"Será que algum dia na vida eu saberei o que é ser amada por alguém?"
A pergunta foi feita para mim e me deixou por segundos sem saber o que fazer. Ela entrou como um drama shakesperiano. Eu não poderia dizer que sim, que ela seria amada por alguém. Ela perguntou sem olhar para meus olhos. O nosso contexto, porém, era que da parte dela eu declasse um amor inexistente e em seguida a beijasse na boca. Porém, nunca passou pela minha cabeça ficar, beijar, namorar ou mesmo amar essa jovem. À época, fazíamos USP juntos. Ela no mestrado e eu ainda formando. Ela me dava carona até um certo trecho e depois eu pegava o ônibus. Fomos assim por semanas e semanas. Sem eu perceber (eu era ainda ingênuo) cresceu no coração dela amor por mim. Fui vítima de minha própria gentileza, de minha sincera atenção, de minha natural preocupação ao querer ser querido como amigo. Sempre fui comunicador. Ou melhor, sempre fui falante, a ponto de algumas meninas falarem "pare de falar e beija logo!". Não muitas. Umas três. Ela me traumatizou. Deveria ter ido a um psicólogo dias depois para aprender a entender que eu não tenho nada a ver com o sentimento alheio, sem ter culpa alguma, sem alimentar nada. Não tenho culpa de amar e não ser amado, e nem de ser amado e não amar. E nem de amar, ser amado e mesmo assim deixar quieto. Nem eu, nem ninguém. Como não fui a um psicólogo, nunca saiu de minha mente a preocupação se ela seria um dia amada por algum homem. Mas sim. Ela foi amada. Casou-se. Depois de um tempo perdi contato total. Nem havia tantos motivos para termos mantido contato. Mas perdi contato propositalmente. Um dos respeitos que levo muito seriamente em minha vida é quando uma pessoa com quem converso bastante, tenho amizade forte, é solteira e começa a namorar. Tenho a elegância de respeitar o novo momento dela. Gentilmente me distancio. Muitos e muitos casos de amigas com quem eu tinha papo dos mais diversos e até confidenciais, ao saber que ela estava namorando ou mesmo evitava conversar, eu alegremente respeitava. Todos temos nossos momentos. Todos queremos saber o que é ser amado ou amada. Não é legal poluir a felicidade das pessoas. Falando em felicidade, demora - e meus jovens devem me ouvir! -, demora ser feliz. O tempo nos fará felizes. Porque antes entendemos a felicidade algo compartilhado e vem em parte do outro. Somente no outro que aprendemos a ter sentimentos. Raiva. Vaidade. Arrogância. Fúria. Compaixão. Amor. Solidão. Paixão. Sem o outro, nada sentiríamos. Onde entra o tempo na demora para ser feliz? Sentir, sentir, sentir, sentir e sentir por anos e anos e anos. De tanto sentir, aprender que os sentimentos que achamos eternos e profundos, são infelizmente rasos e cíclicos. O que eu acho mais importante agora? É não desiludir e convidar a sentir intensamente as dores e as felicidades. Não ouça os mais velhos como eu. Sinta apenas. Não ouça não. Sentir é tudo. Se lá naquela pergunta inicial fosse-me perguntado hoje eu responderia "claro que será amada sim!" Tendo certeza ou não da resposta. Sou otimista. Por isso persisto. Quero sentir ainda. Convido também a sentir. Ao menos fica em nós a sensação cíclica que parece eterna. Mas não o é. A eternidade vem das criancas. Um paradoxo fácil de compreender pelos filósofos.
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