segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Casal briga

Estava indo treinar e vi uma daquelas cenas de conflito romântico, que parte meu coração. Um casal no ponto de ônibus. Ambos boa aparência, nem jovens, nem velhos, que formavam um belo casal. Um stress qualquer os acompanhava e ele parecia querer partir para SP. Ele de pé com, mochila nas costas. Ela sentada numa madeira atravessada, quase em silêncio, pernas cruzadas, dedos noa dentes. Ele abria as mãos, argumentava, andava em curtos passos. Ela tentava responder algo, e se via para mim o olhar dela refém do amor romântico, e o jeito dele, que também parecia amar, mas não queria ceder. Dizia que ia embora, e a mochila era a verdade de sua intenção. A espera dele pelo ônibus soava a ela palavras devastadoras para a sua alma. Eu creio que toda separação é uma incognita cheia de dores e angústia. Eu andava de bicicleta pela rodovia e testemunhei a cena por alguns segundos. Doeu meu coração, como quem vé um filme triste. O amor nunca deve ser em hipótese alguma chantagista, porque é optar pela crueldade. Eu o achei cruel demais. Falo porque já vivi estas coisas na pele, e só observo a sensação. Uns 40 metros adiante, porém, eu olhei para trás e eles atravessavam a rodovia. Juntos. Encheu-me a esperança a mente. Eu imaginava-a sentada naquela surrada madeira do ponto de ônibus, vendo-o entrar no ônibus e partir. Ela amando-o, sem poder sobre o desejo dele. Ele escolhendo deixar alguém que se importava por ele, mais por uma birra e casmurrice do que porque seu coração sabia ser o fim. Saber o fim é igualmente sofrido, mas justo e necessário. Sei que em qualquer perda se aprende. Sei, mas podemos aprender sem a perda. Podemos ver e aprender. Dizem que sábio é quem aprende com as experiências dos mais velhos. Por outro lado, viver suas próprias é o sal da terra neste mundo. Imagino-os agora à noite juntos, sem briga, em harmonia, um ao lado do outro, como ressaca emocional do que eles não desejavam. Eu desejo a eles esta paz. Hoje li um conto para os alunos cujo eixo era "a parte mais forte de uma relação sempre tem que aprender a ceder": pai e filho, professor e aluno, adulto e criança. Não importa. O lado mais forte de uma relação tem que ser mais equilibrado. Num relacionamento romântico o difícil é o equilíbrio. Ceder demais é suicídio emocional e possivelmente ser escravo do outro. Não ceder nunca é egoísmo e a vida pode ser eterno conflito. Onde está o ponto de equilíbrio? Tenho a resposta para mim. E para aquele casal? E para todas as demais pessoas? São reflexões. Mesmo assim, a cena daquele casal vai permanecer comigo quase que para sempre, porque ao que tudo indica ser refém do amor é perder-se como ambos estavam aparentemente perdidos. Ao menos são as minhas impressões. De repente são apenas irmãos, ou amigos etc. Erradas ou não, fiquei feliz de vê-los atravessando a rua em busca da reconciliação. Atravessar a rua é uma ação. Se eu estiver correto era tudo o que ambos queriam.

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