sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Meu Maior Amor Juvenil

Meu maior amor juvenil

Uma das razões que me colocou a escrever, foi um longo e platônico amor. Não foi o meu primeiro (meu primeiro foi a Patrícia), mas com certeza o mais intenso. Este amor me ensinou que podemos amar e mesmo assim escolhermos entre nossos sentimentos e nossas vidas. Eu optei por minha vida. Não abri mão dela.

Algo me dizia que com ela, a Lica, eu seria infeliz e não construiria a minha ideia de família. Eu sempre quis ser pai. Para criar, estar presente, educar, brigar se necessário, e esperando as malcriações inevitáveis como hoje eu vivo. Não errei em minha previsão. Este meu platônico amor não casou, não tendo filhos e vivendo uma constante adolescência aos 38 anos. Incrivelmente nos encontramos no curso de inglês em 2012. Eu como professor; ela como aluna. Foi surreal. Na verdade, eu retomei contato com ela pelo Facebook. E eu a incentivei a fazer o curso e, mais do que isto, ir para o exterior. Ela é de família classe média. Os pais apoiaram a ideia e ela foi. Já está há dois anos morando lá, em San Diego.

E olha que bacana. Este amor me fez sofrer muito. E foram nos livros e leituras e poesias que descobri parte da tradução deste sentimento confuso e, na época, complicado para um adolescente como eu... Se sou escritor, eu devo a ela muito. Claro tive sorte ou sabedoria, no caso, de seguir minha intuição porque tive oportunidade de estarmos juntos, mas nada do que eu gostava, ela gostava. Seria um desastre. Devemos respeitar os gostos. E a empatia.

Não dá sempre para confiar na intuição. Conhecer uma pessoa, por isto, depende de um pouco de intimidade. Para o bem. Para o mal. Quantas frustrações não temos! Quantas expectativas quebradas nas intimidades. E que angústia, não? A ponto de perguntarmos: o que eu estou fazendo aqui?!? Exato.

Não devemos desconfiar das intimidades. Não desconfie das intimidades, ainda mais depois de repetidos momentos. Intimidade é a verdade. E mesmo que você se encante e desconfie do encanto, eu posso afirmar que o encanto não é o acaso, não foi sem querer, não foi planejado, premeditado: a pessoa deve ser mesmo encantadora. Disto eu não tenho dúvida. Não digo do sedutor que ilude; falo do encanto, que faz a pessoa crescer interiormente. O sedutor deixará você menos; o encantador, deixará você mais. E quanto encanto não temos ao nos sentirmos mais com a pessoa que nos encanta!

O que eu senti por este meu intenso amor lá no passado foi sedução. "Perdi-me dentro de mim." O que eu busco nas pessoas hoje em dia é encantamento, porque é bem o outro deixar você se sentir mais. Mais do pouco que somos. E na intimidade não vejo o complicado. Vejo um momento para decidir o caminho de nossa parcial felicidade. Saber o que quer e para onde ir nos faz felizes. E fiquemos com esta última: ser felizes. Estar bem com o outro que amamos dentro de nós.

Meu Maior Amor Juvenil

Meu maior amor juvenil

Uma das razões que me colocou a escrever, foi um longo e platônico amor. Não foi o meu primeiro (meu primeiro foi a Patrícia), mas com certeza o mais intenso. Este amor me ensinou que podemos amar e mesmo assim escolhermos entre nossos sentimentos e nossas vidas. Eu optei por minha vida. Não abri mão dela.

Algo me dizia que com ela, a Lica, eu seria infeliz e não construiria a minha ideia de família. Eu sempre quis ser pai. Para criar, estar presente, educar, brigar se necessário, e esperando as malcriações inevitáveis como hoje eu vivo. Não errei em minha previsão. Este meu platônico amor não casou, não tendo filhos e vivendo uma constante adolescência aos 38 anos. Incrivelmente nos encontramos no curso de inglês em 2012. Eu como professor; ela como aluna. Foi surreal. Na verdade, eu retomei contato com ela pelo Facebook. E eu a incentivei a fazer o curso e, mais do que isto, ir para o exterior. Ela é de família classe média. Os pais apoiaram a ideia e ela foi. Já está há dois anos morando lá, em San Diego.

E olha que bacana. Este amor me fez sofrer muito. E foram nos livros e leituras e poesias que descobri parte da tradução deste sentimento confuso e, na época, complicado para um adolescente como eu... Se sou escritor, eu devo a ela muito. Claro tive sorte ou sabedoria, no caso, de seguir minha intuição porque tive oportunidade de estarmos juntos, mas nada do que eu gostava, ela gostava. Seria um desastre. Devemos respeitar os gostos. E a empatia.

