A chuva começou fraca na região da Paulista. Ricardo Hossonaro Neto apressou os passos ao sair da Rua Pamplona para entrar na estação Trianon Masp. Recusou várias vezes compartilhar o guarda-chuva, ainda que Olavo insistisse com veemência, censurando-o, repreendendo-o, mimando-o, abraçando-o ombro a ombro.
- Recuso-me, Olavo. "Filho de soldado é superior ao tempo", dizia meu avô.
A garoa forte. O neto do soldado reivindicava para si que tinha certo brio íntimo familiar a preservar, com o qual não negociava em circunstância alguma.
"- Filho de soldado é superior ao tempo, minha filha."
O orgulho era herança da herança ideológica da recém-falecida mãe cujo pai, também falecido, reformou-se General de Brigada do Exército em 1983. Uma semana antes de morrer.
No Golpe de 31 de Março de 1964 era major. A patente final de general viera ao falecimento do seu avó, Hossonaro, que lembrava com orgulho à filha: "filho de soldado não usa guarda-chuva; filho de soldado é superior ao tempo."
Ricardo Cabral Hossonaro Neto tinha três anos quando o avô recebia as Honras Fúnebres e Comunhão de Pêsames, e narrava ao namorado Olavo, ambos dentro do vagão do metrô, sentido Paraíso que nunca usou guarda-chuva. O céu no cemitério no dia do sepultamento do avô amanheceu opaco. Ao meio dia, o sol fortaleceu. Ao entardecer, próximo do sepultamento, despencou forte chuva de verão, que resvalou garoa persistente durante a marcha fúnebre.
- Filho de soldado, lembrava-me a minha mãe, comigo no colo, ao longo do cortejo, é superior ao tempo; deixe a garoa secar nossas lágrimas.
- De fato, Olavo. Nenhum soldado fez uso de guarda-chuva. Do cortejo à cova, recordou, quando subiam os três andares do prédio onde moravam, sem nunca usar o elevador - até nas compras. Eram ecológicos.
Olavo ouvia com os olhos nos degraus.
- Nem minha mãe o fez, Olavo. Deixou-me ao colo sentir as gotas leves que pareciam vidas que me tocavam a face. Eu gostei da sensação da humidade em mim.
Chegaram no pequeno corredor. A porta do apartamento 301. Era fechada com apenas uma trinca e religiosamente uma única volta na fechadura. Segurança real se conquista com fé, assim como o verdadeiro amor, sussurrava para Olavo.
Entraram no apartamento financiado por ambos. Era espaçoso e aconchegante para amigos e familiares. Ricardo foi direto ao banheiro. Apenas para lavar as mãos. Olavo para a cozinha. Tirou do freezer uma lasanha vegetariana com molho branco, feita pelo próprio Ricardo, que tinha como passatempo a culinária. Congelar era apenas a modernidade, a praticidade, a correria, o tempo enxuto para outros prazeres do coração. Tudo natural.
- O tempero pobre, Ricardo? Deliciosa. A lasanha está deliciosa.
- Mas não me agrada se não for fresca.
- O que agrada você, Ricardo?
- Me agrada sentir saudade de minha mãe neste exato momento. Ter as suas lembranças.
- Faz tão pouco tempo.
O vinho na mesa era branco. Vinho verde para ser exato. A adega na sala não mais do que sete garrafas de diferentes cantos do mundo, embora as rolhas dezenas em um decanter para as boas memórias. Virou mania de Olavo.
Ricardo viajava vez ou outra para a Europa. Era fotógrafo profissional de moda. Vivia muito bem profissionalmente, aliás. Tinha a lista do que Olavo amava quando ele o buscava no aeroporto de Guarulhos. Um beijo antecedia sempre o abraço. O abraço era a saudade; o beijo era o amor. E se beijavam quase invisivelmente.
- Semana que vem vou a Milão para registrar a semana da moda para a revista.
- Nossa! E não me disse antes por quê?
- E quem sabia? Goeffrey me intimou a ir hoje.
- Ele não vai?
- Está com câncer. Amanhã entra em tratamento.
O jantar transcorria bem até então. Inclusive a novidade esquisita de ser o repentino fotógrafo na Semana da Moda em Milão, que seria rapidamente ingerida pelo Olavo. Ele desconfiou porque quem ama cuida. Depois se arrependeu. O silêncio total veio do Ricardo que esvaziou a terceira taça, quase não tocou na lasanha e pediu licença com muita afetação.
A porta do quarto foi fechada com muita sensibilidade. Os passos trêmulos.
