por Flávio Notaroberto
Por que gosto de falar muito sobre mim? Creio e sinto que praticamente a maioria do potencial do sentido das palavras já foi usado. Qualquer força de expressividade já foi expressa por grandes pensadores e escritores. A originalidade não existe mais, senão para os jovens que são virgens e ainda aprendem o desconhecido. Sem novidade expressiva, falo de mim porque ao menos são as minhas impressões que podem ser interessantes.
As pessoas precisam de traduções emocionais e reconhecer seus sentimentos, em síntese.
Encontrar na palavras o alívio que a descoberta de um sentimento confuso, ou que confundia, traz, é como ter um dinheiro inesperado para zerar todas as dívidas. Se me permitem admitir: temos dívidas emocionais. E raramente sabemos se são dívidas que fizeram para nós, ou se fomos nós que as arrumamos.
Neste sentido que muita coisa cansa. Cansa o excesso de problemas que criamos ou que nos trazem. E agora falo de mim: como me trazem problemas. Aliás, muitos problemas. O contrário não é verdadeiro, com exceção de dois: cito no final.
Eu tinha o hábito de me preservar mais. Não que não tinha meus problemas, e que ainda não eram meus. Mas me preservava muito mais. Por sinal, vou falar sobre ser burguês já que no fundo do pobre ao rico: todos somos burgueses, e a essência do burguês é a vida privada e liberal.
Eu sou burguês. Gosto de ser "burguês", porque denota simultanemente ser privado e reservado no âmbito familia e trazer na alma o conceito de liberdade e autonomia no âmbito social. Que brasileiro sabe desta nota histórica?
Eu li um pouco sobre a ascenção da burguesia no Séc. XVIII em dezenas de livro. Cito aqui o História Social da Arte e Literatura, do alemão Arnold Hauser. A família burguesa em oposição à família da nobreza.
Todo burguês é reservado com sua intimidade, sem deixar de fazer valer a sua liberdade, ou mais precisamente a realização de sua vontade.
Curiosamente estou lendo este dias Honoré Balzac. Um escritor e romancista francês que teve a ideia de retratar e pintar em palavras a sociedade francesa ao longo dos anos 1600, 1700 e 1800, período de transição social da família da nobreza para a burguesia. Lembro que a Revolução Francesa (matar literalmente reis) foi em 1789. A nobreza, quem satisfazia suas vontades através da plebe e do burguês, ao passo que quem satisfaz ainda hoje a vontade da burguesia é o poder econômico e para isto o conceito paradoxal de ser livre.
Pois é. As pessoas, e logo os burgueses, no Brasil, tem pouca iniciativa pessoal, logo não sabem que não são livres como um burguês o é atualmente. E pior, além disso, tem pouco conhecimento de mundo, de arte, de leitura, o que nos dias de hoje limita demais os pensamentos. E as razões são diversas para esta falha.
Por outro lado, a falta de cultura geralda pela falta de conhecimento não implica falta de dinheiro da nossa burguesia e nem dificuldade de acesso aos produtos modernos. Ao contrário. Nossa sociedade brasileira acha que ter acesso aos produtos substitui ler, aprender, refletir. Se comportam na essência bem ignorantes como os primeiros burgueses do século dezessete e dezoito. Sem cultura mas com dinheiro. Aí que vem o estrago.
A maioria das pessoas que tem dinheiro no Brasil, por pouco que seja, acredita que nunca é problema e sempre parte da solução. Paga impostos, ainda que sonegue, e opine, ainda que sem preparo. Neste ponto a novidade: ela é o problema que nossa sociedade brasileira burguesa atual temos. Como professor e como escritor, falo e deponho como é de arrepiar estes problemas que esta burguesia inculta nos traz opinando e vivendo como fosse a solução. Não é. Porque não consegue. Sem preparo.
Aliás, retomando, eu só levo problema para as pessoas, ou sou um problema de duas formas. A primeira, porque minhas palavras vão na alma e confundem a zona de conforto e crença de quem me lê e ouve: grande problema mesmo; e a segunda é quando me cansa ou me prejudica demais anular-me e ceder ao outro a minha própria vontade e desejo, dando um basta. Sim. Neste momento o outro tem um problema. Coisa mais particular.
Bem, só não seremos problemas a quem amamos incondicionalmente. A vida pode nos tornar um problema aos outros sem querermos, porque o corpo cansa, envelhece e defina. Algumas tristes velhices... E neste momento não há mais nada. Absolutamente nada, senão esperar passivamente definhar. Claro que o bom é ter um boa aposentadoria. Qualquer sociedade cuida o mínimo de um idoso gagá que ganha muito bem. Ele é ainda um burguês. As pessoas vão consumir com seu dinheiro.
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