Não dá sempre para confiar na intuição. Conhecer uma pessoa, por isto, depende de um pouco de intimidade. Para o bem. Para o mal. Quantas frustrações não temos! Quantas expectativas quebradas nas intimidades. E que angústia, não? A ponto de perguntarmos: o que eu estou fazendo aqui?!? Exato.

Não devemos desconfiar das intimidades. Não desconfie das intimidades, ainda mais depois de repetidos momentos. Intimidade é a verdade. E mesmo que você se encante e desconfie do encanto, eu posso afirmar que o encanto não é o acaso, não foi sem querer, não foi planejado, premeditado: a pessoa deve ser mesmo encantadora. Disto eu não tenho dúvida. Não digo do sedutor que ilude; falo do encanto, que faz a pessoa crescer interiormente. O sedutor deixará você menos; o encantador, deixará você mais. E quanto encanto não temos ao nos sentirmos mais com a pessoa que nos encanta!

O que eu senti por este meu intenso amor lá no passado foi sedução. "Perdi-me dentro de mim." O que eu busco nas pessoas hoje em dia é encantamento, porque é bem o outro deixar você se sentir mais. Mais do pouco que somos. E na intimidade não vejo o complicado. Vejo um momento para decidir o caminho de nossa parcial felicidade. Saber o que quer e para onde ir nos faz felizes. E fiquemos com esta última: ser felizes. Estar bem com o outro que amamos dentro de nós.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

São ou Não Descartáveis

Reflexão horrível de fazer. Chega a ser cruel e até dolorida. Ao extremo pode levar os mais sensíveis à ânsia cujo mal-estar é nitidamente 100% psicológico. Mas calma. Aparentemente todas as pessoas concordarão. Arrisco que quase nenhuma se enxergará no lado negativo. A grande maioria condenará o chantagista e perdoará o 'coitado'. no entanto.

Falo do uso descartável que as pessoas fazem dos outros, ou quando o outro não tem mais utilidade, ou quando o outro dá um basta e não aceita mais imposição alguma, parando de ceder. Neste momento as coisas ficam nítidas e a alma do opressor é revelada.

Eu não sou assim, opressor. Não me coloco como vítima também. E digo com tanta tranquilidade justamente por ser 'vítima' de abuso das pessoas próximas. Eu não precisava de ajuda, porque tinha mais razão de ser sendo útil. Reparem que quando você quer realmente ajudar alguém, ela nunca sai prejuducada. Nunca. Do contrário, as pessoas usam as pesssoas e depois descartam...

Eu avalio muito o 'padrão'. A experiência nos ensina alguns padrões basilares, sendo que apenas aprendemos os padrões depois de três experiências semelhantes. Podem contar. Podem esperar...

Caso os seus três últimos casos amorosos eram desajustados, o padrão é você, e por algum comportamento psicológico você busca este perfil de caso. É um padrão. Considere este critério do 'terceiro' semelhante que acontece em sua vida. Ele mostrará um padrão. Pode ser muito benéfico para uma auto-avaliação. Ajuda a nos ajudar.

E o padrão se repete em ser útil. Clara e obviamente o padrão aparece quando você não aceita mais ser usado em hipótese alguma. Você deixa claro. A pessoa aceita. Diz que entende. Mas reserva-se porque não é ainda definitivo. Sabe que aos poucos, com um pouco de conversa, você pode ser maleável, o que é verdade. Mas quando realmente você se torna inflexível...

Bem, aí mesmo na sua inflexibilidade você pode ou poderá lembrar à pessoa: tudo o que você está falando contra mim agora, e mesmo o modo como você fala é pela simples razão de que você sabe que agora nunca mais me usará ou irá tirar nada de mim mais. E ela falará coisas que você não acreditaria. Do contrário... Exatamente. Do contrário, ela toleraria muita coisa e se guardaria. Não por amor, como muitas mães fazem com seus filhos desobedientes. Os interesseiros fazem porque são egoístas. Pensam só neles. Fazem por interesse. Há ainda a possibilidade de tirar algum suco. Não jogará ainda no lixo o que sobra. Somente vai para o lixo quando definifivamente ela perceber que pode cair o mundo, o rompimento aconteceu. Nada mudará a postura do oprimido.

