A Solidão
Peguei a estrada ontem à noite voltando do litoral para SP. A Mogi-Bertioga. À certa altura, vi-me sozinho. Sem carro algum. Céu, um breu. Vegetação escura. A pista sinuosa. O rádio tocava um jazz mais para blues. E de repente, pensei ma palavra "solidão". Inspirado, poetizei "não queiram tal solidão!".
Eu dirigi grande parte do caminho construindo em palavras a Solidão. Fui, mentalmente, sussurando com a mente um poema sobre a Solidão. Uma pena nosso cérebro não ser mais capaz de salvar os cânticos como antes! Sim. O homem, antes da escrita, salvava sua literatura na cabeça.
Teimosamente, fui criando um poema, mesmo sabendo que seria apenas para mim: seu criador, seu apreciador, seu julgador, seu declamador, editor e seu carrasco.
O nome do poema seria "A Solidão" e começaria mais ou menos assim:
"Solidão!
Não queiram!
Não queiram a solidão de uma estrada sinuosa à vida noturna.
Não queiram tal solidão!
A solidão do abandono silencioso do que somos, fomos, seremos.
Não queiram.
Não queiram.
Não à solidão de qualquer canto e cântico de qualquer gênero, de qualquer época, de qualquer solidão.
Não.
Não à solidão.
A solidão do olhar perdido lá longe, nas estrelas, lá distante, no passado, lá entregue dentro de nossa cabeça.
Não!
Jamais queiram tal solidão do afastamento da lápide em que todos dão as costas depois de plangearem verdadeiramente.
Solidão não mata; nos abandona em nós mesmos e vive em nós.
Não queiram tal solidão.
Ela, a solidão do não sentir-se, nem remédio da dor imaginada.
Não existe a solidão, senão criada e intensamente vivida.
A solidão de estar acompanhado.
A solidão de ver acompanhado.
A solidão da vontade de um dia estar acompanhado.
A solidão do alívio de estar só.
A solidão de sofrer, de fazer sofrer, de viver sem saber."
E o poema estendeu-se pela serra inteira. E assim eu quis. Refleti que iria chegar em casa, colocar uma caneta em minhas mãos, papel na mesa e escrever. Escrever ou reescrever a solidão de viver uma rodovia noturna ao som de um blues. Ainda o faço um dia. Tem pulsado bastante a vontade de poetizar o máximo possível tudo aquilo que vale nem que seja um verso só, único, solitário de poesia.
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