quinta-feira, 2 de abril de 2015

Nosso Tempo

Conversando com uma querida amiga nos seus 36 anos, e eu nos meus 41, disse a ela algo como - a partir de um certo momento - devemos encarar a vida como um tempo e não mais como anos, ou mais precisamente, com a idade que martela um prego para dentro de nossa cabeça, insinuando aquilo que na verdade não somos: idade.

Todos os anos, inevitavelmente, baterão em nossa porta emocional amigos e parentes congratulando-nos pelo ciclo que remete aos ciclos solares sobre a Terra. Chama-se a isto ano. Isto é hábito, tradição, até ritualismo.

Tem suas razões de ser, claro. Mas, como disse, melhor mesmo deixar a cara limpa com o tempo contínuo (temos tempo) do que focar nos anos racionais das leis newtonianas gravitacionais do sol sobre nós. Sendo o ano um ciclo do sol sobre a Terra para a astro-física, o que resta-nos então? O tempo contínuo.

É comum à juventude fragmentar-se. Estimulada pelos pais desde o primeiro mês de vida. As idades como 10, 15, 18 anos são basilares. Cada momento com sua força psicológica e eventual simbolismo social e pessoal. O mundo do tempo presente é infinito aos nossos jovens como foi para nós. Mesmo porque, de um modo geral, na idade da juventude, que obrigação eles, os jovens, tem senão o da descoberta?

O novo seduz facilmente como pouca coisa ao longo de nossas vidas. O novo é sempre ser. Um eterno ser. Jamais um estar. Sou feliz traduz uma perenidade; estar feliz, uma transitoriedade.

Não é por outro motivo, portanto, que pensar em tempo de vida seja mais adequado do que pensar em anos de vida. Somos uma vida e não estamos velhos, ou com mais idade etc:

"Qual a sua idade?", perguntam-me.

"Estou com 41.", respondo, quando poderia me permitir falar: sou um tempo contínuo...

Porém, compromissos como IPVA, Imposto de Renda, Natal, Ano Novo, Férias etc., nos condicionam a viver anualmente. A estar preso aos ciclos anuais. Aí vem o "estou velho", "estou com idade", "estou com 40, 41, 42, 43...". E não um "sou um tempo contínuo, e neste tempo contínuo, sei muito bem o que pretendo, quero, posso ser ou não posso mais." Ser um tempo ajuda sobremaneira. Muito melhor do que estar com idade.

A ideia de recomeçar deve ser uma virtude por uma razão simples (eu disse há pouco): nada seduz tanto nossa mente do que o novo, se acreditarmos que somose não estamos. Recomeçar estando com x idade vai angustiar. Mas recomeçar sendo um tempo, sentindo o universo desafiador, reconfortante, cheio de energia potencial é sublime. Somos um temos. Até o momento em que estejamos todos, inevitavelmente... preocupados em pagar todos os impostos anuais. Inexoravelmente. Somos e não estamos para a vida...

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Neurônios-Espelho: Perdoar as Fraquezas

Imagine que dentro de nosso cérebro temos algumas áreas que são as responsáveis por aprender. Aprender virtual e culturalmente. Parece óbvio. Evidente mesmo. Dá-se, porém, o nome "neurônio-espelho" aos responsáveis por essa coisa simplória de aprender copiando. Isto é fascinantemente revelador.

O que diferencia o ser humano de todos os demais seres vivos neste planeta é a enorme quantidade de neurônios-espelho.

Eles existem em nossos cérebros e entram em atividade virtuais a todo momento. Um exemplo? Cinema. Uma cena em que um homem tomou uma bela cacetada bem na sua parte mais sensível: o saco! Não foi em homem algum na platéia. No entanto, virtualmente a "dor" foi estimulada e reprimida ao mesmo tempo, como se sentíssemos, mas sem sentir: esta é a função destes neurônios em nosso cérebro. Entrar na experiência do outro e aprender.

Viver com bastante estímulo. Por que viver com muito estímulo é importante então? A resposta vem do Ramachandran, neurocientista revolucionário:

"Os neurônios-espelho desempenham mais um papel importante na singularidade da condição humana: permitem-nos imitar."

