segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Experiência

Experiência pessoal que pode valer para algumas outras experiências. Foi numa diálogo com uma amiga sobre um tema diário que de alguma forma consome parte de nosso tempo e de nossa energia. Tempo e energia é aquilo de que precisamos. E paz! Depois que me separei em abril de 2014, eu tive alguns estresses em relacionamentos que não desejaria ter tido. Os estresses foram no conflito entre eu justamente o que eu tinha a oferecer e àquilo que pessoa tinha a me oferecer. Muitas vezes o desequilíbrio causa enormes desconfortos e sentimentos deprimentes a ambos. Falo em termos do que eu entendo de cuidado, preocupação e abnegação, que deixam as pessoas incrivelmente apaixonantes. Não creio em brigas, por exemplo. Não creio em desentendimentos. Não creio em birras e afrontas. Não creio em ciúmes. Não creio em competição explícita, nem implícita. Não creio em vantagens, apelos, nem em chantagens. Mas creio em momentos irônicos quando são exclusivamente para fazer rir. Sou muito irônico. Amo, aliás. Minha crença ainda é fazer todas as pessoas melhores do que elas já eram. Ainda mais se houver consentimento de cumplicidade. Afinal, qual é a essência ao relacionar-se com alguém? Não é ser cúmplice? Meu jeito. Nem sei se consigo, na verdade, deixar as pessoas melhores. Eu apenas quero. Tenho meus vícios e as pessoas têm os delas. Honestamente - tirando meus filho - meus quinze anos de casamento, em particular, me estagnou muito, sobretudo minha vida intelectual e profissional. Não viajei para uma pós no exterior. Não expandi-me como antes o fazia - publiquei meu livro só em 2013, e já tinha o livro escrito desde 2000! Nem mestrado fiz ainda. Nos últimos três anos de meu casamento, era eu fazendo comida, lavando louça e limpando casa. Justo? Justamente aquilo que eu não queria para a pessoa com quem fiquei casado, e presenciei limpando casa, passando roupa, fazendo comida. Não. Havia casado com alguém para ser do lar. Literalmente coloquei-a para estudar, fazer faculdade, fazer três pós, fazer algumas viagens internacionais etc. Ganhei ingratidão em troca. Melhor ingratidão do que a sensação de destruição. (Eu sei a importância do que eu quero sentir). Embora eu ganhasse bem, ainda que eu trabalhava formalmente 5 horas por dia, eu era acusado de ter tempo para poder cuidar da casa. Essencialmente, por meio de chantagens emocionais, eu cedia sabendo que estava tudo acabado. Não havia estudado para virar do lar. Era somente uma questão de tempo a separação. Hoje, com 42 anos, eu preciso tentar sair do estado atual em que me encontro, que é delicado porque todo recomeço do zero é uma incognita. Não me sinto mal. Minha forma positiva de transmitir otimismo e esperança. Por isso procuro não me enfiar em relacionamentos. Quero meu tempo, minha energia bem. Dou das mais variadas desculpas. Da falta de grana à falta de tempo. Pretendentes existem e na essência, muito legais, inteligentes etc., mas não posso exigir abnegação e compreensão na totalidade de meu delicado momento. Não vou ter muita paciência em um relacionamento em que o stress não seja evitado, e seja valorizado. Antes eu tinha, caso fosse necessário ter paciencia acima do limite o normal. Hoje não tenho mais. Eu não posso criar mais pequenos traumas em minha vida emocional, atualmente bem delicada. Veja que tenho até autocontrole para me autoanalisar sem inventar diagnósticos delirantes. Tenho minha paz para oferecer. E acho que é até muito intensa a minha paz. Profunda, aliás. Na verdade é das poucas coisas que sei que tenho para oferecer às pessoas. Ter a autoconsciência de que em qualquer momento que eu fique com uma pessoa, ela experienciará otimismo, verdades, cumplicidade, poesia, correção de pensamento, muita reflexao e muita compreensão. Em outras palavras, minha paz. O espírito humano somente sabe o que é paz depois que quase se perdeu em uma guerra emocional. Se já há alguém dando paz a você, encontre nisso amor e admiração. Valorize. É vaidade querer se feliz com opressão. Vaidade e egoísmo. Nós, brasileiros, não somos educados a respeitar verdadeiramente o outro - ainda que soframos por causa do outro. Oras, respeitar o outro é apoiar os projetos dele ou dela. O mínimo que podemos fazer é trazer-lhe paz.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Diálogo

