quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

QUANDO VOCÊ NASCEU?

QUANDO VOCÊ NASCEU?

Em 2004 dei aulas em uma escola particular na cidade de Arujá, próximo à capital paulista. Eu marava no bairro de Ermelino Matarazzo, na zona leste, e trabalhava em mais quatro escolas na cidade de São Paulo: no Bom Retiro, na Bela Vista, em Artur Alvim e em Ermelino Matarazzo, no colégio Argumento, onde aliás fiz o Ensino Médio.

Todo início de ano, em todas as escolas, antes das aulas efetivamente começarem, há um ritual de reuniões pedagógicas onde se discute sobre tudo o que envolve a relação professor x escola x aluno x família. Se levássemos mais a sério estes encontros, eles seriam extremamente importantes e gerariam excelentes frutos.

E na escola lá em Arujá, próximo a um condomínio de luxo, não foi diferente. Eu, recém contratado, tenho um olhar desconfiado quando não acostumado ao meio. Falo menos, ouço mais, palpito pouco, sou conciso e lacônico em cada intervenção. A reunião pedagógica começou depois do café com pão e bolachas. A diretora olhou para nós, propondo uma reflexão inusitada:

“Quando você nasceu?”

Não houve quem não sorrisse levemente diante da questão. Eu quase falei 02 de maio de 1974. Preferi esperar...

E antes, porém, de qualquer resposta, ela insistiu, sem mudar a expressão séria do olhar.

“Quando você realmente nasceu?”

E aí a pergunta ficou um pouco mais complexa no ar! A palavra “realmente” soou enigmática. Um “presta atenção!” seu tonto! Interessante ainda é que ela disse: “Não se preocupem se chorarem. Chorar faz parte da vida! Chorar é uma maneira de explodir o coração silenciosamente.” Chorar? Foi estranho aquilo.

E ela insistiu: “Quando você realmente sabe que começou a viver e que nasceu de fato para a vida?” Então, a partir destas palavras, a coisa ficou séria! Todos os presentes engoliram seco.

Uma professora, soltando algumas lágrimas, falou algo relativo a uma doença que ela tinha superado! E o silêncio foi assustador. Outro, em seguida, lembrou da ausência da mãe quando era adolescente. E assim fomos! Quando minha vez, em lágrimas, solucei o nascimento de minha filha em 2000 e de meu filho em 2002. E todos, um por um, fomos descobrindo quando realmente tínhamos nascido para o mundo e para a vida!

Eu sempre fui perspicaz. Logo matei a charada! Nascer não é começar a respirar. Nascer envolve o que de fato fazemos com nossa vida quando decidimos fazer algo bom com ela! Nascer é quando nos sentimos amados e amando. Nascer é quando nos sentimos realmente vivos para a vida.

A diretora mexeu em nosso emocional, vasculhando nossas memórias: as marcas positivas e negativas que temos dentro de nós e que fazem o que somos. Seres absolutamente únicos!

Finalmente, eu descobri quando tinha nascido para o mundo! E não era um nascimento físico. Era um nascimento emocional! Um nascimento – como ela disse – para o mundo. O mundo real! O mundo que não pertencia a mim, porque passei a pertencer ao mundo. No meu caso, ao mundo de meus filhos e à minha responsabilidade de ser pai!

Fazer as pessoas nascerem para o mundo significa fazê-las reconhecer suas memórias mais marcantes, tirando delas a marca de crianças egoístas e adolescentes mimados. E vejo isto como grandioso! Grandioso porque somos o conjunto de nossas memórias. Somos a consciência de nossas memórias!

Por que não fazer da presença em sala de aula uma oportunidade de gerar memórias positivas nos alunos? A grande maioria de nós passa pela escola. Raramente, no entanto, ela é um sinônimo de nascimento! Infelizmente criam-se muitos traumas e dificuldades e desesperos ao longo dos anos em sala de aula!

Como sugestão de reflexão, dentro do seu coração, quando você realmente nasceu? Quando você realmente nasceu para a vida, para o mundo? Nascer é uma das grandes virtude do ser humano, principalmente quando ele já está vivo neste mundo, com o mundo, para o mundo, pelo mundo. Você já nasceu ou ainda estar para nascer?

Nenhum comentário:

Postar um comentário