As chantagens emocionais vivem bastante disto. Eu acho triste. Vejo sim uma mistura de fraqueza com muita safadeza e manipulação. Porém, é necessário romper-se de qualquer escravidão. Nenhuma é bacana. Nem todos se dão bem com a escravidão emocional. Acho que ceder faz parte. Minhas três experiências, no entanto, me fizeram botar os pés no chão. Claro que fui errado por ceder demais. Não posso ser vítima. Porém, depois da terceira experiência, criamos uma estrutura interna que nos ajudará a solucionar muitos problemas. Viver tem estes benefícios. Podemos aprender para melhorar. E acho que melhorei...

domingo, 13 de dezembro de 2015

Sociologia de Nossa Burguesia Brasileira

por Flávio Notaroberto

Por que gosto de falar muito sobre mim? Creio e sinto que praticamente a maioria do potencial do sentido das palavras já foi usado. Qualquer força de expressividade já foi expressa por grandes pensadores e escritores. A originalidade não existe mais, senão para os jovens que são virgens e ainda aprendem o desconhecido. Sem novidade expressiva, falo de mim porque ao menos são as minhas impressões que podem ser interessantes.

As pessoas precisam de traduções emocionais e reconhecer seus sentimentos, em síntese.

Encontrar na palavras o alívio que a descoberta de um sentimento confuso, ou que confundia, traz, é como ter um dinheiro inesperado para zerar todas as dívidas. Se me permitem admitir: temos dívidas emocionais. E raramente sabemos se são dívidas que fizeram para nós, ou se fomos nós que as arrumamos.

Neste sentido que muita coisa cansa. Cansa o excesso de problemas que criamos ou que nos trazem. E agora falo de mim: como me trazem problemas. Aliás, muitos problemas. O contrário não é verdadeiro, com exceção de dois: cito no final.

Eu tinha o hábito de me preservar mais. Não que não tinha meus problemas, e que ainda não eram meus. Mas me preservava muito mais. Por sinal, vou falar sobre ser burguês já que no fundo do pobre ao rico: todos somos burgueses, e a essência do burguês é a vida privada e liberal.

Eu sou burguês. Gosto de ser "burguês", porque denota simultanemente ser privado e reservado no âmbito familia e trazer na alma o conceito de liberdade e autonomia no âmbito social. Que brasileiro sabe desta nota histórica?

Eu li um pouco sobre a ascenção da burguesia no Séc. XVIII em dezenas de livro. Cito aqui o História Social da Arte e Literatura, do alemão Arnold Hauser. A família burguesa em oposição à família da nobreza.

Todo burguês é reservado com sua intimidade, sem deixar de fazer valer a sua liberdade, ou mais precisamente a realização de sua vontade.

Curiosamente estou lendo este dias Honoré Balzac. Um escritor e romancista francês que teve a ideia de retratar e pintar em palavras a sociedade francesa ao longo dos anos 1600, 1700 e 1800, período de transição social da família da nobreza para a burguesia. Lembro que a Revolução Francesa (matar literalmente reis) foi em 1789. A nobreza, quem satisfazia suas vontades através da plebe e do burguês, ao passo que quem satisfaz ainda hoje a vontade da burguesia é o poder econômico e para isto o conceito paradoxal de ser livre.

Pois é. As pessoas, e logo os burgueses, no Brasil, tem pouca iniciativa pessoal, logo não sabem que não são livres como um burguês o é atualmente. E pior, além disso, tem pouco conhecimento de mundo, de arte, de leitura, o que nos dias de hoje limita demais os pensamentos. E as razões são diversas para esta falha.

Por outro lado, a falta de cultura geralda pela falta de conhecimento não implica falta de dinheiro da nossa burguesia e nem dificuldade de acesso aos produtos modernos. Ao contrário. Nossa sociedade brasileira acha que ter acesso aos produtos substitui ler, aprender, refletir. Se comportam na essência bem ignorantes como os primeiros burgueses do século dezessete e dezoito. Sem cultura mas com dinheiro. Aí que vem o estrago.

A maioria das pessoas que tem dinheiro no Brasil, por pouco que seja, acredita que nunca é problema e sempre parte da solução. Paga impostos, ainda que sonegue, e opine, ainda que sem preparo. Neste ponto a novidade: ela é o problema que nossa sociedade brasileira burguesa atual temos. Como professor e como escritor, falo e deponho como é de arrepiar estes problemas que esta burguesia inculta nos traz opinando e vivendo como fosse a solução. Não é. Porque não consegue. Sem preparo.