Não tivéssemos a capacidade de imitar desde os primeiros meses, seríamos 100% instintos e assimilação cognitiva pequenina. Agindo mais com instinto, não teríamos Cultura. Sem Cultura, não desenvolveríamos por exemplo a arte. Sem arte, sem sentimentos, já que não teríamos memórias, uma vez que memórias são emoções arquivados.

Esta é chave para nos deixar sempre abertos para o mundo e para o outro e com o mundo: neurônios-espelhos.

Não reprimir e excitar a função destes neurônios em nossa cabeça devem fazer parte de nossos dias. Os anos e a repressão social parecem inibir essa aprendizagem, que temos. Porém, ela é inata e nos faz ser o que somos: seres de cultural. Ser estimulado a reconhecer a cópia emocional será o passo mais importante da educação humana.

Ter consciência que aprender com a experiência do outro (até para entendê-la melhor) pode fazer parte da vida de todos: claro que nem todos vão, por exemplo, entendê-lo.

Por isto existe o perdão: saber que o outro é mais fraco - usa menos os neurônios-espelho que você. Em resumo:

"... a consciência do outro e a consciência de si desenvolveram-se conjuntamente, levando à reciprocidade 'eu-você' que caracteriza o ser humano."

Desenvolver relações através do ponto de vista do outro. Acho que este é o caminho da liberdade, esta é a chave que abrirá maior entendimento entre as pessoas.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Abraços em seus Braços

Abraços em seus Braços

Em seus braços
Meus abraços,
Eu os encontrei.
Não apenas seus traços,
Eu os encontrei solitários,
Seus braços,
Tão vazios.
Os afetos que ferem,
E eles foram feridos,
Seus braços,
Seus braços vazios,
Em meus abraços,
Eu os acolhi e colhi.
Eu os guardei.
Os salvei do vazio.
Quem vê, nada vê no vazio.
A imensidão.
O nada é uma imensidão
Sem forma, sem essência.
Nos abraços deslancei o laço.
Do nada, puxei.
E subiu aos abraços
No meus braços.
Eu os beijei, seus lábios.
Dos lábios seus, percorri
Seus braços,
Dos braços presos
Aos meus nos seus lábios
Não mais senti a mim.
Era agora o tudo
Amaranhado no nada a mim
Do vazio a você em mim.
Eu em você.
Em nós, nos mesmos braços.
E senti.
E vivi.
E vi.
Quis fugir.
Não mais.
Nossos abraços estão aqui.
Em mim.
Não. Não irei. Não partirei.
Irá tudo o que puder voar.
Tenho braços. Não voarei.
Pode voar.
Quero para mim.
Pode, no entanto, voar.
Os meus abraços, porém,
Eu os quero para mim,
Nos braços de quem
Sorri.
Solitariamente sorri.
Os braços bem abertos para um abraço longo e eterno.

Sistema Límbico

Sistema Límbico. Este termo não me agrada. E dificilmente agrada a maioria das pessoas. A palavra "límbico" evoca "lamber", "lambada", "bico", "umbigo" etc. Existem palavras cujo som confunde tanto e fica até esquisito ouvir, falar e ler. Límbico me parece ser uma delas. Ironicamente quem ou o que provoca esta estranheza emocional toda é justamente ele, o Sistema Límbico em nosso cérebro.

Emoção. Dizem os neurocientistas que nossas emoções são armazenadas e evocadas no Sistema Límbico de nosso cérebro. Um psicopata deve ter mal funcionamento aí por sua frieza; um altruísta e estóico pode ter um super uso deste sistema.

Se uma canção o fez recordar algo ou alguém esquecido, se uma foto causou medo ou pânico, se um olhar do namorado ou namorado deixou o clima tenso e apreensivo, não se preocupe (ou se preocupe!), porque foi seu Sistema Límbico em ação, que neurologicamente nos permite criar afeto ou raiva ou preocupação ou amor.

A partir daí, deste sistema, tudo tem um sentido mais involuntário do que imaginamos. De onde vem principalmente a sensação de auto-condenação. Podemos sentir menos culpa sobre nossas emoções, porque não temos muito controle sobre esta parte do cérebro. O amor e o ódio estão lá de mãos dadas esperando o chamamento emocional. As lágrimas em um filme ou os risos não são muito diferentes. Nosso Sistema Límbico conecta tudo o que nos certa direta ou indiretamente em emoção das mais diversas. A vantagem de saber isto? Nenhuma, senão (como disse) entender que nossa sensação de culpa pode ser atenuada porque nossas emoções tem um fator neuro-físico-social que vai além do que realmente gostaríamos.

