocabulário e estilo para escrever como obfaço. Meu propósito totalmente consciente para escrever. Claro, as palavras serão lidas, julgadas, admiradas e condenadas até. Só que o autor vai junto. Um erro.

Seria verdade confundir o autor com o que ele escreve se fossem atos falhos seus textos. A grande maioria, que tem consciência, porém, não é ingênuo para escancarar de modo inocente sua alma sem saber por onde e como anda seu inconsciente. No momento da canção "Paciente", eu voltei 24 anos. Exato. A sensação inteirinha em meu coração. Foi bom. Muito bom. E neste "bom" existe um turning-point sobre o qual eu já escrevi... Já escrevi, mas que Jung e nem Freud captariam agora. Por quê? Ah, eu sou danado quando tentam invadir a minha alma... Não. Não permito.

Permito revelar o que vale. Vale muito olhar para seus atos falhos e admitir que os tem. Quem tem não percebe. Pode perceber. E se perceber terá um alívio, ua epifania enorme. Bons. Muito bons atos falhos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário