As relações humanas estão muito difíceis. Pelo tempo em que vivemos e pela configuração de nossa sociedade. Acho que em uma tribo indígena ainda imaculada da influência do Ocidente seja outra relação o ser amigo. Não falo com estilo e busca de impacto. Praticamente a amizade se estreitou e raros contatos, que se faz, formam amizade. Eu falo para meus alunos que não sou amigo, para não esperarem de mim amizade fora da sala de aula. Aliás, nem dentro da sala de aula. Eles não precisam de um amigo - por mais que se estabeleça amizade. Precisam de um professor, que se preocupe com eles. Com meus filhos a mesma situação. Sou pai. Eles não precisam de mim como amigo. A referência tem de ser o pai, e minha intimidade é total para ser pai, desde que nos limites de ser pai. Talvez quando eu envelhecer, eles possam encontrar o amigo, ou eles se tormarem pai de um idoso. A propósito, um relacionamento amoroso não precisa estabelecer a relação "amigos". Companheiros, parceiros e até cúmplices. Mas suspeito que é um mal a amizade em um relacionamento amoroso, que antecede a angústia de perder a referência da pessoa com quem se convive e se compartilha praticamente tudo. Sei que soa radical tira a amizade disso tudo. Por outro lado, pensando em amizade em si, em ser amigo, podemos lançar luz ao ser de fato amigo. Não chamamos um amigo de filho, aluno, amor. É amigo! Amigo implica um grau de cumplicidade que muitas vezes não há entre professores e alunos, pai e filho, marido e mulher. Para alguns poucos amigos confiamos praticamente tudo e teremos a certeza de que a pessoa nunca, jamais nos julgará, nem nos condenará, não irá mentir jamais, não será nada a não ser sincera, autêntica e verdadeira. É amiga. Neste sentido estamos em uma época, dentro do dinamismo social atual, em que vivo, em que estabelecer relações fortes de amizade é algo muito raro. Vejo que o conceito básico de transferência emocional, de que falou Freud, se aplica maravilhosa e reciprocamente entre amigos, cuja empatia é a máxima. Sei que as exceções existem. Há pais amigos dos filhos. Há professores amigos dos alunos. Há maridos muito amigos de suas esposas. Tento ser tudo isso na prática, mas sei que filho, alunos e espsa (marido) precisam de amizades genuínas para extravazar e não ser julgado. Claro que se há amizade pura e genuina entre eles, no conceito em que suponho, jamais há nenhuma espécie de julgamento, crítica destrutiva, condenação, mentira. Há o ideal de acolher a fraqueza do outro sempre e, nos erros, perdoar. Um amigo perdoa o outro amigo. Foi isso que o Burro disse ao Shrek. Literalmente. "É isso que fazem os amigos. Eles perdoam uns aos outros." Foi no final do Shrek 1. Creio que a História das amizades varia ao longo dos séculos. Mas supeito que prevalece o acolhimento, a aceitação, o não julgamento e até o eventual perdão na falha. O professor, daqui uns anos, se torna estranho. O casal pode se tornar estranho um ao outro, mesmo juntos, depois de conviver por anos. Os pais amarão os filhos incondicionalmente, mas criam-se os filhos para o mundo, para eles viverem suas vidas, às vezes distantes e ausentes por anos. Já aquele amigo, distante no tempo e no espaço, jamais se torma estranho. No reencontro, abraços fraternos são dados e logo se confessa a vida. Praticamente tudo. Não é questão de pessimismo sobre os relacionamentos humanos. É uma impressão dos tempos. Tenho meus amigos, que são meus irmãos, que há anos não os vejo por circunstâncias da vida. Mas sei que um carrega o outro no coração. Se vê no olhar, porque os olhos sorriem. A amizade vem destes olhos, que sorriem. Ganhamos as pessoas ao sorrir com o olhar. O olhar é nosso melhor amigo.
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