Diálogo 1

- Então realmente amor é um jogo? Eu acho que é uma escolha. Nem acho que o "amor aconteça também" (para nome de filme, o conceito serve). Não é nada  absurdo quando você permita que aconteça.

- Ponto fraco: aquilo que nos faz apaixonarmo-nos por alguém. Não há total impenetrabilidade. Todos tempos um ponto por onde entrar. Compreende?

- Entendo. Depois me faço compreender melhor. Mas, há de convir que descobrir o ponto fraco de alguém, pode ser usado não com a boa finalidade.

- Oras. Sera?

- Sim, há muita gente tentando provar que pode! Digamos que psicopatas do amor está cheio!  O que eu quis dizer é que parece um jogo usar as fraquezas do outro para penetrar no mundo do outro. Claro que quando se trata de uma conquista concreta, de alguém que realmente sabe o que quer, talvez seja válido. Achei interessante seu modo de colocar isso, porque muita gente usa isso apenas como um desafio: penetrar no mundo do outro, mas depois não saber o que faz lá dentro. Só problematizei seu ponto de vista!

Diálogo 2

- Não acho possível saber exatamente o que nos captura, nos enlaça. Podemos até dizer "Ah, eu não resisto a isso ou àquilo", mas acredito que na real, não sabemos.É um "psiu de luz".

- Pode ser. Mas seria mesmo esse "psiu". Exatamente. Esse "psiu".

- Ah, acho que é assim. Somos apenas capturados por algo.

- E quando nos traduzem esse algo, se for reciproco, as coisas caminham.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Schopenhauer

NECESSIDADE DOS ATOS DA VONTADE

Que a vontade como tal seja livre, deriva do fato de que, tal como  consideramos a vontade, ela é a
coisa em si, a substância do fenômeno.

Este (fenômeno), como sabemos, é inteiramente submisso ao princípio de razão nas suas QUATRO categorias:

1 - Identidade: Maçã é maçã.
2 - Não contradição: Maçã é maçã e não pode ser ventilador)
3 - Terceiro Excluído: ou você está livre ou não está...ou você está amando ou não está.
4 – Causalidade: tudo o que existe e  acontece origina-se de alguma causa, ou seja, deve existir uma razão para sua explicação.)

...e como sabemos também que "ser necessário" é idêntico a "ser efeito duma causa dada", que as duas noções são recíprocas, dai resulta que tudo o que pertence ao fenômeno (da vontade), a
saber, tudo o que é objeto para o sujeito cognoscente (pensante) como indivíduo, constitui a causa por uma parte e, por outra, o efeito, que permanece determinado necessariamente nesta última
qualidade e de nenhum modo pode ser diverso daquilo que é. (Ou seja, a vontade é a vontade; não pode ser outra coisa e ela tem uma causa e um efeito: causa: o ser humano; efeito: realizar a vontade).

Tudo quanto a natureza compreende, o conjunto dos seus fenômenos, é absolutamente
necessário e a necessidade de cada parte, de cada fenômeno, de cada acontecimento pode ser demonstrada em qualquer caso, desde que se possa encontrar a causa de que dependem como
duma conseqüência. (qual a causa de a flor nascer?, qual a causa da água evaporar?).

Isto não oferece exceçôes e resulta da autoridade ilimitada do princípio de razão. Por outro lado, o mundo, em todos os seus fenômenos, é objetividade da vontade, a qual, não sendo ela própria nem fenômeno, nem representação, nem objeto, mas a coisa em si, não está submetida ao princípio de razão que é a forma de qualquer objeto: não é, portanto, o efeito duma causa, não é, por conseguinte, necessária; isto quer dizer que é livre. (A vontade é a maior liberdade possível).

