Quando perdemos a capacidade de amar, não implica necessariamente falta de vontade de amar, ou mesmo de insensibidade de frieza e indiferença ao próximo. Somente não conseguimos realizar aquela ideia de amor com facilidade. Não iludo quem quer que seja. Quero amar, mas creio ter perdido a capacidade. Amar coloca em perigo a liberdade recíproca. Destruindo inclusive as ilusões e expectativas recíprocas. Começo a suspeitar que tenho perdido a capacidade de amar em nome de minha liberdade e falta de ilusão. Faço uma ressalva, claro. Perdi a capacidade de amar e de querer ser amado também. Porque ser amado é uma permissão que damos a uma vontade alheia a nós que nos quer. Não amo e não permito que me amem. Cabe a nós alimentar ou simplesmente estancar qualquer fonte que nutre o amor por nós. Temos de ter enorme desprendimento. Sem alimento, o amor nos amando enfraquece, definha e morre. Claro que eu temi estar entrando em depressão. Estive refletindo bastante nos últimos meses sobre esta hipótese. O que estaria acontecendo com meus sentimentos? O fato de não estar conseguindo amar implicaria eu não conseguir amar a mim mesmo? Ou estou desaprendendo os sentimentos, ficando apático e indiferente a eles? Essa possibilidade é real na vida humana, a apatia. Não é falta de felicidade, nem de tristeza. Ainda que tanto a apatia quanto a felicidade possam ser reais. Assustadoramente reais. Depressão é apatia aos próprios sentimentos incapazes de existir em nós como antes. Voltar a ter depressão é quase que impossível à luz do meu tempo de vida atual e da autoconsciência da vida que tive, que tenho e que pretendo ter. Todo cuidado é pouco. Sofri depressão por quatro anos quando adolescente e início da minha maturidade. Não sabia o que aquilo era claramente. Nem eu, nem familiares e amigos. Terminaram-me tachando problemático, desajustado, antissocial. O tempo foi o senhor de tudo. O tempo esteve no controle. Particularmente, aprendi a amar a Deus nessa época. Superei o desconhecido. Dominei o desconhecido. Por temor que eu tenha, sofri demais para permitir sofrer novamente. Minha falta de capacidade de amar não vem de depressão, nem de melancolia, nem de tristeza, nem de apatia. Estou fugindo do amor por medo de sofrer o desprezo? Pouco provavelmente. Acho que não me preocupo mais com o que pensam de mim. Quero dizer, adoro viagens emocionais, expondo-me a muitas delas. Desde que sejam novas e sinceras. Refiro-me, por exemplo, se for convidado, a uma roda de fogo, com batuques e movimentos corporais. Vou. Batuco. E até danço. Fecho o ciclo sem ser mais ou menos do que eu era, senão nova experiência. Um dos grandes desconfortos na alma de quem escreve é não querer transmitir o que não agrega a quem lê. Inclusive o radicalismo poético de um recado simples, feito "eu amo você" pode ser mal interpretado. Se eu amar, certamente a pessoa quererá exclusividade emocional se ela me amar. Claro que não é bem assim. Por isso mesmo não me engano ao criticar a minha falta de capacidade de amar. Não é bem não amar. É desistir de continuar amando assim que o coração acelera e a mente começa a não se esquecer. Respiro e controlo-me. Exclusividade a mim mesmo é algo que quero. Não desejo roubar pessoa alguma dela mesma. Recolher-se em si mesmo tem um preço. E para pagar essa fatura de independência emocional estou relativamente bilionário. São os anos de muita vida emocional.
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