Aliás, retomando, eu só levo problema para as pessoas, ou sou um problema de duas formas. A primeira, porque minhas palavras vão na alma e confundem a zona de conforto e crença de quem me lê e ouve: grande problema mesmo; e a segunda é quando me cansa ou me prejudica demais anular-me e ceder ao outro a minha própria vontade e desejo, dando um basta. Sim. Neste momento o outro tem um problema. Coisa mais particular.

Bem, só não seremos problemas a quem amamos incondicionalmente. A vida pode nos tornar um problema aos outros sem querermos, porque o corpo cansa, envelhece e defina. Algumas tristes velhices... E neste momento não há mais nada. Absolutamente nada, senão esperar passivamente definhar. Claro que o bom é ter um boa aposentadoria. Qualquer sociedade cuida o mínimo de um idoso gagá que ganha muito bem. Ele é ainda um burguês. As pessoas vão consumir com seu dinheiro.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

QUANDO VOCÊ NASCEU?

QUANDO VOCÊ NASCEU?

Em 2004 dei aulas em uma escola particular na cidade de Arujá, próximo à capital paulista. Eu marava no bairro de Ermelino Matarazzo, na zona leste, e trabalhava em mais quatro escolas na cidade de São Paulo: no Bom Retiro, na Bela Vista, em Artur Alvim e em Ermelino Matarazzo, no colégio Argumento, onde aliás fiz o Ensino Médio.

Todo início de ano, em todas as escolas, antes das aulas efetivamente começarem, há um ritual de reuniões pedagógicas onde se discute sobre tudo o que envolve a relação professor x escola x aluno x família. Se levássemos mais a sério estes encontros, eles seriam extremamente importantes e gerariam excelentes frutos.

E na escola lá em Arujá, próximo a um condomínio de luxo, não foi diferente. Eu, recém contratado, tenho um olhar desconfiado quando não acostumado ao meio. Falo menos, ouço mais, palpito pouco, sou conciso e lacônico em cada intervenção. A reunião pedagógica começou depois do café com pão e bolachas. A diretora olhou para nós, propondo uma reflexão inusitada:

“Quando você nasceu?”

Não houve quem não sorrisse levemente diante da questão. Eu quase falei 02 de maio de 1974. Preferi esperar...

E antes, porém, de qualquer resposta, ela insistiu, sem mudar a expressão séria do olhar.

“Quando você realmente nasceu?”

E aí a pergunta ficou um pouco mais complexa no ar! A palavra “realmente” soou enigmática. Um “presta atenção!” seu tonto! Interessante ainda é que ela disse: “Não se preocupem se chorarem. Chorar faz parte da vida! Chorar é uma maneira de explodir o coração silenciosamente.” Chorar? Foi estranho aquilo.

E ela insistiu: “Quando você realmente sabe que começou a viver e que nasceu de fato para a vida?” Então, a partir destas palavras, a coisa ficou séria! Todos os presentes engoliram seco.

Uma professora, soltando algumas lágrimas, falou algo relativo a uma doença que ela tinha superado! E o silêncio foi assustador. Outro, em seguida, lembrou da ausência da mãe quando era adolescente. E assim fomos! Quando minha vez, em lágrimas, solucei o nascimento de minha filha em 2000 e de meu filho em 2002. E todos, um por um, fomos descobrindo quando realmente tínhamos nascido para o mundo e para a vida!

Eu sempre fui perspicaz. Logo matei a charada! Nascer não é começar a respirar. Nascer envolve o que de fato fazemos com nossa vida quando decidimos fazer algo bom com ela! Nascer é quando nos sentimos amados e amando. Nascer é quando nos sentimos realmente vivos para a vida.

A diretora mexeu em nosso emocional, vasculhando nossas memórias: as marcas positivas e negativas que temos dentro de nós e que fazem o que somos. Seres absolutamente únicos!

Finalmente, eu descobri quando tinha nascido para o mundo! E não era um nascimento físico. Era um nascimento emocional! Um nascimento – como ela disse – para o mundo. O mundo real! O mundo que não pertencia a mim, porque passei a pertencer ao mundo. No meu caso, ao mundo de meus filhos e à minha responsabilidade de ser pai!

Fazer as pessoas nascerem para o mundo significa fazê-las reconhecer suas memórias mais marcantes, tirando delas a marca de crianças egoístas e adolescentes mimados. E vejo isto como grandioso! Grandioso porque somos o conjunto de nossas memórias. Somos a consciência de nossas memórias!