O conceito de LIBERDADE é, portanto, um conceito NEGATIVO, porque contém, unicamente, a negação da necessidade, isto é, a negação da relação de efeito para causa, segundo o princípio de razão. (Ter vontade é ter liberdade; querer ser livre é querer satisfazer a sua vontade). Encontramos aqui, bem pronunciado, o nivelamento dum grande contraste, a união da LIBERDADE com a NECESSIDADE, de que tanto se tem falado nos últimos tempos e sobre o que nada se tem dito, que eu saiba, de claro e de sensato.

Qualquer coisa, como fenômeno, como objeto, é absolutamente necessária: em si, essa é a vontade inteiramente e eternamente livre (ter necessidade é a liberdade de nossa vontade). O fenômeno, o objeto, é necessária e imutavelmente determinado na concatenação (união) das causas e efeitos, que não admite interrupção de sorte
alguma. Mas a existência em geral deste objeto (vontade) e o seu modo de existir, isto é, a Idéia (da vontade) que se manifesta nele, ou, por outras palavras, o seu caráter, é fenômeno imediato da vontade! Esta sendo livre, esse objeto poderia, efetivamente, não existir, ou ser outro, original e essencialmente; mas nesse caso, também toda a cadeia, de que é circular, e a qual é também fenômeno da vontade, seria de todo diferente; mas, uma vez realizada (a vontade), esse objeto tomou na série de causas ou efeitos um lugar necessariamente fixado e já não pode ser outro, como não pode trocar, nem sair da série, nem desaparecer.

O homem é, como qualquer outra parte da natureza, objetividade da vontade; por conseguinte, o que acabamos de dizer aplica-se, igualmente, a ele. Como qualquer coisa na natureza tem as suas forças e as suas qualidades que contra uma ação determinada reagem duma determinada maneira, e constituem o ‘seu caráter', assim também o homem tem um caráter, em virtude do qual os motivos (seus motivos pessoais) lhe provocam os atos de necessidade. E por meio destes atos que se manifesta o seu caráter empírico (prático), que
revela a seu turno o caráter inteligível (incompreensível), a vontade em si, de que ele é o fenômeno determinado (o homem pode ter suas próprias vontades).

Mas o homem é o fenômeno mais perfeito da vontade: a sua conservação exigia que fosse assistido por uma inteligência de tal sorte desenvolvida que fosse capaz de elevar-se até ao ponto de tornar-se, na representação, uma repetição adequada da essência do mundo; esta repetição, este espelho que reflete o mundo é a concepção das Idéias (nas votades): apreendemo-lo no livro terceiro. A vontade no homem pode, portanto, chegar ao pleno conhecimento de si: pode conhecer clara e inteiramente a sua própria essência tal qual se reflete no mundo."

(Livro O Mundo Como Vontade e Representação, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer - 1788-1860)

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Vejo o mar

Na praia de Boiçucanga. Vejo o mar ali, e o vento me afaga a temperança. A pele acalma-se suavemente pelas ondas e águas trêmulas incansáveis. Não é o pôr-do-sol ainda. Nem o amanhecer. Pergunto à minha reflexão em meu ermo existencial: o que são estas sensações, que sinto na pele, na consciência, no olhar? Sem resposta, a vida silencia-me a alma e me faz respirar profundamente. Lá, não longe de mim - estou na areia - vejo um barco feito pelas mãos dos homens. Ele sobre o mar, que foi feito pelas mãos de Deus. Eu não creio em acasos. E, por instantes, minha alma em conflito acalma-se. A arte me acalma. Busco na tarefa da escrita a eternização deste momento. E com uma fé exageradamente agradecida, deixo a vida sorrir para o mar, sorrir para os morros que me cercam, sorrir para o sol e para o vento. Por fim evoco Deus, criador de tudo isto para quem crê. E criador de mim mesmo, que creio, que sou passageiro neste mundo, mas aos olhos da eternidade, um milagre, semelhantemente a tudo e a todos que me cercam. E agradeço. Muito obrigado. Muito obrigado. Ser grato é o caminho para a paz interior.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Crítica

"Perguntei para mamãe o que era a morte e ela me respondeu que era a vida na sua mais bela forma..."
                                       Contos Suaves - Flavio Notaroberto.