Olavo juntou as sobras dos sentimentos espalhados sobre a pequena mesa íntima de jantar, agora silenciosa. As duas taças de cristal. A garrava vazia. Pratos quase rasos. Guardanapo de tecido da MMartan. Talheres pesados. Tudo levado à cozinha. Cuidadosamente limpa e limpos. A mesa impecável. A rolha, desta vez, colocou-a ao lixo. Queria delas boas lembranças.
- Quando soube?
- Hoje pela manhã, disse na cama.
Ricardo não escondeu os olhos vermelhos. A luz da televisão na Warner, o abajur furta-cor, a lua e pontinhos de estrelas deram o tom do brilho interior da lembrança do dia em que a própria mãe falara-lhe daquela palavra em seu ovário. Nem havia ainda Olavo. Olavo era um sonho distante, cheio de jovialidade que depois o revitalizaria, e morariam juntos. Ele conheceu a sogra anos depois já definhando. Tornou-se mais um filho tardio. Trabalham agora na mesma agência. Se conheceram nela. Dela saiu um amor cúmplice. Olavo tem sido seu conforto e sua proteção, que é o mais belos que os jovens trazem aos anos desgastados.
- Eu estou aqui ao seu lado, disse-lhe, abraçando-o pelas costas. Não importa o tanto de dor que a perda traga. Quero ser seu ganho enquanto estivermos juntos. Sempre juntos. Canta comigo “é lindo; é lindo e mágico tudo entre nós; entre mim e você; para sempre”.
Àquelas palavras, cantadas por alguns minutos, o neto do soldado fechou os olhos e pediu com muito carinho para desligar a televisão.
- Não vai escovar os dentes?
- Não vou. Tomei dois calmantes. Preciso dormir. Preciso descansar. E obrigado por você estar ao meu lado.
Minutos depois, Ricardo apaga. Literalmente. A televisão é desligada. O dimmer totalmente escurecido. Olavo ainda acariciou os cabelos parcialmente grisalhos do amor que lhe arrebatava a alma, cantarolando a letra. Catorze anos de diferença. Olavo ainda pensava de Ricardo um jovem homem maduro e que o clareamento de vários fios vinha das dores reprimidas, porque o desconforto social do que queria ser, ele nunca libertara do seu amor e da sua natureza; sempre reprimindo. Diferentemente de Olavo, diferentemente dele. Aceitou seus sentimentos. Beijou o mundo, seja com amor, seja com prontidão, seja com raiva, seja com rancor, seja com ódio, seja com indiferença, seja sem temor. Nunca de cabeça baixa.
- Durma bem, meu anjo, reforçou buacando-o que lhe escutasse, dando um beijo em seus lábios. Amanhã cedo preparo seu café e vamos caminhar no Parque da Aclimação. Estou aqui e sempre estarei aqui.
Ricardo quase sedado. Olavo deixou o quarto sem barulho. Voltou com um pouco de enxague bucal num copo. Molhou o dedo e esfregou nos dentes do amado. Por três vezes. Com uma toalhinha, seco os lados e os lábios que tornou a beijá-los. Depois fechou a porta definitivamente como guardasse um tesouro. Pegou antes um lençol e seu travesseiro de pena de ganso. Deitou no sofá da sala. Ligou a televisão quase sem som. E dormiu bem lentamente desejando naquele momento o bem maior que era a paz interior do seu amor.
Com suas palavras, de seus vinte e um anos, refletiu de modo livre algo parecido com a vida traz seus aborrecimentos contra os quais se devem lutar. Muitos aborrecimentos, aliás. O problema, porém, são as ideias semelhantes a “filho de soldado é superior o tempo”. O ser humano vive e faz parte deste mundo. O que se constrói de ideias e ideologias vem de fora. Está aí o enorme problema. A falta de respeito vem da vontade de querer impor-se de qualquer forma. Um estupro mental. Toda vontade em se querer impor um pensamento é uma doença. Nem sempre tratável. Mas combatível. A paz vem pela luta. Não há paz através da tolerância ao intolerante. Não há paz possível apenas na fuga. Contra a intolerância a maior defesa é a luta. E luta real. Realíssima. Viver não é fugir. Estou com você, sussurou para o amado em pensamentos. Sempre estarei. Filho de soldado pode amar livremente quem quiser...
(Flavio Notaroberto)
Escritor e mestrando em Literatura e Crítica Literária pela PUC. Autor dos livros Contos Suaves (2013) e Não é Conto nem Fábula, Lenda ou Mito (2014). Lançará seu primeiro romance, Miguelito: Memórias, em 2016.
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