Por que não fazer da presença em sala de aula uma oportunidade de gerar memórias positivas nos alunos? A grande maioria de nós passa pela escola. Raramente, no entanto, ela é um sinônimo de nascimento! Infelizmente criam-se muitos traumas e dificuldades e desesperos ao longo dos anos em sala de aula!

Como sugestão de reflexão, dentro do seu coração, quando você realmente nasceu? Quando você realmente nasceu para a vida, para o mundo? Nascer é uma das grandes virtude do ser humano, principalmente quando ele já está vivo neste mundo, com o mundo, para o mundo, pelo mundo. Você já nasceu ou ainda estar para nascer?

domingo, 6 de dezembro de 2015

Enquando o Sol Caía

Enquanto o sol caía, uma mão esfregava a outra.
Era um diálogo, e ao fundo o sol caía.
Os olhos se viam, e parecia que das bocas poucas palavras saíam.
Ao longo, abóbora, o sol, entremente, caía.
Não parecia um casal que a vida discutia.
Nem a natureza do sol parecia qualquer dia.
Era apenas duas pessoas em que uma delas passava as mãos uma na outra, sem que para isto algo importante existia.
Era tarde de um dia certamente ensolarado.
O cair da tarde do dia muito daquilo que eventualmente fora o dia.
Para a noite surgir tão firme como o dia que talvez as duas pessoas diante de si mesmas ainda continuariam.
Só quem tem o olhar vadio na vadiagem da existência sabe apreciar a brevidade do sol escondido nas mãos de dois olhos que nem discutiam.
A poesia no olhar é fria para quem nem noite nem dia tem a importância que tem a vida.
Ficaram lá sem saber que foram vítimas de uma lente humana que em um relance o pouco que via, sentia.
A sensação tudo explica.
A sensação inclusive de ser, seja de noite ou de dia.
Amor que é bom amar a essência somente que a poesia cultiva.
E de poesia a alma humana breve sabe que para a eternidade um dia é simplesmente uma finita sequência de dias.
As pessoas querem ser amadas mas amar a si mesmas em suas carências.
Sobre poesia? Nem digo. Mais nada. Nadinha...

Fêmeas humanas não comem placenta

Uma cena forte para mim na vida animal é a fêmea devorando a própria placenta após o parto da sua cria. Seja quais das boas razões e benefícios há nisto, um gesto instintivo e sem julgamento. Mais do que alimento, porém. Ou que seja apenas mais um alimento fácil que lhe traga energia, é um ato que nossa cultura vê com nojo e incluve desnecessário.

No parto humano, não me lembro de uma cultura em que a mulher coma a própria placenta. Pode inclusive ainda haver tribos que o façam. Ou tribos que faziam e veneravam este gesto. A natureza tem algo uniforme e comum e belo que harmoniza todas as espécies em uma massa homogênea válida para todos. Por mais que há cultura em nós, somos natureza.

Em nossa cultura, alguns aspectos da natureza foram psicologicamente domesticados. O fato se evidencia hoje na mulher humana, ou na fêmea humana, não precisar devorar a própria placenta assim que nasce seu rebento. E os partos são aos milhares todos os dias. Da placenta do parto, se especula bastante nutriente e coisa para a ciência: desde as células-troco a enzimas e substâncias para a cura do virus da AIDS. Uma riqueza que envolve o filho que vem ao mundo sentir o que os vivos sentem e que a espécie perpetua. Sou fã da vida. Admiro a força e a fragilida de nossas crias. Amo ver o corriqueiro como uma milagre. Amo olhar e sentir.

Para mim, nada mais sacro em toda a sacralidade de nossa espécie, ou de qualquer espécie, que a maternidade. Viver é pouco se comparado ao nascer. Superar a vida que chega é um nada à vida que termina. Uma mulher grávida deveria ser venerada como Deusa, embora a minha fé apenas venere o Deus único. Tal a vida que ela carrega, que sem ela, a mulher, não teríamos a nós mesmos.

Amo as mulheres, como minha mãe, pelo potencial pai que todos os homens podemos ser e pelo pai que sou, pelo pai que deixo meus filhos serem o que a vontade deles querem ser. Sei que para o amor, há o ódio. Meu lado é da admiração e carinho. Não dá para fazer que os contrários gostem também do amor da vida, mas dá para dizer a quem ama a maternidade que estamos juntos. Juntos para nutrir sonhos. E florescer nossos rebentos.

Flavio Notaroberto