   Esse conto me fez lembrar de uma outra historia, uma menina aos 11 anos de idade, sua mãe muito doente, veio a falecer. Sem muito conhecimento sobre a vida e o que havia acontecido diante todo aquele sofrimento, se fechou para o mundo.
   Sem sentir o que queria realmente sentir, talvez por falta de conhecimento, preferiu simplesmente acreditar que a dor não lhe seria bem vinda, deixando e tentando simplesmente não deixar doer naquele momento, pois sabia que deveria ser forte.
    O problema é que a vida passou muito rápido, e dos 11 aos 24 muitas coisas havia lhe acontecido, era forte e sorria tentando não evidenciar que suas lembranças havia parado na época em que sua mãe vieste a falecer.
Se tornou madura em muitos aspectos e em outros era ainda uma criança rebelde e mimada, esqueceu-se da vida, não se permitiu sonhar, entrou em guerra consigo mesma, desacreditou da família, e muitas vezes de Deus e aos 24 para os 25 anos acreditou em superação.
  Nessa época ela despertou o conhecimento do Luto, permitiu sentir a dor que até então tinha guardado para si, caiu, chegou ao fundo do poço, pediu a Deus ajuda e buscou então poder sobre si mesma.
  O poder sobre si mesma era a pior fase, naquela situação os sentimentos era dominar-se a si mesma e entendeu que DESISTIR era, de certa forma, morrer em vida.
  Por anos ela havia falecido dentro de si mesma, sonhos era somente para quem estava vivo.
   Um dia ao observar um Girassol, perguntou para sim mesma, e se eu vivesse? Tivesse sonhos, metas? Acredito que minha mãe iria ficar orgulhosa.
  E foi ao pensar nesse momento que admirava o girassol, e lendo um verdadeiro conto suave  lhe disse, pela manhã: A vida na sua mais bela forma é permitir que os fatos acontece e que ela não teria poder sobre tudo, nem de si mesma.
  Permitir (se permitir) é a palavra chave, foi então que houve dentro de si um sentimento e o inicio de uma superação.
                         "A morte em vida"

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Trecho Miguelito

"Ouvindo, surpreso, encantado, apaixonado, antes de o padre Miguel fazer qualquer comentário, Mariana concluiu:

─ Esta é minha visão do que as pessoas entendem por fé: eu não tenho filosofia: tenho sentidos. Semântica são meus sentidos que traduzo através do meu corpo, que capta o mundo e o transforma em pensamentos.

Padre Miguel então sorriu com a alma, com os lábios. Foi de contentamento, não menos eufórico. Mariana voltou para cama. Devolveu-lhe parte do lençol. Ficaram agora abraçados, em silêncio. Fazia calor. O toque do abraço tem a dimensão de aquecer todo relacionamento. Ficaram abraçados por minutos. Silêncio. Religiosamente respeitado. Padre Miguel sem voz para expressar. Gostou de despertar desta forma. Sexo rapidinho para lubrificar o corpo. Momento de expansão para ter a certeza de que a alma existe. Silenciou até quando pôde. Seriamente quis fazer do silêncio o agradecimento. No início da tarde, ele tinha que ir à escola do Miguelito para uma reunião com o professor Zazen. Antes, ele diz a ela:

─ O filósofo medieval católico Santo Agostinho, você o conhece?

─ Só ouvi falar, respondeu sonolenta, que na verdade era letargia de felicidade.