Hoje de manhã assisti enquanto fazia ginástica a um vídeo no youtube do neurocientista Ramachandran. Ele falava sobretudo do Visão e da Arte e a relação que a arte provoca em nosso Sistema Límbico por nos fazer seres emocionais. O mundo está um caos. Viver em São Paulo faz cada minuto uma loucura de ir e vir. A maior parte do tempo fora de nós. Poder aprender um pouquinho atenua. Poder sentir emoção também. Está aí uma das importâncias da Arte. Emoção.

domingo, 29 de março de 2015

Memórias, Sonhos, Reflexões

Um dos livros fascinantes para mim é Memórias, Sonhos, Reflexões do psicanalista Carl Jung. Logo na introdução sou arrebatado pelas palavras "vinha vida é um inconsciente que se realizo".

Digo por isto que ao menos se as pessoas lessem a introdução deste livro, mais ricas elas ficariam, mais tolerantes seriam, mais sensitivas viveriam, mais intelectualmente se abririam, mais tolerante a fraqueza do outro entenderiam e - para finalizar - mais a importância dos artistas. Bem, amariam mais os artistas e não a função homem-máquina tão comum em nossa sociedade. Sou professor em sala de aula. Fora de lá, meu olhar é do artista, bem como a sensibilidade. Minha vida pessoal, logo, deve ser parte de um espelho que reflete outras vidas. Nunca, por isto, é pessoal; jamais um artista se comunica da sua pessoalidade. Falando em Jung, arquétipos, ou inconsciente coletivo. Artista sem mídia vive de arquétipos.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Pidgin e Crioulo

Em 1995, na USP, fazia o primeiro ano de Letras. Estudava Linguística, Língua Portuguesa, Literatura e Língua e Literatura Alemã. Daí minha forte base em filosofia. Nos primeiros meses senti angústia, no entanto. Pudera! Um jovem alfabeto funcional não encara com naturalidade as aulas que eu tive. Das aulas, lembro-me o professor falando de "crioulo", "pidgin" na história da língua Portuguesa. Nada entendia. Eram palavras técnicas e estava muito claro que as palavras para mim só tinha sentido concreto. Mesa era a mesa que eu via e sentia; chuva era a chuva que via e sentia; amor era uma sensação que eu cultivei pela Lica ao longo de anos, logo, eu sabia o que era. Agora, "crioulo" e "pidgin" não sentia, nem via, e não entendia. E ironicamente, hoje, dando aulas de inglês, pude no final falar sobre. Falar com propriedade. Explicar. Receber algumas palmas acaloradas e as que mais chamaram minha atenção foi de um aluno que mora em Itaquera, corintiano e de 70 anos. Nunca é tarde. Ele aprendeu o que é crioulo e pidgin.

sábado, 21 de março de 2015

Cultivar

Cultivar. Vi uma foto bonita. Uma casal entre flores. Não flores arrancadas. Flores que florescem naturalmente dos ramos de um espaçoso arbusto. O bonito, além das flores, são as histórias que preenchem aqueles dois sorrisos. Do casal. Eu os conhecem muito superficialmente. Do que conheço, porém, estas flores atuais representam uma transição dos mais variados tormentos que uma vida possa passar. Imaginem que nem assim dá para imaginar quais vicissitudes são. Fato que a idade vem. Fato também que o esgoísmo machuca o prisioneiro. Fato que a prisão só encarcera o corpo. Fato que mente livre tem mais pode do que corpo preso. Uma hora a mente leva o corpo consigo. Por bem ou por mal. Cultivar. Cultivar a liberdade é então não ser egoísta. Não somos livres. Deixamos as pessas livres. Como sinto a liberdade deste casal entre breves flores coloridas. Cultivar a liberdade. Toda mente precisa ser livre. Toda liberdade terá sua própria história. E toda prisão terá seu próprio egoísta. Cultivar. Flores.