Padre Miguel buscou de memória sua definição de Deus, escrita por Santo Agostino nas Confissões. Foi a pedra angular que o fez abandonar a futura carreira de médico.  Arrebatador para ele e para a sua depressão.

Mais sisudo, ele não se ergueu da cama. Nem tirou o lençol. Mariana aos seus braços, protegida emocionalmente das guerras dos homens. Ele vasculhou, de memória, os trechos de Confissões, de Santo Agostinho até descobrir a parte que lhe interessava. Não exagerou na dicção nem na retórica, nem na oratória. Foi mesmo com a simplicidade de quem está agradecido por ter alguém tão especial quanto a Mariana ao lado.

─ Presta atenção.

─ Fala.

Ele falou como se fumasse um cigarro e dava pausas para longas tragadas. A verdade, no entanto, era que ele segurava as lágrimas. Deixou escapar algumas, entre uma linha e outra. Relembrar era um filme pessoal que marcou dores, dividiu almas, fez de sua vida o que podia para não sair dela pelas portas do fundo e da solidão e da escuridão. Fosse entregue à dor, aquele momento na cama, aos braços de Mariana, não existiria. Não quis imaginar esta possibilidade, e foi citando as Confissões:

"Que eu amo, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo o meu Deus. E, contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo o meu Deus. Luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contem, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contato que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo meu Deus."


─ Interessante, disse ela. Continuo não crendo em Deus.

Ele sorria e se antecipou.

─ E eu continuo amando você, Mariana.

E tocaram os lábios com carinho e ternura. Era manhã despretensiosa.
Literária e filosoficamente, silenciaram agarrando-se. Nenhum contraditório supera as obrigações do dia-a-dia e eram quase dez horas da manhã. Padre Miguel tinha que ir à escola. Estava bom. Muito bom ainda amar desta forma."

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Jovens

Aos jovens deveria ser dado todo o monopólio dos sentimentos encantadores de descoberta; aos adultos a confraria de todas as sensações permitidas e vividas em que os sentimentos renovados passassem bem superficialmente como coisa nostálgica, sem a importância que o sofrimento e o deleite dariam a eles. Nós, homens e mulheres adultos, não somos uma casa sem moradia, ou melhor, não somos uma casa abandonada e baldia. Nossa memória faz o papel dos quadros nas paredes, dos livros na estante, dos filmes abandonados na prateleira, dos ambientes dispostos e mobiliados. Olhar para dentro de si, quando adulto, são paisagens descobertas sem espanto, sem assomo, sem assombro. São nossas próprias paisagens fugitivas e furtivas. Reviver sentimentos depois de adulto, claro, que é válido. Um 'novo' amor? Não sei, porém, se adequada esta disputa com a juventude. A juventude sabe que a dor da separação é eterna, que o amor correspondido é sublime, que nada neste mundo é mais importante do que os prazeres da liberdade e da própria vontade realizada. A pouca experiência dos jovens faz a novidade certa e única. Meus irmãos que consagram seu tempo à vida com a experiência de décadas passadas, como eu, eu os convoco à reflexão noturna ou quase diurna do Horário de Verão, com uma hora temporariamente roubada de nós. Deixemos aos jovens as reais descobertas do que já somos. Sofremos porque 'viver é sofrer', nos sugere o filósofo. Para os jovens sofrer é viver sem a mínima noção do porvir. Não há melhor compreensão do que somos, senão viver é sofrer. As décadas nos envolvem da cabeça aos pés inùmeros sentimentos contraditórios, e isto é sofrer. Nada sobra em nossa confusão sem paz. A não ser nossas memórias. Eu gosto de pensar assim: aos jovens suas vidas entregues às experiências; a nós as experiências como sinal de vida. Somos lá um tanto jovial, mas para que mesmo? Querer aprisionar o quê e com quem? Ser livre é seguir. Os jovens, sem saber, estão se prendendo para descobrirem algo que os adultos amam ter: a real liberdade. Terminou depois dos 30? Sorria. Definitivamente não somos mais jovens.